quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018


 
 
A Misericórdia:
Um Evangelho por Habitar
 
 
Misericórdia para todo o criado:
Precisamos de uma nova ecologia?
 
Rui Grácio O.P.
 
O tema que temos entre mãos é precisamente esta questão de reflectir do ponto de vista teológico sobre a ecologia e mais do que teológico eu quero me referir ao aspecto da espiritualidade. Vamos então trabalhar uma questão que é "eco-espiritualidade". No entanto eu devo dizer que não sou especialista em ecologia, não sou nem biólogo bem ecólogo. Tenho alguma experiência e algum tempo de leituras, mas não é realmente a minha especialidade e se tenho alguma especialidade seria mais na área da espiritualidade. Como alguns daqui talvez saibam, eu trabalho a chamada espiritualidade holística e vou-me referir um pouco a esses aspectos. É sobre isso então que queria falar sobretudo também com um sentido prático, para ver o que é que isto serve também para a nossa vida. Se não, estamos aqui um tempinho, a gente reflecte, mas depois cada um vai para sua casa e a ideia é na prática, o que é que pode servir. No final vamos ter algumas reflexões práticas sobre como é que podemos aplicar estes aspectos à nossa vida.
É neste sentido que vou trabalhar a questão da eco-espiritualidade.
A metodologia que vou utilizar é um método que é bastante fecundo na teologia latino-americana, que é chamado o método do ver, julgar, agir. Que vem não só da teologia latino-americana, mas também está presente nalguns grupos de acção católica aqui na europa.
Então vou fazer estas 3 partes. O Ver, em que situação é que estamos em respeito a esta questão da ecologia. Julgar desde o ponto de vista mais teologico e vou referir alguma bibliografia. E, finalmente, agir, o que é que isto significa para a nossa vida. Espiritualidade é sobretudo algo que tem que ver com o agir e portanto é nessa área que depois vamos concretizar. No final teremos um espaço para partilhar e complementar eventualmente o que possamos dizer.
Seria então bom começar por fazer um pequeno diagnóstico muito breve dessa questão ecológica e sobretudo perguntarmos mais sobre as  causas. Muitas vezes vemos os efeitos, o importante é a gente tentar discernir quais são as causas possíveis destes problemas que vamos enunciar. Eu vou referir-me também a um artigo que há tempos escrevi com um companheiro dominicano quando estava em São Salvador, que já tem uns certos anos, mas as coisas ainda se agravaram mais. De maneira que não está tão longe o que dizíamos naquela altura. A ideia é que no âmbito da ecologia. Ecologia sabem o que quer dizer, "ecos" quer dizer "casa", tem a mesma raiz que economia, um é "a regra da casa" e outro é, digamos assim, o "estudo da casa", ambas têm que ir muito unidas porque tratam da casa, a nossa casa comum. "A casa comum" é uma ideia importante ao falar de ecologia, experimentar realmente essa casa comum. No entanto, encontramo-nos, mais do que sob uma crise conjuntural, sobre uma crise estrutural. Conjuntural são certos fenómenos que a gente observa, mas se a gente reflecte teoricamente é tentar encontrar quais as estruturas que estão no fundo disso e porque é que acontece? Como o que é que nos encontramos? Encontramo-nos com a destruição progressiva da capa (camada) de ozono; com o aumento alarmante de dióxido de carbono na natureza, e isso vai aumentando o aquecimento da atmosfera, o chamado efeito  de estufa, a que estamos a assistir também de alguma maneira, que provoca alterações climáticas. Houve uma grande discussão se os seres humanos tinham alguma culpa nisso, ou se este sobreaquecimento já vem de há séculos, mas foi intensificado realmente com a presença dos seres humanos e sobretudo com o fenómeno da industrialização. Sabem que também vai haver uma cimeira em Paris, precisamente agora em França, em Paris, sobre estas questões, a questão do clima e da ecologia em geral. Alguns somos um bocadinho cépticos sobre estes encontros dos chefes de estado, por várias razões, mas pelo menos que se fale, o que significa que estamos cada vez mais conscientes que isto nos afecta a todos e a todas. Não é só uma brincadeira de gente que gosta dos patinhos e das ferazinhas, é uma questão que afecta toda a nossa vida. Então, portanto, esta contaminação ambiental, global, da atmosfera, dos rios, dos mares, o tema do lixo ainda não resolvido e, até há uns anos atrás, o tema dos resíduos nucleares, porque o grande tema era como fazer desaparecer isto, porque os resíduos são contaminantes e  com um tempo de destruição muito longo, alguns levam séculos. As chuvas ácidas, que destroem os bosques. A contaminação sonora, sobretudo nas cidades. E um tema muito grave que é a perca sistemática da biosfera e, sobretudo, da biodiversidade. Biodiversidade, que quer dizer, como sabem, que as espécies estão a ser destruídas a uma velocidade muito grande. Isso tem que ver também com a nossa civilização e o modo como organizamos a vida, do ponto de vista económico, político, social, tecnológico, etc... Sabe-se que a perca da biodiversidade significa maior instabilidade do nosso ecossistema, porque quanto mais complexo é o ecossistema, mas estável e permanente pode ser e menos complicado. 10:40 Eliminar espécies afecta-nos também a nós próprios e o grande tema é esse, irracionalidade, o destruir sem pensar que os filhos, os netos vão ter de pagar de uma certa maneira tudo isso e de uma maneira cada vez mais grave. Mas continua a nossa pergunta - e Porquê? Também a .. progressiva, que se assiste em várias partes do globo, o esgotamento das reservas naturais, sobretudo de origem fóssil, um tema das discussões porque está a tornar a situação mais complicada. É verdade que outras civilizações que houve alguns milénios atrás sempre houve algum impacto sobre o resto da natureza, mas os povos caçadores e recolectores tinham uma incidência muito pouco negativa. Aliás o próprio ecossistema regenerava-se rapidamente, portanto podiam dizer que passavam a pisar suavemente sobre a terra. Já com as civilizações posteriores, de tipo agrícola ou agrário, já começou a haver uma maior incidência a afectar o clima, a afectar o resto da natureza. No entanto é através da industrialização mais recente onde isso se tornou numa velocidade que é difícil recompor. Antes recompunha-se, na natureza os ciclos eram mais lentos e portanto o impacto não era significativo. Agora o ritmo de destruição começa a