quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018


Uma perspetiva holística

A perspetiva holista defende que todas as coisas devem ser pensadas como interligadas e interdependentes. Ocorre, então, perguntar como levar a considerar o sofrimento  no mundo por parte de uma sensibilidade embotada, produto da fragmentação e do individualismo? Como fortalecer as identidades culturais, sem cair na incomunicabilidade do gueto? Como fundar novas solidariedades para além da envolvente da própria “caverna”, da família, da profissão, da etnia? 

Na sociedade pós-moderna afigura-se prevalecerem orientações estabelecidas por quereres voláteis num crescendo de desejos, sem normas. Esta sociedade tornou-se atomista, configurando no individuo a ideia de que há apenas que estar sempre pronto para aproveitar novas oportunidades correspondentes a novas seduções, sempre com o timbre da indispensabilidade. Esta (pseudo) liberdade de decisão individual é, na verdade, manipulada e controlada por “quem”, em verdade, decide, na economia, na política, na arte e, mesmo e em certos casos, na “religião”, tornada “reverência” por deuses (bem) falsos ou “religação” a interesses bem humanos, comumente de índole marcadamente comercialista.

Parece ter de evitar-se a todo o custo  “levar/obrigar a pensar”, o que poderia significar cair do mundo cenário, criado pela cultura dos mass-media para formigueiros de consumidores telecomandados, para um mundo de humanos.

Para uma humanidade que não viva como comunidade-de-pessoas, o fundamental será a aptidão para desenvolver novos desejos para as novas seduções que sempre se apresentarão como indispensáveis, numa cedência total à lógica mercantil que pretende tornar o corpo o espelho dos modelos apresentados como perfeitos, enquanto a  “alma” vagueará  dos psicofármacos aos manuais  de autoajuda, do programa televisionado  ao redemoinho da indústria do entretenimento, em procura  de alguma  anestesia.

Seguimos em bando com a nossa maneira de ser (grandemente) conformada pelo ambiente social em que vivemos, pela mundividência que recebemos na ambiência cultural vigente no nosso meio, onde não se tem para ser mas é-se para ter, visando o ideal de parecer, o que acabará por banalizar atropelos diversos, nomeadamente ao ambiente! E o homem, que pretende autoclassificar-se  como o topo da criação, apresenta-se, de facto, como o maior predador, campeão insensato da destruição.

A civilização dita humana afigura-se representar uma vontade de domínio insaciável, onde não há lugar para a comunidade-de-ser, com a humanidade a desumanizar-se, a caminhar para uma termiteira gigantesca onde o outro é relegado para fora do horizonte, a não ser que possa contribuir para a concretização dum objetivo, sendo  encarado como um meio  para alcançar um determinado fim, nem que apenas seja aumentar o número dos likes, contribuindo para uma qualquer ascensão de ranking. A atomização da sociedade, o afunilamento de cada um sobre si próprio, o desencontro entre o eu e o seu tu retira sentido à relação do homem com o mundo, abrindo mesmo caminhos para exterminações humanas “racionalmente organizadas”, de que abundam exemplos.

Contrapondo-se a visões atomistas, uma abordagem holística, onde estarão presentes a complementaridade e a interdependência com preservação das experiências particulares, integrará a prática da alteridade, podendo contribuir para modificar o olhar sobre o mundo a facultar possibilidades novas, antes obscurecidas. Descobrir maneiras inusitadas de ter sem abdicar de ser numa relação harmónica com o meio ambiente. Em que a necessidade que um ser humano tem de encontrar-se com outro, condição necessária para formar-se como pessoa, construir e reconstruir a identidade pessoal como fruto de um diálogo permanente pode ser satisfeita. Com o eu a assumir uma posição de humildade, ultrapassando o eclipse da alteridade, deslocando-se do centro e elevando o outro a uma condição privilegiada, condição para que o eu possa transcender-se.

Em mensagem, de natureza “alteritária”  explícita, o Papa Francisco, analisou o encontro com o outro com base na parábola de Lázaro e o homem rico. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, o Papa diz: Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor. O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido.

 Francisco de Assis permanece aqui humildemente atual, insuperado  no  modo  de relacionar-se com o outro, de estar na existência,  um modo de realizar a aventura humana que nós, modernos ou pós-modernos, de há muito parecemos esquecidos . A Quaresma, há pouco iniciada, poderá constituir um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada vida que se cruza com a nossa é um dom a merecer, numa perspetiva holista, aceitação, respeito, amor.

Pedro Martins da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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