PONTOS PARA UMA
PRÁTICA
DE
ESPIRITUALIDADE
ECOLÓGICA
I[1]
“Para acabar, tenho aqui algumas propostas que caminham
num sentido duma “espiritualidade do aqui e agora”. Como sabem, o importante da
espiritualidade, não é tanto o passado nem o futuro, mas o aqui e agora, viver
no aqui e agora, no (eterno) Presente. E então intitulei isto como: “Algumas
práticas quotidianas da eco-espiritualidade”.
Porque, no fundo, tudo isto tem a ver com a maneira como
nós focamos o mundo, como o percecionamos, como nos situamos nele, e é
basicamente, eu diria, mais do que nada, uma crise de espiritualidade o que nós
aqui encontramos. A crise da espiritualidade exprime-se em “ter fé no
produtivismo”, pensar que os seres humanos valem tanto quanto têm, em vez de
abrirem-se uma visão mais espiritual, que é a do ser.
Isto é um pouco difícil de entender aqui no Ocidente,
talvez noutras civilizações, noutros contextos, se entenda melhor. Somos uma
civilização fáustica. No Fausto, esta importante obra de J. W.
Goethe (1749-1832), diz-se: “No princípio era a Ação”. Ou seja, o espírito
deste mundo é fazer, fazer, fazer, fazer... Claro, há que fazer, não digo que
não. Mas o importante é que seja a partir do Ser, ir de aí para o Fazer, de
dentro para fora. E, se convertemos os seres humanos só (em) fazer, em ter, em
acumular, a pergunta será: “Para quê?”. O resultado final será o Vazio!
“Vazio”, no mau sentido da palavra. Então temos que dar a volta, dar a volta a
isso. Acho que a Espiritualidade tem muito a dizer e a “fazer” neste contexto.
Por isso a primeira questão aqui, neste objetivo geral, é quebrar a nossa
Separatividade com respeito ao resto da Natureza.
A primeira ideia é
que não sou eu e a Natureza, não
somos nós e a Natureza. Somos tod@s
junt@s a Natureza também. Nós estamos “lá”. Nós somos “a” Natureza, a começar
por isso, tomar consciência que nós somos Natureza.
1º Então Ser mais do que Fazer. Por
isso é que é importante participar todos e todas nas práticas da contemplação e
da meditação, hoje, em nosso dia. Pode parecer um bocadinho raro que a gente
comece a falar de Economia e acabemos por falar em Espiritualidade, mas não é,
está tudo interligado. É desenvolver esta prática do que hoje em dia, no meio
de uma espiritualidade mais ampla, se pode chamar o mindfulness, quer dizer esta atenção
plena, viver no aqui e agora, que
é a grande lição de praticamente todas as tradições espirituais e de todas as
práticas contemplativas. É vivermos no aqui-e-agora. Não desconcentrados, não
distraídos, a dormir, mas é a viver no aqui-e-agora. Este é que é o nosso
presente, o nosso presente eterno.
Devemos pensar também, sem dúvida, mas é importante
primeiramente estarmos atentos. Sem estarmos atentos, vamos perder também a
maravilha que é este Cosmos. Figuras como São Francisco e outros mais,
bastantes, que vivem e viveram esta interrelação, ensinaram-nos a viver no aqui
e agora. Ver essa presença de Deus no meio da Natureza, entre nós, no pássaro,
no Sol, na Lua, no vento, na água…. São Francisco, por exemplo, se via no chão
um verme, uma minhoca, tinha muito respeito por ela, porque lhe recordava que
Jesus foi chamado “verme”, através da interpretação criativa do Antigo Testamento
que fizeram os cristãos, então não há que pisar o verme. Até a água, é preciso
ter respeito pela água. E por aí adiante. Trata-se de uma vivência cristológica
profunda de toda a Natureza.
Neste sentido, lembro-me duma teóloga de origem
estadunidense, Sallie McFague (no
seu livro, em edição espanhola, Modelos de Dios. Teología para una era
ecológica y nuclear, Editorial Sal Terrae, Santander, 1994), citando uma
afirmação que foi feita quando o ser humano ocidental chegou ao Everest pela
primeira vez, nos anos 40, possívelmente. Então apareceu nos jornais a
mensagem: “O homem conquistou o Everest!”. Então era engraçado ver que um
taoísta, quer dizer, um representante da espiritualidade chinesa, dizia: “Nós
não diríamos isto assim. Nós diríamos: o ser humano ofereceu a sua amizade ao
Everest”. São duas perspetivas completamente diferentes.