ser muito mais rápido do que a possibilidade de reposição e por isso algumas espécies vão desaparecendo. Podemos falar em alguns aspectos com uma expressão "ecocídio". Assim como há o suicídio e o homicídio também há o "ecocídio". Este atentado contra a natureza. Mas queria também pôr-me de acordo no que toca à linguagem. Nós falamos normalmente nós e a natureza. Ora eu acho que isso é um dos problemas, precisamente um problema grave deste nosso tratamento da ecologia. Porque nós pensamos que somos à parte da natureza. A arrogância do ser humano é esse, nós e a natureza. Como se nós não fossemos a natureza. Nós somos outra espécie, mas somos uma espécie também. Quando começamos a falar nós e a natureza significa que já nos afastámos realmente do resto da irmandade cósmica, para falar mais em sentido franciscano. Então esse é que é o grande tema, esta separatividade do ser-humano, que pensa que está separado do resto e tem direitos especiais sobre o resto e chamar-se a si mesmo, nós e a natureza, o ser-humano e a natureza. Isto obedece a certos esquemas de pensamento muito perigosos e depois vamos ver em que é que isto está a resultar, nomeadamente os fenómenos que estamos aqui a enumerar e muitos mais. Portanto, as condições ecológicas do planeta encontram-se num estado bastante crítico. A pergunta seria então porquê? Podemos dizer que aqui conjugam-se determinados factores e interesses económicos, políticos, sociais e culturais. Portanto, tudo isto junto podíamos dizer o aspecto económico, político, social e cultural é o que define praticamente a nossa vida social. E então é a conjugação desses factores que leva à grande parte dos problemas que estamos a viver. Agora temos também o problema da imigração. Imigração que já tinha começado anteriormente, hºa muitos séculos, se olharmos com uma visão mais ampla. Era a questão da urbanização, de destruir relações de uma economia agrária para provocar este processo de industrialização. Há um livro muito famoso do Karl Polani, um economista com um grande sentido social, que escreveu já nos anos 40 um livro chamado "A grande transformação". E tenta mostrar realmente como o papel que o capitalismo insipiente naquela altura fez desde vários séculos antes. Foi sempre a questão de tentar destruir essas redes sociais eco sistémicas, de tal maneira que tiveram que emigrar os camponeses e transformaram-se em trabalhadores industriais, em condições muito difíceis. Antes tinham algum apoio social e partilhavam entre eles uma aldeia e um povoado e agora ficaram sozinhos, individualizados frente à fábrica ou frente às empresas. Foram transformados em "mão de obra". Fala-se de "recursos naturais" e "mão de obra". A nossa linguagem mostra os nossos esquemas de pensamento nesse sentido. Então, de alguma maneira, podemos ver que, do ponto de vista económico, foi este capitalismo que, podendo ter algumas vantagens, teve efeitos muitos perversos, em dois aspectos, basicamente, na agressão contra  a natureza, que estamos a ver agora e também na agressão às questões sociais. Quer dizer, é um sistema que ao pôr sobretudo da maneira mais clássica o mercado como centro de toda a actividade económica. De tal maneira que já com Adam Smith falava-se da "mão invisível do mercado", isto é, o mercado vai equilibrar todas as relações, até as sociais, não só as económicas. A teoria já conhecem, dizendo que cada um procura o seu próprio interesse, mas há como uma mão invisível, como uma mão de Deus, que organiza todos esses interesses individuais, cada um ter as suas vantagens, para o interesse comum. Bom isto parece um pouco mais metafísico o sentido mau da palavra, quer dizer, haveria que ver se é assim, mas na prática não funciona bem assim. Portanto, outras esquemas também associados a este tipo de produção capitalista é o produtivismo, produção de tudo. Também a tentativa do lucro, mas o lucro não .... colectivamente, mas individualmente, que é problema. A produção cada vez é mais colectiva, é mais social, mas a apropriação desses bens é cada vez mais individualizada e a procura do lucro, sobretudo. Isto do ponto de vista ecológico é realmente um grande problema, porque então tudo vale em função do que seja lucrável ou não. Não importa que fumiguemos com determinados pesticidas, desde que tenhamos mais produção. Só que não temos em conta que isto depois vai reverter sobre a própria fecundidade do terreno, que mais tarde vai perdendo as suas capacidades também. O que interessa é o lucro imediato, a inter-relação do tudo com tudo. O problema foi também individualizar mais os seres-humanos, que ficam tanto desprotegidos, pelo menos nas formulações da economia liberal clássica, em que fica reduzido ao chamado "fetichismo do mercado", essa ideia de idolatria. O fetiche é isso. Nós fabricamos um fantasma, um objecto, historicamente e depois convertemos em "fetiche", adoramos e esperamos que traga benesses. É criação humana, mas depois acontece que ele é que se torna o sujeito e nós tornamo-nos os objectos. Teoricamente era um objecto, mas transforma-se depois em sujeito e nós ficamos ao serviço desse objecto que foi subjectualizado. Isto que funcionava historicamente com os ídolos, funciona agora de uma maneira um pouco mais abstracta. Já não é tanto assim umas imagens que a gente fabrica com as árvores, agora são mais esquemas abstractos, mas que funcionam, que são "mercados", "lucros". Então em direcção a esse grande ídolo que temos aí é que se sacrifica tudo, seres humanos natureza, etc... Isto digamos, não é só um esquema económico, obedece também a um esquema mental. E é isso que a gente também quer salientar aqui. Esse esquema mental que está atrás disso, que depois tem as suas bases e implicações teológicas. Mas deixem-me seguir um bocadinho mais sobre esta questão também. Portanto há um tipo de racionalidade económica que é essa, o máximo de produtividade; depois tenta-se justificar que irá dar mais postos de trabalho, etc... Mas não há essa reflexão, espera aí, e o que é que vai acontecer no futuro? E já no presente, nós já estamos a assistir às consequências também no presente. Pronto, é uma grande ideia, pode ser que tenha alguns aspectos positivos também, e que tenha introduzido uma certa racionalidade, mas eu acho que estamos a sofrer algumas consequências de algumas décadas para cá e já chegou a hora de revermos estes esquemas desta economia neo-liberal, em geral do capitalismo.
