Uma perspetiva holística
A
perspetiva holista defende que todas as coisas devem ser pensadas como
interligadas e interdependentes. Ocorre, então, perguntar como levar a
considerar o sofrimento no mundo por
parte de uma sensibilidade embotada, produto da fragmentação e do
individualismo? Como fortalecer as identidades culturais, sem cair na
incomunicabilidade do gueto? Como fundar novas solidariedades para além da
envolvente da própria “caverna”, da família, da profissão, da etnia?
Na
sociedade pós-moderna afigura-se prevalecerem orientações estabelecidas por
quereres voláteis num crescendo de desejos, sem normas. Esta sociedade tornou-se
atomista, configurando no individuo a ideia de que há apenas que estar sempre
pronto para aproveitar novas oportunidades correspondentes a novas seduções,
sempre com o timbre da indispensabilidade. Esta (pseudo) liberdade de decisão individual
é, na verdade, manipulada e controlada por “quem”, em verdade, decide, na
economia, na política, na arte e, mesmo e em certos casos, na “religião”,
tornada “reverência” por deuses (bem) falsos ou “religação” a interesses bem
humanos, comumente de índole marcadamente comercialista.
Parece
ter de evitar-se a todo o custo “levar/obrigar
a pensar”, o que poderia significar cair do mundo cenário, criado pela cultura
dos mass-media para formigueiros de
consumidores telecomandados, para um mundo de humanos.
Para
uma humanidade que não viva como comunidade-de-pessoas, o fundamental será a
aptidão para desenvolver novos desejos para as novas seduções que sempre se
apresentarão como indispensáveis, numa cedência total à lógica mercantil que
pretende tornar o corpo o espelho dos modelos apresentados como perfeitos,
enquanto a “alma” vagueará dos psicofármacos aos manuais de autoajuda, do programa televisionado ao redemoinho da indústria do entretenimento,
em procura de alguma anestesia.
Seguimos
em bando com a nossa maneira de ser (grandemente) conformada pelo ambiente
social em que vivemos, pela mundividência que recebemos na ambiência cultural
vigente no nosso meio, onde não se tem para ser
mas é-se para ter, visando o ideal de
parecer, o que acabará por banalizar
atropelos diversos, nomeadamente ao ambiente! E o homem, que pretende
autoclassificar-se como o topo da
criação, apresenta-se, de facto, como o maior predador, campeão insensato da
destruição.
A
civilização dita humana afigura-se representar uma vontade de domínio
insaciável, onde não há lugar para a comunidade-de-ser, com a humanidade a
desumanizar-se, a caminhar para uma termiteira gigantesca onde o outro é relegado para fora do horizonte,
a não ser que possa contribuir para a concretização dum objetivo, sendo encarado como um meio para alcançar um determinado fim, nem que
apenas seja aumentar o número dos likes,
contribuindo para uma qualquer ascensão de ranking. A atomização da sociedade,
o afunilamento de cada um sobre si próprio, o desencontro entre o eu e o seu tu retira sentido à relação do homem com o mundo, abrindo mesmo caminhos
para exterminações humanas “racionalmente organizadas”, de que abundam exemplos.
Contrapondo-se
a visões atomistas, uma abordagem holística, onde estarão presentes a
complementaridade e a interdependência com preservação das experiências particulares,
integrará a prática da alteridade, podendo contribuir para modificar o olhar
sobre o mundo a facultar possibilidades novas, antes obscurecidas. Descobrir
maneiras inusitadas de ter sem
abdicar de ser numa relação harmónica
com o meio ambiente. Em que a necessidade que um ser humano tem de encontrar-se
com outro, condição necessária para
formar-se como pessoa, construir e reconstruir a identidade pessoal como fruto
de um diálogo permanente pode ser
satisfeita. Com o eu a assumir uma
posição de humildade, ultrapassando o eclipse
da alteridade, deslocando-se do centro e elevando o outro a uma condição privilegiada, condição para que o eu possa transcender-se.
Em
mensagem, de natureza “alteritária”
explícita, o Papa Francisco, analisou o encontro com o outro com base na parábola de Lázaro e o
homem rico. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, o Papa diz: Lázaro ensina-nos que o outro é um dom. A
justa relação com as pessoas consiste em reconhecer, com gratidão, o seu valor.
O próprio pobre à porta do rico não é um empecilho fastidioso, mas um apelo a
converter-se e mudar de vida. O primeiro convite que nos faz esta parábola é o
de abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja
ela o nosso vizinho ou o pobre desconhecido.
Francisco de Assis permanece aqui humildemente
atual, insuperado no modo de relacionar-se com o outro, de estar na existência,
um modo de realizar a aventura humana que nós, modernos ou pós-modernos,
de há muito parecemos esquecidos . A Quaresma, há pouco iniciada, poderá constituir
um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o
rosto de Cristo. Cada vida que se cruza com a nossa é um dom a merecer, numa
perspetiva holista, aceitação, respeito, amor.
Pedro
Martins da Silva
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