Silenciamento e
meditação
A palavra
caracteriza o homem, mas é o silêncio que o define, pois a palavra falada só
adquire sentido em função do silêncio[1]
- o silêncio,
como atitude da alma, pode ser difícil mas pode permitir ao homem que seja
conduzido por Deus, que Deus se manifeste nele, porque as coisas realmente
grandes realizam-se no silêncio. No silêncio, Deus escuta-nos; no silêncio,
fala às nossas almas. No silêncio é-nos dado ouvir a Sua voz.
O
silêncio é um tema complexo a nível conceptual, um conceito cujo significado é
bastante impreciso, acabando por ser definido de formas por vezes
contraditórias entre si. Definido como "ausência de ruído", o
silêncio tem de apoiar-se no seu antónimo para se tornar significante. Para se
entender e percecionar o silêncio ocorre a necessidade de reconhecer a
existência dos conceitos opostos (o ruído, o som ou a palavra) o que torna a definição
paradoxal - o silêncio implica o seu oposto e exige a sua presença.
O
silêncio pode também ser entendido como “sossego”, “calma” desligando-se do
âmbito mais direto da acústica e associando-se a interpretações de ambiências, com a descoberta de sentidos novos não
relacionados apenas com a audição mas
com apreciações globais de quem
perceciona.
O
silêncio absoluto é impossível, seria
uma negação da existência, pelo que mais do que ao nada, o silêncio se poderá
considerar ligado a um ideal de plenitude, implícito numa relação de natureza
estética[2] associável
à tentativa da mente se esvaziar, deixando as
coisas expressarem-se sem interferência do observador, essencialmente o que
se designa por silenciamento.
Se eu gritar, quem
poderá ouvir-me, nas hierarquias / dos Anjos?[3]
O
anjo representa, nas Elegias, uma realidade espiritual superior, cujo encontro
poderá verificar-se ao procurarmos entrar em nós mesmos; a meditação silenciosa
conduzir-nos-á ao encontro de nós próprios, o silêncio constitui a linguagem
sem palavras que conduz a Deus, que está silenciosamente no nosso coração.[4] Procuremos
dentro de nós uma resposta e, se a encontramos, nela estruturemos o nosso viver,
mesmo nas horas que se afigurem mais indiferentes e anódinas, porque:
Cada
esforço acrescentará um pouco mais de ouro
a
um tesouro que nada no mundo pode roubar.
(Simone Weil)
O
silêncio é o marco que pode possibilitar estar
no mundo sem con-fundir-me com ele[5],
salvaguardar a unidade connosco próprios, viver plenamente o que se tenha entre
mãos. Dar frutos, em vez de apenas construir castelos no ar, não sonhar
acordado mas manter-se desperto controlando o esvoaçar da mente à deriva, encaminhando-a
para onde o eu aponta, para o concreto, para viver, mesmo que prosaicamente,
porque sempre isto terá mais intensidade e beleza do que a mais alargada das
fantasias - É melhor calar e ser, do que
falar e não ser[6];
João Paulo II na Carta Apostólica Novo
Millennio Ineunte (15) diz : O nosso
tempo é vivido em contínuo movimento que muitas vezes chega à agitação,
caindo-se facilmente no risco de «fazer por fazer». Há que resistir a esta
tentação, procurando o «ser» acima do «fazer».
Afigura-se
que a sociedade moderna não consegue prescindir do ruído omnipresente, que parece trazer segurança, esquecendo (esquecendo-nos) que o silêncio de escuta
é uma condição indispensável para viver com o outro, que é um dom de Deus – o homem
não consegue viver sozinho, pois tem necessidades que somente podem ser
supridas pelos seus pares ou em interação com eles. O desapego do supérfluo, de
tudo o que se acumula sem necessidade, conduz ao silêncio, condição da
alteridade e uma necessidade para o homem se compreender a si próprio, para
perguntar-se sobre o que mais deseja, e só sabendo o que se deseja
compreenderemos o que devemos dar ao outro. Que pedir então a Deus como desejo mais
profundo? Onde está o tesouro?
Encontra-se comumente um estado
de inebriamento de palavras nas pessoas e estas, as palavras, revelam-se
inúteis quando penetramos na profunda comunhão com Deus, cuja Palavra própria está
dentro de nós. Deus que fala ensina-nos a falar com Ele; num ato de misericórdia.
Deus faz-se falar de acordo com a capacidade de acolhimento de cada um. Deus
escuta os homens, dialoga com eles e, neste diálogo, os homens encontram
respostas para as questões mais profundas dos seus corações.
Para entrarmos na
comunhão com a Palavra de Deus que habita em nós, há que entrar num silêncio
criativo, que a meditação pode proporcionar, pois que ela, encaminhando-nos
para a observação dos movimentos da nossa própria mente, ensina que, ao arredar
o afã de possuir coisas, pessoas, ideias, são dadas mais oportunidades ao ser, pesem
embora as dificuldades para alcançar este silêncio, um estado de consciência pouco
familiar à maioria de nós, ocidentais. Na meditação, sublinhe-se, o sossego não
é um estado de mera passividade, mas um estado de abertura total ao nosso
próprio ser, à maravilha de Deus, com a consciência plena de que estamos em
união com Ele – converter-se, de alguém que vagueia sem rumos, num peregrino. Numa
frase muito bonita, Pablo d’Ors (ver nota 5) resume: àquele nosso dedo que só aponta os outros, a meditação curva-o até que
nos aponta a nós.
A
grande questão que, na caminhada da
vida, se nos vai colocando é: quem sou eu?! O que vive no meu espaço vital? De
resposta difícil pois que são muitas as situações em que uma pessoa pode estar
neste mundo pelo que a resposta dependerá, sem dúvida, da recriação de cenários
que se vão colocando no mundo interior e aos quais vão correspondendo respostas
que, de imediato, sentimos ter de descartar pois que se configuram como
traduzindo apenas as funções que nos couberam, ou cabem, nesses cenários – o
que somos é contingente. Talvez, quando todas
respostas forem descartadas, a questão desvanece-se e afigurar-se alcançado
o conhecimento, não uma resposta mas uma
experiência existencial. E o paradigma baseado na objetividade, na
racionalidade, na quantificação como pressuposto de via única de chegar ao
conhecimento verdadeiro conforma-se como evanescente dando lugar a uma sinfonia
em que o todo supera a soma das suas partes. Muito provavelmente não
entenderemos a verdade da resposta até porque a verdade não tem outra definição
senão o mais desconcertante silêncio [Jo 18, 38], mas haverá que vivê-la com
fé, sem medo [Mc 4, 40].
Pedro
Martins da Silva
[1] Robert Sarah – A força do silêncio
[2] Considere-se, a título de
referência “John Cage e 4 min. 33 s - questionando o paradigma da música
ocidental, destacou a importância do silêncio na música, apresentando o
silêncio de forma eminentemente conceitual, com todas as mínimas manifestações
sonoras a criarem uma aura de happening, questionando o público. O propósito desta obra é o de
mostrar que a finalidade de uma obra pode ser não assumir propósitos, com
aquilo que acontecesse nesse intervalo de tempo simplesmente a acontecer…
[4] Bento XVI, em homilia a 4 de
julho de 2010, disse expressamente: Não
tenhamos medo de criar o silêncio fora e dentro de nós, se quisermos ser
capazes não só de ouvir a voz de Deus, mas também a voz de quem está ao nosso
lado, a voz dos outros.
[6] S. Inácio de Antioquia - Carta aos Efésios (15)
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