Bom, outras questões também aqui colocadas, também terminológicas. Sabem que às vezes fala-se de "meio ambientalismo" e, de outra maneira, fala-se de "ecologia política". Ora são duas visões que podem estar de acordo, mas não necessariamente. "Meio ambientalismo" é aquilo que estamos ai a assistir, muitas sociedades que protegem os animais, ou não só animais, protegem certas espécies de todo o tipo, mas não há uma formulação mais de fundo desse porquê, dessas estruturas que permitem que isto aconteça. Pronto, há que salvar o passarinho, e eu acho muito bem que isso aconteça. Aliás eu acredito que se a gente é cruel com os animais duvido que alguém depois seja muito melhor com os seres humanos, mas tudo bem. Mas ecologia política - política não num sentido partidista, mas no sentido de polis, cidade, social - tenta reflectir sobre ecologia, mas com uma formulação mais ampla, nesse sentido estamos a ver, estruturas económicas, políticas, sociais, culturais. Portanto tem uma visão mais totalizante, mais abrangente. Dito isto trata-se depois de salvaguardar isto, trata-se de pôr a interligação deste tipo de trabalho ecológico e também económico e político. Significa que é importante a gente preocupar-se com as espécies da fauna e da flora, mas também com os aspectos humanos, que estão aí implicados também como espécies. Ás vezes só foi denunciado, só se preocupar com os passarinhos e não se preocupar com os seres humanos é uma perversão da ecologia, isso não é ecologia, temos de por tudo junto porque tudo forma parte deste esquema e deste paradigma de pensar perverso que está a provocar tanto o desaparecimento das espécies animais, ou vegetais, como também a nossa degradação humana ou os nossos problemas humanos. É a mesma lógica, ou podemos dizer a mesma ilógica. "Ambientalismo integral", sempre a nossa ideia é fazer um ... mais integral, integrando todos os aspectos. Depois nós vamos chamar isto
holismos. Holística significa integrar tudo, os aspectos humanos, os aspetos lógicos no sentido mais amplo está tudo integrado, económicos e diria também espirituais, vamos chegar a isso. Então algumas premissas falsas deste modelo produtivista que já foram denunciadas: 1º é dizer "nós contra o meio ambiente"; 2º "nós contra os outros seres humanos"; 3º importa o individuo, o grupo ou a nação em tanto que seres individualizados; 4º Nós podemos controlar o meio ambiente e devemos procurar fazer efetivo esse controlo; 5º vivemos dentro de fronteiras, que podemos estender indefinidamente; 6º o determinismo económico obedece ao sentido comum; 7º a tecnologia resolverá todos os nossos problemas. Este tipo de pensamento que está muito estendido, não é inocente e a gente tem de ser críticos com este aspecto e desde a ecologia a gente pode tentar ver isso de outra maneira. Já foi falado também algumas vezes da chamada segunda contradição do capitalismo. A primeira contradição é a que opõe o capital ao trabalho, não tendo conseguido ainda harmonizar estes dois aspectos. Mas há ainda uma outra contradição, sobre a qual até podemos dizer que não é a segunda, mas a primeira, que é a contradição com a natureza. Este capitalismo como tal, por muito que algumas vezes se revista propagandisticamente ecológico, é contrário à natureza e tem sido assim e podemos observar isso.
O problema então é o modelo de desenvolvimento dominante e que tem provocado realmente essa destruição cada vez mais acelerada, e não esse sentido do eco desenvolvimento sustentado e sustentável. E é preciso dizer isto. Estive há pouco tempo num encontro da Comissão Nacional da Justiça e Paz onde havia também muitos economistas e criticou-se bastante este modelo de capitalismo. Estamos num momento em que deveríamos repensar uma economia que seja em benefício de todos e de cada um e não só de alguns privilegiados. Aliás, cada vez mais a economia transformou-se em finanças, finanças especulativas, já nem são sequer problemas económicos, são problemas financeiros. E realmente estamos aí nessa loucura de viver de ficções, mas são ficções que se transformam em Moloques. Moloques que exigem vitimas. Por exemplo, com países africanos ou outros, provocam isso, o pessoal quer sobreviver, não há saídas no seu lugar. Então a imigração como seja, se aliás depois veem mais problemas de guerras, que também têm que ver com tudo isto, o que seria um bocadinho mais amplo de analisar, então pior ainda.
