quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

“KARMA YOGA: FAZER DA VIDA UMA OBRA DE ARTE”
 
rui manuel grácio das neves
 
 
ESQUEMA
 
 
0. Agradecimentos
 
1. O Ocidente e o Yoga
 
2. Em definitiva, o que é o Yoga?
 
3. Os três Margas
 
4. Os três tipos de Ação
 
5. Os Dois Princípios Básicos do Karma Yoga
 
6. Algumas conclusões para nós, no “Aqui-e-Agora”
 
7. Transformação Interior e Transformação Social
 
8. Meditação final
 
9. Intercâmbio.
 
 
 
 
Asato ma sadgamaya
Tamaso ma jyothir gamaya
Mrityor ma amritam gamaya
Om, shanti, shanti, shanti”
(“From the unreal lead me to the real
From darkness lead me to light
From death lead me to immortality
Peace, peace, peace)
(Pavamāna Mantra)
 
 
 
1. O Ocidente e o Yoga
 
Tenho a modesta impressão que o Yoga ainda não foi plenamente entendido nas nossas culturas ocidentais.
 
Se se viaja à Índia e vê-se como ele é praticado lá, tem-se a impressão que estamos perante algo de muito mais sério do que a genérica procura de bem-estar, boa saúde física e mental, relaxamento, como muitas vezes é encarado aqui no Ocidente (ainda que também o “consumismo yóguico”, especialmente para ocidentais, se pode observar lá em alguns lugares). Mas, em geral, aqui, na Europa, parece ser mais algo de “fitness” do que uma Procura Radical do Sentido Último da nossa Existência.
 
Não me parece que esteja mal procurar esse bem-estar. Às vezes começa-se por isso e quer aprofundar-se depois. Ótimo! Mas não podemos reduzir a prática do Yoga a uma mera prática “ginástico-psicológica” que nos deixe tranquilos. Pelo menos, não se pode reduzir a isto.
O tema que vamos tratar hoje e aqui trata precisamente sobre isso. Como o Yoga pode-se converter numa prática de vida, num estilo de vida, ou melhor, numa forma de vida.
 
Ficar-se só no Yoga como exclusivamente uma forma de Hatha-Yoga, como um conjunto de asanas e pranayama, ou até de kriyas (limpezas), é ficar certamente num dos aspetos importantes do Yoga, mas desviar-nos da sua finalidade principal, e sobretudo não viver o Yoga integral (por empregar a expressão de Sri Aurobindo), o Yoga Total. Se o Yoga é antes de mais união com o Absoluto (seja como for entendida essa Realidade Última), seria extremamente empobrecedor desviar-nos por um atalho do Caminho, perdidos entre tantas árvores do bosque.
 
2. Em definitiva, o que é o Yoga?
 
A palavra ´Yoga`, que deriva da raiz sânscrita ´yuj´, como é já sabido, significa "jungir", "cangar", "arrear", "atrelar", "prender", "juntar". É a mesma ideia que se usa quando se atrela o boi à canga ou jugo, ou quando se junta a parelha de animais. Isto significa que se está a colocar esses animais em condições para o trabalho. Por isso, a raiz ´yuj´ também significa "adequar", "preparar" ou "utilizar". Na prática, usa-se a expressão no sentido de “unir”, “juntar”.
 
A definição clássica vem-nos dos Yoga Sutras de Patañjali, que o definiu sinteticamente como “yogaha: citta vritti nirodhaha” (Yoga Sutras, I.2.), que é possível traduzir como “Yoga: restrição das flutuações (ou oscilações) mentais”.
 
Portanto, o Yoga é entendido sobretudo como um processo de pacificação da mente, de serenidade mental. Mas a mente em integração com o corpo. Falar do Yoga é falar também do corpo e de como nos relacionamos com ele. Numa perspetiva “tântrica”, não “temos” corpo: “somos” corpo.
 
Classicamente, tem sido normal diferenciar quatro tipos básicos de Yoga: Jñana Yoga, Bhakti Yoga, Karma Yoga e Raja Yoga.
 
O Jñana Yoga é o Yoga do Conhecimento, ou seja, aquele que trata da união com o Absoluto por meio do Conhecimento ou Sabedoria. Mas atenção: o Conhecimento de que aqui se fala não é a mera erudição! O filósofo grego Heráclito já escrevia: “O Conhecimento não são os conhecimentos”. Aqui o Conhecimento é equivalente da Sabedoria Fundamental. Para um espiritual hindu isto significa saber diferenciar o Permanente do Transitório, o Real do Não Real, segundo o princípio nitya anitya vastu vivekah (discernimento entre as coisas permanentes ou eternas e as impermanentes ou temporais). A nossa miséria existencial vem de não ter isto claro e de viver na confusão.
 
O Bhakti Yoga é o caminho da devoção e do afeto, normalmente encaminhado a um Ser Último Pessoal. É um caminho ao qual muita gente espiritual se une e permite centrar os nossos afetos e a nossa vida no Ishta-Devata, a nossa divindade favorita ou aquela que mais no chama a atenção e o afeto. O Bhakti Yoga é um caminho de concentração afetiva no Ser Supremo, muitas vezes (mas não necessariamente) visto como um deus pessoal.
 