Acho que, como cristãos e cristãs, poderíamos dizer a
mesma coisa. Para eles, o chegar é equivalente de saudar, irmandade,
proximidade, não é conquistar, nem ser conquistador ou dominador.
Ora em 2º
lugar, há aqui um aspeto muito importante também é a observação permanente do nosso ego.
O grande problema espiritual ou da Espiritualidade é o
nosso ego, este ego que é dominante, que quer poder, ter o controlo. É um
problema de medo. Pensamos que assim
estamos mais seguros. E penso que não, estamos precisamente a fazer o
contrário, estamos a nos destruir. De alguma maneira, se tod@s estão bem, eu
também estou bem. Mas quando só eu
quero estar bem, à custa dos outros,
mais cedo ou mais tarde eu também vou
pagar por isso.
Portanto, realmente, o trabalho da Espiritualidade é a dissolução do ego. O quê que isto quer
dizer? Não é que a gente deixe de ser humanos, ou que se suicide física e/ou
moral-mente: em realidade, o que devemos fazer é deixar de que esse “egozinho”
nos controle. E para isso não é preciso estar ou viver em tensão. É observar
como o nosso ego se manifesta. Por exemplo nas nossas relações fraternas e
sociais, quando queremos impor, quando queremos realmente controlar, quando
temos medo, ciumes, invejas, queremos o domínio, tudo isso é o nosso ego que
nos atrapalha a vida. Não nos deixa viver realmente de uma maneira livre, duma
maneira solidária. Mas sim como escravos do medo.
Em 3º lugar
diria: “Cultivar a proximidade com o resto da Natureza”. Somos citadinos,
urbanos, e fazer isto é, por vezes, um pouco mais difícil. Mas pelo menos é bom
que a gente esteja aqui a refletir tudo isto no meio desta Natureza e sejamos
conscientes de que estamos a formar parte dela, e conscientes de que frequentar
realmente a Natureza é básico para a nossa saúde (integral).
Hoje em dia já há algo que os cientistas chamam a CEM, a contaminação eletro-magnética. Estamos
rodeados, cada vez mais, de eletricidade, e isto por toda a parte. E não
sabemos muito bem todos os efeitos que tudo isto tem. Ou melhor, já sabemos:
cancros, e “coisinhas” pelo estilo. Porém, já há algumas medidas que se podem
tomar neste aspeto. Até frente às próprias torres dos telemóveis, etc., que
circundam os nossos lares e prédios. Estamos rodeados por toda a parte, andamos
sempre com os computadores, e isso tem um efeito sobre a nossa própria natureza
humana. Se não somos conscientes disso – e não digo que agora se vá deixar tudo
isso – mas, se não tentamos, pelo menos compensar
(nalguns casos terá que ser mesmo eliminar
e lutar civilmente por isso) esta CEM com uma presença regular no meio do
(resto da) Natureza, qualquer tipo de Natureza, ainda que seja num jardim
(podemos ler um pouco num jardim, perder tempo aí, pois vamos realmente
ganhar), tenho a impressão que vamos destruírnos aos poucos a nós própri@s. Com
essa pressa de ter mais, de acumular, matamo-nos a nós própri@s. Aliás, dito de
passagem, há também um movimento alternativo por aí que se chama o slow movement…
4 º - Outro aspeto importante: a observação paciente (do
resto) da Natureza, dos minerais, das plantas, dos animais: podemos aprender
muito com eles/elas. Eu estou extasiado com a capacidade que têm os animais da
presença no aqui e agora. É impressionante! Também, se não, lhes vai a vida
nisso, mas nós que dizemos que somos uns seres reflexivos, nós é que andamos
distraídos, andamos só metidos na nossa “cabecinha”. Observemos como os gatos
caminham (e os outros animais), e como se faz o equilíbrio do eco-sistema. Não
é preciso ser biólog@s profissionais. Devíamos ler e estudar um bocadinho
disto, isso ajuda, mas esse amor realmente tem a ver também com a higiene, com
a alimentação, com a dieta, com o exercício físico, e ter uma informação alternativa é básico em tudo
isto. Acho que vamos crescer muito espiritualmente, se soubermos ver isso.