Tentando aprofundar um bocadinho mais esta questão, aparece-nos um grande problema, o antropocentrismo. "Antropos" em grego significa o ser-humano, o homem. Hoje utilizamos mais a linguagem de género, homem e mulher. Ser-humano também não é assim muito neutro, mas é um bocadinho mais do que dizer homem ou pessoa. Vários ecologistas já atacaram até o próprio cristianismo, por ter posto o ser-humano como o rei da criação e que tem também todas as prerrogativas para se impor sobre o resto. Aquele famoso dominar. Certamente podemos dizer que não é só assim, vamos ver um bocadinho isso, mas não há dúvida que mal entendido este aspecto tem justificado também esta civilização. Ao fim ao cabo o ser humano é o rei da criação, é a grande criação de Deus, portanto tem que dominar sobre os animais e sobre o resto. E, portanto, se alguns desaparecem, pouca sorte, mas tudo bem, a nossa tarefa é dominar. Mas afinal o que é que isso de dominar quer dizer? Então talvez temos uma civilização cada vez mais antropocêntrica, no sentido mais negativo da palavra, quer dizer, mais centrada no ser-humano. E menos ecocentrica, e menos a pensar na totalidade do que podemos chamar ecologia de todas as espécies. Isto hoje até já tem um termo. Assim como em determinada época fomos conscientes já do classismo e também do androcentrismo, o predomínio dos homens sobre as mulheres, a questão do género. Agora chama-se especismo, que é esta nossa  espécie pôr-se por cima das outras e transformar-se naquilo que decide e que determina ... em função dos seus próprios interesses. É um egoísmo, já não só de classe, nem também de género, agora é também de espécie como tal. Portanto, tudo isto levanta problemas que devemos refletir e devemos pensar para poder ter uma atitude um pouco mais ampla e um pouco mais justa. É um tema de justiça. Normalmente, entendemos a justiça laboral ou social, mas a justiça é muito mais ampla do que isso, a justiça é também a nossa relação com as outras espécies. De que maneira é que nós somos também uma espécie imperialista como espécie, destruindo outras espécies que também têm direito a viver e que também foram criadas por Deus, como é a nossa convicção?
Já estamos a julgar um pouco, mas vamos tentando ver que isto obedece a um paradigma.  Um paradigma é um modelo de pensamento, uma maneira de pensar, que se torna dominante. Pode haver um paradigma de cultura, um paradigma de moda até. Aqui é um pouco uma moda cultural perigosa e que tem-nos dominado de há uns séculos para cá.
Frente a isto podemos então pensar numa alternativa, num outro paradigma que parece muito mais racional, com muito mais sentido comum, muito mais sensato, que é o que podemos chamar o paradigma holístico. Holos em grego significa "todo", no sentido de totalidade. Então um pensamento holístico é aquele que tenta pensar as coisas com totalidade e não somente de um ponto de vista específico, ou concreto. Evidentemente que o concreto está aí metido, mas quer pensar as coisas com uma totalidade. Não quer pensar só as coisas com esse lucro económico que vem para alguns, da maneira como é distribuído, mas quer pensar na sustentabilidade de toda a nossa espécie e das espécies sobre este planeta. Não é somente ecológico, mas tem a ver com algumas teses. Não vou (34:26) expor muito sobre isso, se depois há mais tempo, mas pelos menos que fique aqui um pouco mencionado. Ou no decalgo holístico que alguma vez nós trabalhámos aí numa tese de filosofia, é pensar a realidade como um todo. Mas um todo que flui, que está em movimento, chama-se holo-movimento. Portanto não é nunca um todo estático, como algumas vezes pensamos. Começar a pensar numa maneira dinamica toda esta nossa realidade que está aqui à nossa volta. Pensar a realidade como uma totalidade unitária : estas coisas acontecem não por casualidade mas formam parte dum certo entrelaçamento também de conceitos e onde realmemente o todo é mais do que a soma do que as partes. Imagino que já conhecem esta formulação, o todo é mais que a soma do que as partes. Uma mentalidade mais cartesiana e até newtoniana e reducionista que ainda continui a influir muitas vezes até na própria ciência, então realmente um complexo descompõe-se no seus elementos, somam-se os elementos e se temos um conjunto por exemplo A +B+C, esse conjunto está contituido por estes elementos. Portanto descompondo nas suas partes A, B e C, um conjunto muito simples, aí está o conjunto como tal. Ora num pensamento holístico, ecológico também que é o que a gente está a falar agora principalmente, não é assim tão fácil. Realmente um conjunto, e o conjunto da natureza também pode ser entendida – vamos pôr este conjunto simples A+B+C, mas não é sómente isso. É também a soma das interrelações que estes elementos estabelecem entre si. Então a relação que A estabelece com B, B estabelece com C, A com C, etc. No conjunto muito pequeno, muito limitado já há mais do que simplesmente a soma dos elementos. Há também as interrelações todas que se estabelecem entre si. E agora se multiplicamos isso pelos milhões de elementos que estão presentes também no nosso e dispersos na nossa vida, vemos que isto forma um conjunto muito mais complexo e que não se pode compor sómente assim dizendo que há esta espécie e que há outra. Cada espécie de alguma maneira desenvolve o entrelaçamento com as outras. Aqui não temos tempo para falar disso, mas isto também é um pensamento que hoje na física quantica também está muito presente, a questão do entrelaçamento quantico, todas as partículas de alguma maneira entrelaçadas e podemos falar até de algumas experiências interessantes que já mostraram cientificamente que isto acontece. Não é simplesmente uma espéculação. Isso acontece no mundo físico, mais digamos não biológico exactamente, com muito mais razão no ponto de vista biológico onde isto está muito mais integrado e ecológico, todas estas interrelações. Tudo está em relação com tudo (37:42) ainda em colectividade (?) nesta linha mais holística, interrelacionalidade de tal maneira que algumas pressões já se tornaram famosas sobretudo desde o ecologista (James) Lovelock, que fala da hipótese Gaïa, Gaïa é o G, a terra, em que a terra aparece como um super-organismo, na qual cada um dos elementos das espécies que estão aí coo-formam (?) estes organismos. Quando realmente se altera algum deles ou algumas doenças por exemplo numa espécie, afecta o todo. Então o nosso planeta pode estar doente neste sentido. Isto pode justificar mais, também tem outra base dos estudos que foram feitas. Mas há essa interrelacionalidade. Se a gente pensa assim, então cada elemento – até o mais pequeno – é fundamental para esse equilibrio do todo em tudo, do ponto de vista ecológico também. Não vou falar muito mais desta ideia o que está presente como o macro dá-se no micro ; quer dizer no micro, no mais pequeno, está presente a estrutura do todo, que é o pensamento holográfico – não temos tempo aqui para falar sobre o holograma – que essa totalidade está estruturada onde as partes são importantes evidentemente, mas o que importa é essa totalidade. Mas também importam as partes. Não é subsumir as partes, as individualidades, a singularidade e desaparecer assim num todo abstracto. Não. A riqueza está precisamente nisso : em cada singularidade é importante nesta totalidade. Portanto, promover a individualidadde neste aspecto - não a individualidade que vá contra as outras - mas uma individualidade integrada - é enriquecer toda a realidade também. As identidades já não são identidades absolutas, mas são identidades flexiveis, também com os elementos das partículas sub-atómicas podem mudar de identidade, aparecem no tempo com  uma determinada característica mas podem desaparecer talvez num oceano de energia e voltar a surgir de outra maneira. Também a ideia que não há dualidade sujeito-objecto. Normalmente pensava-se que sim até há ciência clássica, tal  um sujeito, tal objecto, o sujeito observa. Não. O outro objecto também é um sujeito que me observa a mim próprio. Eu também sou observado. Não há um observador absoluto neste sentido. Todos estamos metidos em campos interrelacionalidades. Portanto eu sou um observador observado, e dessa observação-observado constituimos todos.
Para acabar neste aspecto do holismo, a superação dos dualismos. Dualismo : nós e a natureza. Eis um exemplo perverso : nós e a natureza. Não. É tudo integrado. Começar a ver duma maneira integrada. Não que dizer que não podemos falar “nós” a espécie humana, evidentemente, mas não à parte dos outros. A nossa espécie só existe na interrelacionalidade com o resto do cosmos, do planeta. Imaginem 2 minutos sem respirar. Pronto, não podiamos existir. Isto já é uma interrelação. Comida, tudo isso são interrelações, são campos ecosistémicos que aí se formulou.
Passemos a outra coisa, mais no julgar mais bíblico e vejamos o que se pode dizer sobre isso. Dois textos importantes que aparecem no Génesis : Gen 1, 28 e depois Gen 2, 15, mas que mostram perspectivas diferentes. Não acredito que todos vocês ainda acreditem que havia um senhor chamado Adão e uma senhora chamada Eva. Com o cartão de identidade, eu sou o Adão e a tu és a Eva. É um conto que é falar, mas um conto que tem umas verdades importantes, e são estas verdades que a gente quer destacar : um Deus criador, e o Deus que de alguma maneira dá ao ser humano um papel importante que aparece aqui  no versículo 1, 28. É esse que diz exactamente que Eu vos dou uma tarefa que é dominai, crescei e multiplicai-vos e dominai sobre todas as espécies. (43:20)
Crescei e multiplai-vos, enchei e submetei a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra”.
Esta ideia de alguma maneira que o ser humano tem esta tarefa de dominar. O termo usado hebraíco “Radah” é um termo que realmente significa um domínio forte. Não é assim uma coizinha a brincar. É o domínio dos reis. Claro não significa tirania, para isso já tem de se pôr outros adjectivos. Mas está neste campo semântico. É tornar os seres humanos assim como o rei que domina. Só que este domínio pode entender-se de uma maneira péssima também. Aqui temos direito a tiranizar ou também poderiamos ter esse direito a tiranizar. Mas há outra perspectiva como sabem, há dois relatos do Genesis, 2, 15 que diz :
O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Eden para o cultivar e também para o guardar”.