Havia uns filósofos na Antiguidade, uns filósofos gregos
chamados “os cínicos” – mas não tem nada a ver com o conceito de “cínicos” que
nós entendemos hoje, muito pelo contrário – eles viviam no meio da Natureza,
eram uma espécie de “hippies” daquela altura, e chamavam-lhes os “cães” porque
reuniam-se num pórtico que era ´Kyôn´ – significa cão - Passaram assim a ser
chamados “os cínicos” e daí vem a palavra “cínico”. Mas, com o tempo, eles
aceitaram mesmo esta denominação e diziam: “Nós temos de ser como os cães! Os
cães não têm vergonha de nada. Então nós não devemos somente fazer o que os
outros pensam que devemos fazer. O que nós temos que fazer, fazemos. Isso decidimos
nós! E, como os cães, não nos preocupamos com o que o resto da gente pensa a
nosso respeito[2]. Aliás os cães andam a ladrar, e por isso nós também
estamos aqui, a nossa função é ladrar às pessoas para que tomem consciência das
coisas e da sua vida”.
Diógenes de Sínope (aproximadamente 412 até 323 aC), o
mais famoso deles todos (e todas!), vivia de uma maneira muito simples, e isto tem a ver também com um
aspeto ecológico que vamos dizer: vivia numa barrica, tinha só uma capa e
parece que durante um tempo ainda tinha um copo para beber. Mas quando viu uma
criança que bebia com as mãos, disse, feliz, : “Uma coisa mais de que eu posso
prescindir!” O Sócrates grego (de 469 ou 470 até 399 aC) também parece que ia
muitas vezes pelo mercado e ria-se muito. Uma vez perguntaram-lhe: “Tu vens
aqui sempre, mas nunca compras nada”. Ele respondeu: “É que eu só venho aqui
para ver de quantas coisas posso prescindir”.
5º – Desenvolver hábitos saudáveis da vida. Isto é
importante. São nestas pequenas coisas onde se manifesta a nossa
espiritualidade. Não é nas grandes abstrações. É começar pelo mais simples da
vida: dormir o tempo correto, uma dieta correta (e porque não um pouco de
vegetarianismo ou semi-vegetarianismo?), exercício físico – andar, natação,
ginástica, ou melhor ainda, hatha-yoga e/ou tai chi. Isso faz bem. A gente
ainda fica mais satisfeitos, mais alegres, sente-se mais integrado com o resto
da Natureza e connosco próprios.
6º – O princípio da espiritualidade é a empatia–simpatia. Isto é igualmente muito importante: colocarmo-nos no lugar d@ outr@. Como é
que eu veria este assunto se eu estivesse no lugar d@s outr@s? Neste caso, pode
ser também no lugar dos animais: como é que nos veríamos então a nós próprios,
humanos ?
Esta prática deve ser sempre muito importante em qualquer
coisa que se faça. Porque isso ajuda-nos a superar os egocentrismos da nossa
mente. Coloquemo-nos no ponto de vista d@ outr@, tentemos ver, desde @ outr@, o
que ele/ela está a pensar e como está a equacionar o problema. Assim nós também
podemos aprender sobre nós, algumas vezes reconhecer que não temos razão, e
outras até reforçar o nosso ponto de vista, mas positivamente. Há coisas que
não estão bem em nós, se calhar até em linhas gerais podem estar bem, mas há
muitas coisas concretas que se podem melhorar.
É este exercício de auto-crítica que nós fazemos, se nos
colocarmos no ponto de vista d@s outr@s, que é muito importante. Até há umas
práticas de espiritualidade que são também a transmissão da energia que
enviamos a nós próprios, aos nossos amigos, a quem é indiferente, a quem é o
nosso inimigo ou nos põe problemas de relacionamento, a todo o Planeta Terra
(especialmente nos lugares mais conflituosos) e a todo o Cosmos. Chama-se Metta Bhavana. Se trabalhamos o nosso
interior com a imagem daquele/a que se considera @ noss@ inimig@, e com o resto
do Planeta, somos nós sobretudo a ser @s primeir@s que nos libertamos de todas
estas coisas negativas.
7º - Falar com animais e plantas: Porque não? Há já estudos
empíricos que mostram que, por exemplo, as vacas põem mais leite com música de
Mozart ou de Bach do que com outros tipos de música mais agressiva.… E isto
está a ser utilizado!
Aproveitemos, desenvolvamos esta comunicação universal,
porque falar não é só falar, é ter essa empatia com animais, com plantas,
comunicarmo-nos. Sentir-nos-emos realmente re-encantad@s, pois isto é um Todo,
onde tudo está em conexão com tudo.