A ideia mais do que dominar é cultivar, é promover de alguma maneira o ser humano como jardineiro. Eu acho que esta perpectiva, esta segunda está mais de acordo com aquilo que a gente quer aqui um pouco reflectir. O jardineiro é – e aqui há algumas jardineiras eminentes, presentes entre nós – é realmente esse cuidado que há que ter, atenção, o cuidado à natureza. A palavra cuidar é muito importante, não é dominar mas cuidar. Somos responsáveis pela natureza e pelo resto da natureza. Somos responsáveis por nós, pelo resto da natureza. Esta perspectiva bíblica torna-se realmente muito mais humanizadora – se queremos falar assim – muito mais ecocentrica do que a outra do domínio. E só vou só dizer umas palavras para não me estender muito, mas a própria encíclica do Papa, já conhecem não é, imagino que já devem ter lido, e se não leram seria bom que lessem, porque realmente está numa perpectiva  que estamos aqui a falar. Por primeira vez a igreja católica tem uma encíclica dedicada a ecologia. Tinha reflexões por aqui, por acolá. Os teólogos já tinham trabalhado estas coisas. Aliás um dos importantes eco-teologo que é o Leonardo Boff já tinha feito aquele livro há umas décadas atrás “Clamor dos povos, clamor da terra”. Unia o tema da terra e o tema da pobreza que é uma das consequências deste modelo productivista.
E o Papa aqui cita também, não cita directamente mas utiliza a mesma expressão : “Clamor dos Povos, Clamor da Terra”. É interessante porque a própria encíclica do Papa também está numa linha do método de julgar, ver, agir (?). Ver as destruições que estão a acontecer que ele vai chamar  a desigualdade planetária, digamos unir isso com os problemas que afectam particulamemente os excluidos e as excluidas, tudo isto tem a mesma abordagem do mesmo ponto de vista ;  como ele diz também aqui :
 uma verdadeira abordagem ecológica torna-se sempre também uma abordagem social que deve integrar a justiça dos debates sobre o meio ambiente para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos povos”.
Estamos na questão da justiça mais ampliado, mas interligado. Ou frases como “Comparo o incremento demográfico. Em vez de consumismo exacerbado e selectivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas. Pretende-se assim legitimar o modelo distributivo, e também podemos dizer productivo, no qual uma minoria se julga com direito de consumir uma proporção que seria impossível generalizar porque o planeta nem sequer poderia conter os resíduos de tal consumo”. Já foram feitos alguns estudos e se todos estivessemos um nível de consumismo que há nos Estados Unidos, precisávamos talvez de uns cinco planetas.
Além disso, sabemos que se desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos. E a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre. Em todo o caso é verdade que devemos prestar atenção ao desiquilíbrio da distribuição da população pelo território, tanto a nível nacional como a nível mundial porque o aumento do consumo levaria a situações regionais complexas pelas combinações de problemas ligados à poluição ambiantal, transporte e tratamento de resíduos, à perda de recursos, à qualidade da vida”.
E vai por aqui, tentando mostrar diversos aspectos nesta interrelação. Por exemplo “o aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente em África, onde o aumento da temperatura juntamente com a seca tem efeitos desastrosos no redimento das culturas”. E ao final deste capítulo, ou deste ponto, chama a nossa atenção para evitar ou tentar superar “a globalização da indiferença”. Fala-se hoje muito da globalização, mas não é uma globalização justa e sensata. Muitas vezes é isto : globalizamos a produção, mas a apropriação é talvez de alguns países mais do que sobre os outros. Ele fala também aqui na raiz humana da crise ecológica, todo este aspecto que já falámos um pouco. Temos a globalização do paradigma tecnocrático, deste paradigma realmente que a tecnologia vem nos resolver todos os problemas e que se é bom façamos, mais do que bom, se é possível façamos, se é bom ou não isso veremos...
A crise do antropocentrismo moderno e as suas consequências diz ele, ponto 115 :
“o antropocentrismo moderno acabou paradoxalmente por colocar a razão técnica acima da realidade. Porque este ser humano já não sente a natureza como norma válida nem como um refúgio vivente”.
Isto é o que alguns sociólogos já vinham a falar  há muito tempo sobre isso chamado o desencantamento do mundo. Concretamento o Max Weber já vinha falando disso : o desencantamento do mundo, sua tecnologia, a sua racionalidade instrumental, entendido pela metodologia da reprodução, neste caso do capital, mas os seres humanos estão ao serviço do capital. Isto é um fétiche : o grande deus é o deus capital. Os seres humanos são os seus servos. Então a economia que devia ser eminentemente social, ao serviço da sociedade, ao serviço da reprodução de todos, transforma-se numa questão desiquilibrada e assimétrica. Depois já nas propostas, o Papa vai falar duma ecologia integral que seja ambiantal, económica e social. Vemos que todos estes aspectos estão interligados. E não vou, porque a ideia não é falar sobre a encíclica do Papa, mas recomendo que a leiam, lê-se bem, imagino que ele deve ter tido aqui um bom grupo, equipe de investigadores atrás, porque isto ele não deve ter puxado da sua cabecinha. Mas é bom que um Papa fale destas coisas, tenha esta preocupação.
E para acabar então, tenho aqui algumas propostas para num sentido duma espiritualidade seja do aqui e agora. Como sabem o importante da espiritualidade, não é tanto o passado nem o futuro, mas o aqui e agora, viver no aqui e agora, no presente. E então intitulei isto como : algumas práticas quotidianas da eco-espiritualidade. Porque tem a ver como nós focamos ou focalisamos o mundo, como nos situamos nele, e é no fundo, eu diria mais uma crise de espiritualidade. A crise de espiritualidade é esta : o produtivismo, pensar que os seres humanos valem tanto quanto têm, para uma visão mais espiritual que é o ser. Isto é um pouco difícil de entender aqui no Ocidente, talvez noutras civilizações, noutros contextos se entenda melhor. Somos uma civilização faustica. Fausto, Goethe : no príncipio era ação. Nós é fazer, fazer, fazer, fazer...Mas há que fazer, não digo que não. Mas o importante é do ser para o fazer, de dentro para fora. E convertemos os seres humanos (em) fazer, ter, acumular, para quê ? Vazio ! Vazio no mau sentido da palavra. Então é dar a volta, dar a volta a isso. Acho que a espiritualidade tem muito a dizer e a fazer neste contexto. Por isso a primeira questão aqui, neste objectivo geral é quebrar a nossa separatividade com respeito com o resto da natureza.