8º – Cultivar a delicadeza:
organizar o nosso quarto, por exemplo, com ordem e artística-mente. Há pessoas
que tratam os objetos des-humanizada-mente, deitam tudo fora de uma maneira
qualquer, irreflexivamente, inarmónica-mente, violenta-mente. Não. Isto aprendi
com @s orientais. É importante que as coisas estejam arrumadas, ser conscientes
desse processo da arrumação. Se está tudo desorganizado à nossa volta, é
difícil pensar que a nossa cabeça esteja organizada. Há aí uma prática chinesa
que é o Feng Shui, que tem em conta
muito bem as energias utilizadas e des-utilizadas ou mal-utilizadas.
9º – Participar em ações
solidárias entre espécies promovidas por certas organizações ecologistas.
Temos de selecionar (as ações e as organizações), claro, mas é importante ter informação alternativa nas mãos. Não
acreditemos que o mundo é o que aparece nos jornais e na televisão. Temos que
ser conscientes de tudo o que é relacionado com direitos humanos, direitos das
mulheres, dos indígenas, campanhas contra o racismo, etnocentrismo, adultismo,
etc. São muitos ismos! Mas, se conseguimos ser sensíveis a estas coisas e ver
como é que a gente está a viver isto já, no aqui e agora (por exemplo, no
tratamento da água, dos recursos, etc.) seremos eco-responsáveis e gente com Ética integral e universal.
10º - Tentar também promover, na medida das nossas possibilidades,
sociedades mais justas e solidárias, procurando um modelo económico que não
seja desenvolvimentista simplesmente,
neste sentido capitalista, mas cooperativista articulado, ou melhor ainda, de
autogestão integral, construindo, entre outros aspetos, um mercado alternativo.
Há coisas que acontecem por aí, por isso é que é importante a gente ter
informação alternativa. Há poucos dias, houve uma feira – era a 4ª feira
internacional – que foi na Catalunha, em Barcelona, uma feira alternativa de
economia alternativa e social. Um exemplo entre outros
muitos.
E realmente, já há práticas bastante fortes, até a nível
de bancos solidários, de economia social, de venda de produtos, comércio mais
justo, etc. Pelo menos, lembro-me que, quando estudávamos Economia, sempre
dizia o manual utilizado: quando fazemos uma compra, é como dar um voto a isso
que comprámos. Podemos votar por este, mas podemos votar também pelo outro.
Posso fazer uma compra crítica e solidária. Conhecer muitas vezes como estas
companhias multinacionais valem-se de trabalho escravo nos países periféricos,
ou como tratam os/as seus/suas própri@s empregad@s, etc. Normalmente, só vamos
pelo que é o mais barato, mas realmente não sabemos o trabalho escravo que tem
incorporado, os salários miseráveis que pagam noutros países mais
des-regularizados na questão de proteção aos trabalhadores, as mulheres e crianças
empregadas na produção de maneira exploradora… De vez em quando sabemos pelos
acidentes que acontecem (por exemplo, Bangladesh), e depois descobrimos que
careciam dos devidos direitos sindicais, e é tudo feito à base de exploração,
trabalho infantil e trabalho de mulheres numas péssimas condições e salários
muito baixos, valendo-se da necessidade alheia.
Não podemos viver assim adormecid@s. Isto é
Espiritualidade também!
11º - Poupar energia é muito importante. Às vezes podemos
subir as escadas, e vez de utilizar só as escadas mecânicas, se as nossas
condições o permitem. É só um exemplo. A ideia é estar sempre atent@s como é
que podemos ajudar nesse ponto, e fazer as coisas de uma maneira mais
espiritual, ecológica, justa, harmoniosa e até mais inteligente! Vivamos
eco-logicamente”.
II[3]
Os
anteriores elementos, de conteúdo mais téorico, têm agora umas grandes consequências a nível prático. Vejamos
algumas (seria muito amplo falar de tudo isto).
1. A
Responsabilidade Planetária
Esta é
a mais importante de todas.
Significa
que, aconteça o que acontecer, o importante é que cada um/a de nós se sinta,
desde dentro, desde o seu Interior ou Espírito, plenamente responsável pela Vida no Planeta Terra. Vida não se limita aqui ao mundo biológico, mas é usado num sentido
muito amplo. Inclui também o chamado mundo mineral, pois ele também está
“vivo”. Ele é dinâmico e mostra diferentes níveis de Racionalidade. Neste
sentido, seria interessante atribuir também o caráter de “vida” ao mundo quântico.
Começamos por ser responsáveis pelo mundo mineral (chamado também “inorgânico”)
e, por extensão, por todas “as coisas”.
A nossa
maneira de comportar-nos com os objetos, o mundo inorgânico e, a fortiori, com o mundo animal e humano,
mostra a classe de pessoas que somos. Todos e todas somos chamad@s a preservar
este Equilíbrio e Harmonia. Isto implica necessariamente uma crítica radical às
guerras e ao armamentismo, ao ecocídio do nosso Planeta ou das espécies que o
habitam, assim como também o mundo mineral.
Mas
implica também a procura de uma “nova economia” que signifique acumular (e
distribuir) para/por TODA a espécie humana (não só para alguns privilegiados),
assim como para o equilíbrio entre as espécies. E igualmente, uma “nova
política”, onde o Poder seja realmente democrático (não em aparência!) e
autogestionário. Democracia significa participação direta e imediata de todos e todas efetivamente, e não só representatividade. Há aqui também uma
crítica radical de fundo a todas as manipulações da chamada “democracia
representativa”, onde o que manda realmente é o Capital.
Temos,
portanto, a este nível um compromisso ético-político (de ´polis´, cidade), que
não podemos eludir, refugiando-nos em escapismos do tipo que sejam (até
“espiritualistas”!). Dentro de uma vivência autêntica do Karma Yoga, não podemos compactuar com uma sociedade profundamente
individualista, concorrencial e egocêntrica, fomentada pelo atual capitalismo
neoliberal dominante.
2. Do
ponto anterior resultam também uma série de consequências
para a vida quotidiana. Em realidade, utilizando o princípio holográfico, no nosso microcosmo está
espelhado o macrocosmo (o Todo presente na parte e vice-versa). Isto significa
que qualquer transformação pessoal e toda elevação de consciência, ainda que
pessoal (ou muito limitada em extensão humana), tem consequências benfeitoras
para o resto da nossa espécie e do resto das espécies de este Planeta Azul.
Muitas
vezes auto-derrotamo-nos a priori,
pensado que o pouco que fazemos não importa nada do vasto mundo. Pensamos que
uma gota de água não altera nada do Oceano. Mas, ainda que não é verdade que
somos só unicamente nós que “fazemos” algo, a verdade é que “ser” algo, por
“pequeno” que seja, influi no Todo. Isto para dar crédito ao princípio holográfico
e à proposta do professor Rupert Sheldrake sobre os “campos mórficos”.
Portanto,
caminhar para uma ética do Ser, mais
que do Fazer (princípio fáustico) e
do Ter.
A
criação de hábitos positivos em nós é assim uma grande contribuição para o
Cosmos inteiro também!
Mas
isto é válido também da maneira inversa: toda criação de hábitos maus (da
maneira que se entenda isto, que pode ser considerado de maneira relativa:
“maus” aqui é sinónimo de egocêntrico,
de tudo aquilo que nos separa, divide, isola, em nós e em relação inter-humana
e ecológica) contribui a estender-se e a fortificar-se por todo o Cosmos.
Por
isso estamos chamados tremendamente a ser responsáveis,
não somente por aquilo que fazemos e dizemos, mas também por tudo aquilo que
pensamos e sentimos! Também os pensamentos positivos (e negativos) ajudam a
criar um Mundo Novo (ou a afastar-nos dele).
Neste
sentido, a prática regular do Yoga é uma possibilidade de criar “campos
mórficos” positivos em nós, nos outr@s e na inter-relação entre todas as
espécies.
3. A
Importância de viver intensamente no “Aqui-e-Agora”. É aqui e agora que se
concentra toda a nossa vida. É neste Presente Eterno que se constrói e
manifesta o Sentido da nossa Existência[4].
É viver em “mindfulness” permanente, em Atenção Plena. Isto significa que
qualquer coisa que “executamos”, fazemo-la com total atenção, concentrados/as
naquilo que estamos a fazer. Normalmente, isto acontece espontaneamente quando
estamos embrenhados nalguma coisa que apreciamos profundamente.
Trata-se
de ter em nós o “hábito” de viver no Presente, evitando e corrigindo as
distrações. “Voltando ao Presente”, quando nos distraímos. Estejamos a pintar,
a lavar pratos (e já dizia Santa Teresa de Ávila que “también entre los pucheros
anda el Señor”, “também entre as panelas anda o Senhor”), a cuidar dos netos e
netas, a escrever, a pôr emails, por exemplo, etc., em todos estes casos e
muitos mais da vida, há que viver intensamente o Presente. É o nosso
compromisso com a Realidade.