Primeira ideia é que não sou eu e a natureza, não somos nós e a natureza. Somos todos juntos, a natureza também. Nós estamos lá. Nós somos natureza, a começar por isso, tomar consciência que nós somos natureza.
então ser mais do que fazer. Por isso é que é importante todas as práticas da contemplação e da meditação hoje em nosso dia. Pode parecer um bocadinho raro que a gente comece a falar de economia, a falar disso, mas não, está interligado. É desenvolver esta prática do que hoje em dia, no meio de uma espiritualidade mais ampla se pode chamar o mindfulness, quer dizer esta atenção plena, viver no aqui e agora que é a grande lição de praticamente todas as meditações e todas as práticas contemplativas. É vivermos aqui e agora. Não desconcentrados, não distraídos, é aqui e agora. Este é que é o nosso presente, o nosso presente eterno. E portanto pensar, mas é também importante estarmos atentos. Sem estarmos atentos, vamos perder também a maravilha do que é este cosmos. Figuras de São Francisco e outros, bastantes, que vivem esta interrelação, é viver aqui e agora. Ver essa presença de Deus no meio da natureza, entre nós, no pássaro. Se ele via por exemplo um verme, Jesus era também chamado o verme através do Antigo Testamento, então não há que pisar o verme. Até a água, é preciso ter respeito pela água. Eu lembro-me duma teóloga de origem estadunidense Sallie McFague citando uma afirmação que foi feita quando o ser humano ocidental chegou ao Everest pela primeira vez, nos anos 40 possívelmente. Então aparecia no jornais a mesagem : “O ser humano, o homem – dizia - o homem conquistou o Everest”. Então era engraçado que um taoísta, quer dizer um representante da espiritualidade chinesa dizia : “nós não diríamos isto assim. Nós diríamos  o ser humano apresentou os seus respeitos à montanha do Everest, à nossa irmã Everest”. Acho que como cristãos poderíamos dizer a mesma coisa. Para eles é chegar e saudar, irmão, proximidade,  não é conquistar, conquistador.
Ora em lugar, um aspecto importante também é observação permanente do vosso ego. O grande problema é o nosso ego, isso assim o ego que é dominante, quer poder. É um problema de medo. Pensa que assim está mais seguro, e quando não, estamos precisamente ao contrário, estamos a nos destruir. De alguma maneira se todos estão bem, eu também estou bem. Mas quando eu só quero estar bem à custa dos outros, mais cedo ou mais tarde eu também vou pagar por isso, ainda que seja uma espécie como tal. Então realmente o trabalho da espiritualidade é a dissolução do ego. O quê que isto que dizer ? Não é que a (57:00) gente deixe passar a ser humanos, realmente é deixar que esse egozinho nos controle. E para isso não é preciso estar aí em tensão. É observar como o nosso ego se manifesta. Por exemplo nas nossas relações fraternas e sociais, quando queremos impor, quando queremos realmente, temos medo, os ciumes, as invejas, o domínio, tudo isso é o nosso ego que nos atrapalha a vida. Não nos deixa viver realmente de uma maneira livre, duma maneira solidária.
lugar diria : cultivar a proximidade com a natureza. Pois somos citadinos e urbanos às vezes é um pouco mais difícil. Mas pelo menos é bom que a gente esteja aqui no meio desta natureza e sejamos conscientes de que estamos a formar parte dela, e frequentar realmente a natureza porque é básico para a nossa saúde. Já há algo que os cientistas chamam a CEM, contaminação electro-magnética. Estamos rodeados cada vez mais de electricidade por toda a parte. E não sabemos muito bem os efeitos que tem ; bom sabemos : cancros e coisas pelo estílo. Mas já há algumas medidas neste aspecto. Até nas próprias torres dos telemóveis, etc. Mas estamos rodeados por toda a parte, andamos sempre com os computadores, e isso tem um efeito sobre a nossa natureza. Se não somos conscientes disso – eu não digo que agora a gente vá deixar tudo isso – mas se não tentamos ao menos compensar com essa presença da natureza, qualquer tipo de natureza, ainda que seja num jardim, podemos ler um pouco num jardim, perder tempo aí, vamos ganhar. Com essa pressa de ter mais, de acumular, matamo-nos a nós próprios. Aliás há também um movimento por aí que se chama o slow movement.