Nem
todo o mundo tem possibilidades e capacidades para praticar jñana yoga em todo o tempo. Outra gente
também não se sente inclinada exclusivamente para uma espiritualidade da
afetividade e devoção de tipo bhakti.
Porém todos e todas podem praticar o karma
Yoga, o Yoga da Ação.
Mas o
melhor seria integrá-los todos em cada um/a de nós. O que vai variar vai ser a intensidade e a predominância que vamos dar a cada um destes diferentes caminhos.
Isto requer muito auto-conhecimento. A percentagem da combinação vai variar,
mas o fundamental é chegarmos ao nosso último fim. Para o Yoga, trata-se da
União: união com a Suprema Realidade, união com o Cosmo material, união com
todos os seres vivos e união connosco próprios/as (integração). União na diferença.
(Como
dizem os hindus: o importante é chegar ao topo da Montanha, não importa tanto o
Caminho que tomamos para lá chegar. Possivelmente, cada um/a de nós tem o seu
próprio Caminho a percorrer, de acordo com as vicissitudes da sua vida pessoal.
O ideal, porém, é caminharmos juntos/as, mas ninguém faz o Caminho por nós).
Essa
União é uma maneira de exprimir o Amor Universal, a Liberdade Interior e
Social, a Presença da Verdade nas nossas vidas e no mundo material. Isto
leva-nos a libertar-nos do nosso ego e a viver em des-apego existencial,
sabendo diferenciar o Permanente ou Eterno do Impermanente ou não-Eterno
(recordemos o dito que antes referiamos: nitya
anitya vastu vivekah), que é o princípio da Sabedoria (o contrário é,
portanto, a Ignorância, a Ignorância Fundamental).
Se
pudesse concretizar mais tudo isto, poderíamos falar hoje da Responsabilidade
Planetária.
O que é
que significa isto da Responsabilidade Planetária? Trata-se de ser capazes de res-ponder adequadamente
(“responsabilidade” é precisamente a capacidade de responder, de dar uma
resposta apropriada) aos problemas que atravessa o nosso Planeta. É uma
Preocupação Ecológica, mas também Ética e Política (no sentido que definimos
atrás: “responsabilidade pela Pólis”. Portanto, ‘Política’ como maiúscula
inicial, mais do que a política partidária, ou política com minúscula inicial.
Estamos,
por isso, chamados a viver por exemplo os Yamas
e Niyamas com Responsabilidade
Planetária[5].
Vejamos alguns exemplos práticos:
+ “Que
a nossa pisada sobre o Planeta seja suave”. Isto quer dizer comprometer-nos a
reciclar, poupar energia (água e eletricidade), não matar animais nem
violentá-los, respeitar os direitos das plantas e flora em geral, os da fauna,
respeitar o mundo mineral, comprometer-nos no trabalho para redirecionar as
mudanças climáticas, trabalhar para construir uma eco-economia solidária do
meio ambiente.
+
Comprometer-nos pela justiça e os direitos humanos nos nossos trabalhos, na
nossa família, na rua, na sociedade em geral.
+
Trabalhar para uma economia ao serviço de todos e todas e não só de alguns
privilegiados.
+
Apoiar organizações independentes e críticas que promovam os direitos humanos e
ecológicos, os direitos das etnias, dos emigrantes económicos e por causa das
guerras.
+ Viver
uma vida não consumista, especialmente nos países do chamado “Primeiro Mundo”.
+
Integrar nas nossas vidas a prática da Arte e da Ciência.
+
Conhecer as culturas alheias, procurando encontrar nelas pérolas de Sabedoria e
de Amor. Diga-se o mesmo com respeito às religiões e demais tradições
espirituais planetárias.
+
Trabalhar em nós os sentimentos de violência, ira, ciúmes, inveja,
superioridade/inferioridade, ódio, inimizade, chauvinismo e, em geral,
egocentrismo.
+ Viver
uma vida regrada, organizada, simples, minimamente ascética, em prática
habitual da Espiritualidade.
+ Viver
a vida com atitude positiva, curiosa, em espírito de aprendizagem, sempre com
“mente de principiante”, e abertos à novidade, à criatividade e à inovação.
+ Etc.
Conclusão,
numa palavra: viver uma vida espiritual, uma autêntica spiritual way of life.
Transformação Interior e Transformação Social
Antes
de terminar, umas breves palavras (que certamente necessitariam mais ampliação,
talvez noutra oportunidade) sobre algo muito atual dentro da Espiritualidade,
especialmente desde o século vinte. Trata-se da conjugação entre a
transformação permanente do nosso Interior e o trabalho para transformar também
as estruturas sociais de iniquidade. Como vimos, ambas não podem ser vividas em
dualismo, mas estruturalmente
integradas.
Costuma
haver com frequência uma unilateralização dos nossos compromissos. Há quem se
preocupe só com o Interior e outros/as só com o Social. Um correto Karma-Yoga levará a integrar ambas
dimensões entre si. Tudo isto devemos especialmente à Espiritualidade vivida no
século XX, em diferentes religiões, que mostraram em alguns casos a importância
do compromisso pela pólis, como
expressão de uma verdadeira Espiritualidade. Algo que tinha sido desprezado por
algumas Espiritualidades da História passada.
A
questão é conjugá-las, não separá-las. Um trabalho quotidiano, constante, com
muita persistência, porque não é fácil nem rápido, com muita karuna (compaixão, neste caso “compaixão
social” e espírito de sacrifício em alguns momentos importantes). Mas é muito verdadeiro, além de imprescindível.
Demos atrás alguns exemplos, e no nosso inter-diálogo, podemos abundar mais
nisto. O século XX deu-nos exemplos de “santos solidários” (Monsenhor Óscar
Romero, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, etc.).
Todas e
todos somos convocad@s a vivê-lo, a Ser!”.
III[6]
“Además de los diversos aspectos prácticos que se dicen aquí y acullá en
la Encíclica papal, sería bueno, por ejemplo, en lo referente a la cuestión
ecológica que en nuestros Proyectos
Comunitarios entrasen cuestiones como las siguientes (con criterios de evaluación
y seguimiento):
* ¿Tenemos modos alternativos de gestionar la generación de energía de
nuestra Comunidad, que conduzcan a un mayor ahorro energético (en lo referente
al ahorro de electricidad, agua, uso de plásticos, papel, etc.)?
* ¿Tenemos la disciplina de hacer separación de basura?
* ¿Procuramos usar transportes públicos siempre que posible o compartir
los vehículos que tengamos, llevando varias personas, sobre todo ayudando a gente pobre y
necesitada siempre que haga falta (ida a médicos, viajes o parte de ellos,
etc.)? ¿Qué tal el uso de bicicletas y otros medios no contaminantes?
* ¿Hay posibilidad de una huerta de la Comunidad? Y, sobre todo, ¿de
fomentarla entre los más pobres? En nuestros trabajos pastorales, ¿fomentamos
cocinas comunitarias, cocinas solares populares, métodos hidropónicos de
cultivo, entre otros posibles?
* También en nuestros trabajos pastorales, ¿fomentamos la medicina
alternativa, especialmente la popular, y el uso de fitoterapia curativa? ¿Qué
tal fomentar hábitos de higiene y de alimentación más sana? ¿Qué tal la extensión
de alimentación vegetariana o semi-vegetariana? ¿Promovemos también la
alimentación saludable en nuestras comunidades, a base de mayor introducción de
verduras, frutas, líquidos naturales, como zumos de fruta y agua purificada en
abundancia, proteína vegetal? (Esto no debe ser un privilegio de algunos
lugares, puesto que, si se investiga, hay también alternativas populares y
baratas).
* ¿Promovemos en nuestras propias comunidades la práctica del ejercicio
físico en general, y otras prácticas alternativas como hatha-yoga, tai chi, pilates, o equivalentes, que ayuden al
equilibrio psico-físico-espiritual? ¿Igualmente lo hacemos en nuestro trabajo
pastoral?
* ¿Promovemos el hábito de la meditación o mindfulness, que nos ayuden en la observación de nuestros
pensamientos, emociones, así como posibilitan que vivamos más en el
aquí-y-ahora, en el Presente, y, por supuesto, vivimos la Presencia Divina en
el aquí y ahora?
* ¿Procuramos el contacto con la Naturaleza, sin ser adictos a móviles,
Internet, y afines, y sin ser tampoco víctimas,
en general de la CEM (contaminación electromagnética)?