4 º - Outro aspecto importante : observação paciente da natureza, minerais, das plantas, dos animais, podemos aprender muito com eles. Eu estou extasiado com a capacidade que têm os animais da presença do aqui e agora. É impressionante. Também se vai a vida nisso, mas nós dizemos uns reflexos, mas nós é que andamos distraídos, andamos só metidos na nossa cabecinha. Como os gatos caminham, como se faz o equilíbrio ecosistema. Não é preciso ser biólogos. Deviamos ler um bocadinho, isso ajuda, mas esse amor realmente tem a  ver também com a higiene, com a alimentação e ter uma informação alternativa é básica. Acho que vamos crescer muito espiritualmente se soubermos ver isso. Havia uns filósofos na Antiguidade, uns filósofos gregos chamados os cínicos – mas não tem nada a ver com os cínicos que nós entendemos, pelo contrário – eles vivam no meio da natureza, eram uma espécie dos hippies daquela altura, e chamavam-lhes os cães porque reuniam-se num pórtico que era Kyôn – significa cão - então passaram a ser os cínicos, dái vem a palavra cínico neste aspecto e diziam : “Nós temos de ser como os cães. Os cães não têm vergonha de nada. Então a gente deve fazer não somente o que os outros pensam, etc ; temos que fazer, fazemos. Aliás os cães andam a ladrar, nós também estamos aqui, a nossa função é ladrar às pessoas para que tomem consciência das coisas”. O Diógenes de Sinope vivia de uma maneira muito simples, tem haver também com um aspecto que vamos dizer : vivia numa barrica, tinha uma capa e parece que durante um tempo ainda tinha uma chávena, um copo para beber. Quando viu uma criança que bebia com as mãos :  “uma coisa mais que eu posso prescindir !”. O Sócrates também parece que ia muitas vezes pelos mercados e ria-se, e pronto, “tu aqui vens e nunca compras nada” e ele : “Não, é que eu aqui venho ver de quantas coisas eu posso prescindir”.
5 º – Desenvolver hábitos saudáveis da vida. Importante. São nestas pequenas coisas onde que se manifesta também a nossa espiritualidade.  Não é grandes abstrações. É começar pelo simples da vida : dormir o tempo correcto, uma dieta correcta, porque não um pouco de vegetarianismo ou semi-vegetarianismo, exercício físico – andar, natação, ginástica, ou melhor ainda hatha-yoga e tai ji. Isso faz bem. A gente ainda fica mais satisfeitos, mais alegres, sente-se mais integrado com o resto da natureza.
– Princípio da espiritualidade empatia – simpatia : isto é muito importante também : colocarmo-nos no lugar do outro. Como é que eu veria isso se eu estivesse no lugar dos outros ? Neste caso ou dos animais, ou como é que nos veriamos a nós humanos ? Esta prática deve ser sempre muito importante em qualquer coisa que faça. Porque isso ajuda-nos a superar os empreendismos da nossa mente. Coloquemos no ponto de vista do outro, tentemos ver desde o outro o quê que ele está a pensar. Assim nós também podemos aprender sobre nós, algumas vezes reconhecer que não temos razão, e outras até reforçar, mas positivamente. Não é só reforçar mas porque eu disse ao contrário. Há coisas que não estão bem, se calhar até em linhas gerais pode estar bem, mas há muitas coisas que se podem melhorar. Então este exercício da crítica que nós já fazemos porque nos colocamos no ponto de vista dos outros é muito importante. Até há uma práticas de espiritualidade que é também a transmissão da energia que transmitimos aos outros, a nós próprios, a quem está à nossa volta são os nossos amigos, a quem é indiferente, a quem é o nosso inimigo. Trabalha o nosso interior com o que se considera o nosso inimigo e com o resto do planeta. Nós é que somos os principais que nos libertamos todas estas coisas.
 - Falar com animais e plantas, porque não ? Há já práticas que dizem aí que de alguma maneira estão empregues, põem música do Mozart às vacas para mais leite...
Aproveitemos, desenvolvamos, falar não é só falar, é ter essa empatia com animais, com plantas. Sentimos realmente re-encantados, que isto é um todo. (1:00:04)
– Cultivar a delicadeza : organizar o nosso quarto por exemplo. Há pessoas que tratam os objectos assim, deitam tudo assim de uma maneira qualquer. Não. Aprendi com os orientais. São mais as coisas arrumadas, ser consciente. Se está tudo desorganizado à nossa volta, é difícil pensar que a nossa cabeça está organizada. Há aí uma prática chinesa que é o Feng Shui que tem em conta muito bem as energias colocadas.
– Participar em acções promovidas por certas organizações ecologistas. A gente tem de selecionar, mas é importante ter informação alternativa. Não acreditemos que o mundo é o que aparece nos jornais e na televisão. Também tudo o que é relacionado com direitos humanos, direitos das mulheres, dos indígenas, campanhas contra o racismo, etnocentrismo, eurocentrismo, são muitos ismos. Mas a gente estar sensível a estas coisas e ver como é que a gente está a viver isto já, no aqui e agora.Por exemplo no tratamento da água, dos recursos...
10º - Depois tentar promover sociedades justas e solidárias, procurando um modelo económico que não seja desenvolvimentista simplesmente neste sentido capitalista, mas coperativismo, autogestão, mercado alternativo. Há coisas que acontecem por aí, por isso é que é importante a gente ter informação alternativa. Há poucos dias, houve uma feira – 4º feira internacional – foi na Catalunha em Barcelona, feira alternativa da economia alternativa e social. E realmente, já há práticas bastante fortes, até a nível de bancos solidários, de economia, de venda de produtos, comércio mais justo, etc. Pelo menos, quando estudávamos economia, sempre diziam : quando a gente faz uma compra, é como dar um voto. Pois podemos votar por este, mas podemos votar pelo outro. Conhecer muitas vezes como estas companhias têm trabalho escravo – é verdado a gente só vai por que é mais barato, mas realmente não sabemos o trabalho escravo que tem, de vez em quando sabemos pelos acidentes que acontecem, sem direitos sindicais, à base de exploração, trabalho infantil e trabalho de mulheres numas condições. Então a gente não pode viver assim adormecido. Isto é espiritualidade também.
11º - Poupar energia é importante. Às vezes podemos subir as escadas. A ideia é estar atentos como é que a gente pode ajudar nesse ponto.
Isto é muito amplo como veem, isto dá para muitas mangas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Sem comentários:

Enviar um comentário