* ¿Promueven nuestras Congregaciones la formación de algunos hermanos y
hermanas en ciencias sociales, con la finalidad de que ofrezcan técnicamente modelos de economía
alternativa al sistema capitalista dominante (modelos de una economía de tipo
socialista autogestionario, por ejemplo), así como formulen modelos políticos
de democracia directa y participativa, que ayuden a superar el modelo de
democracia representativa y formal imperante?
* ¿Promovemos espacios y tiempos de vivencia comunitaria del Arte en su
forma plural de manifestar? No solo en nuestras comunidades, sino entre los
mismos pobres y excluidos. Un Arte de libre manifestación, donde se exprese lo
mejor de nosotros/as mismos/as, generando creatividad, buen humor, positividad
y hábitos identitarios alternativos.
* ¿Fomentamos hábitos de vida simple, natural, con una mística de la
gratitud y gratuidad, alegrándonos con cada cosa sencilla de la Naturaleza?
* Y, sobre todo, ¿observamos profundamente nuestros apegos y aversiones
de todo tipo que nos hacen sufrir, y tampoco ayudan a una vivencia sana
comunitaria?
* Finalmente,
¿promovemos una vida en nuestras comunidades que esté preocupada por los
derechos humanos de las y los más pobres, especialmente en contra de la
inequidad de género, el maltrato infantil, los derechos de los trabajadores/as
y de las y los jóvenes en particular, fomentando prácticas autogestionarias de
los pobres se auto-organicen y crezcan en conciencia social?
Son solo algunas
sugerencias.
En algunos casos son
bastante difíciles de realizar debido a la precariedad de medios, pero esto no
puede ser visto con mente negativista y pesimista, sino como un incentivo a
trabajar por ello, aunque con resultados momentáneamente muy insignificantes.
Una vez más, lo que interesa aquí no son los grandes espectáculos en los
resultados, sino ese “gota-a-gota” que va humildemente construyendo algo cualitativamente
diferente. Con resultados precarios, provisionales y muy modestos. Pero
cualitativamente diferentes de los dominantes.
Como el Papa
Francisco dice en algún momento, son actitudes importantes aunque no se vean
resultados. Estos resultarán en otros lugares, por transmisión en el espacio-tiempo (aplicando
los ya aludidos principios de lo que antes llamamos los ”campos mórficos” de
Rupert Shelkdrake), aunque no haya contacto físico.
Si somos
verdaderamente mujeres y hombres de Fe evangélica, debemos creer que esto es
posible. Son cuestiones de Espiritualidad, de “esperanza contra toda
esperanza”. Así se construye una revolución desde abajo, pacífica, pero
persistente. ¡La revolución de la noviolencia evangélica!
¿Seremos entonces
agentes de ella o meros consumistas pequeño-burgueses “religios@s”?”.
rui
manuel grácio das neves
lisboa
04.12.17.
[1] Tomado do
Documento A Misericórdia: Um Evangelho
por habitar. Misericórdia para toda a Criação: Precisamos de uma nova Ecologia?.
[2] Aliás, há uma
T-shirt que se vende aqui em Lisboa e que diz (em inglês) algo parecido: “Don’t
worry what people think. They don’t do it very often”…
[3] Tomado do
Documento Karma Yoga: fazer da vida uma
obra de arte.
[4] NOTA: Não
confundir este Presente Eterno, com o presente temporal, aquele que se estende
numa componente passado-presente-futuro, como um momento específico somente de
este encadeamento. Mas dito encadeamento também é uma construção da nossa mente
e tem carateres de “ilusão”. Porém, deve ser vivido com consciência. Haveria
que tratar certamente isto de uma maneira mais devagar. Os budistas falam de
viver o Nirvana no (meio do) Samsara (e vice-versa).
[5] Recordemos os princípios
chaves da ética yóguica: os Yamas (Ahimsa ou nãoviolência, Satya ou veracidade/autenticidade, Asteya ou não-roubar, Brahmacharya ou Autodomínio e Aparigraha ou não possessividade), ética
de tipo social, e os Niyamas (Saucha ou Limpeza, Santosha ou Contentamento, Tapas
ou auto-esforço e perseverança, Svadhyaya
ou estudo das Sagradas Escrituras e de si mesmo, e Ishwara Pranidhana ou entrega ao Absoluto) de conteúdo mais
individual.
[6] Tomado do Documento: En torno a la Encíclica del Papa Francisco
“Laudato Si´. Sobre el cuidado de la Casa Común”. Los retos de la
Eco-Espiritualidad para la Vida Religiosa”.
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