 O Karma Yoga ou o Yoga da Ação. ‘Karma’ significa ‘Ação’. Precisamente, a expressão “ter um bom Karma” significa “ter um bom balanço geral entre as ações positivas e as negativas, onde predominam as positivas”. Veremos, no ponto seguinte, uma reflexão prática sobre os diferentes tipos de ação.
 
Por fim, Raja Yoga é o “Yoga Real”, que pode ser interpretado como o Ashtanga Yoga de que falava Patañjali: a integração de Yama, Niyama, Asanas, Pranayama, Pratyahara, Dharana, Dhyana, Samadhi. Ele pode estar presente nos outros três Margas ou Caminhos. Entende-se que para viver o espírito yogui necessitamos integrar, conjugar, estes oito passos (“Ashtanga Yoga” significa assim o “Yoga dos oito passos”).
 
3. Os três tipos de Ação
 
No Bhagvad Gita há uma interessante distinção entre ‘Ação’, ‘Inação’, e ‘Não-Ação’, cujos nomes são respetivamente karma, akarma e vikarma.
 
Muita gente espiritual e sábia tem interpretado profundamente estas categorias. A minha modesta interpretação do que esses termos querem dizer é a seguinte.
 
A Ação significa que há sempre um/a Agente a realizá-la. Uma ação envolve um/a Agente levando a cabo uma Ação. Noutras palavras, uma Ação é uma dinâmica egocêntrica, onde há sempre um ego. Isto inclui ações não somente no âmbito físico, como também no plano mental, pois os pensamentos também são considerados neste plano como atos. Há uma unidade entre pensamentos e ações: assim como são os nossos pensamentos, assim resultam as nossas ações.
 
O oposto a Ação é Inação, ou seja não fazer absolutamente nada. Não há então, neste caso, nem Ação nem Agente. Mas certamente também não se cria aqui Karma, nem bom nem mau, ou, pelo menos, ele não é um mau Karma. De todas as formas, não há que esquecer que um hindu procurará no fim de tudo libertar-se da Lei do Karma. Só que a Inação não constrói precisamente nada.
 
Finalmente, na Não-Ação há Ação, mas não há Agente nem nenhum “Fazer” como tal (ou seja, um Fazer que corresponde a uma intenção). Pense-se, por exemplo, nas batidas do coração. Não o fazemos voluntariamente, não intervém um ego, mas é uma Ação que surge espontânea e livremente. É uma Ação sem ego, sem objetivo programado. Melhor dito, sem atitude egocêntrica. Mas as batidas do coração é um mero ato físico. A Não-Ação pretender ser sobretudo um ato moral. Implica portanto toda uma prática ética sem ego[1].
 
Pessoalmente, a ‘Não-Ação’ faz-me pensar que corresponde ao termo taoísta chinês: wu wei. Wu wei significa “não ação”. Em realidade, a expressão completa é: wei wu wei. Ou seja, “Ação-Não-Ação”. Em outras palavras, é uma Ação que aparenta ser uma Não Ação. Melhor dito, uma Ação que resulta tão suave, espontânea e livre, que parece surgir do “Nada”, isto é, do nosso interior espontâneo, do nosso “verdadeiro eu” (o Ego transcendental, não o ego empírico), se assim podemos falar. É uma Ação que flui, sem ego, sem egocentrismo nem egolatria. É esta a verdadeira Ação, aquela que se dá onde não há eu.
 
Em ambas as tradições espirituais, Yogui e taoista, é uma ação tão espontânea, que parece que nem sequer há ação. Mas sim, há. Eis aqui a verdadeira Ação[2].
 
 
5. Os Dois Princípios Básicos do Karma Yoga
 
O Karma-Yoga pode ter vários princípios de Ação. Porém, para que seja mesmo ‘Não-Ação’ (wu wei), precisa de respeitar escrupulosamente, entre outros, estes dois princípios fundamentais, sem exceção:
 
(1)        Nós não somos os verdadeiros Atores/Atrizes, mas sim o Espírito Absoluto, a Suprema Realidade. Unicamente somos meros instrumentos, oxalá que bons.
(2)        Não nos apeguemos aos resultados da Ação, ou seja, vivamos o des-apego com respeito aos resultados e êxitos da “nossa” Ação realizada.
 
Portanto, só cumprindo estes dois princípios (ainda que não exclusivamente) é que poderemos falar propriamente que se trata de uma Ação que é Inação, incarnada dentro de um correto karma-Yoga. Poderemos assim não só construir um bom karma, mas melhor ainda, vermo-nos livres da Lei do Karma, alcançando moksha (ou seja, a libertação)[3].
 
Estes dois princípios são muito exigentes, não exclusivos, mas imprescindíveis para que possamos falar realmente de Karma Yoga.
 
6. Algumas conclusões para nós, no “Aqui-e-Agora”
 
Os anteriores elementos, de conteúdo mais téorico, têm agora umas grandes consequências a nível prático. Vejamos algumas (seria muito amplo falar de tudo isto).
 
6.1. A Responsabilidade Planetária
 
Esta é a mais importante de todas.
Significa que, aconteça o que acontecer, o importante é que cada um/a de nós se sinta, desde dentro, desde o seu Interior ou Espírito, plenamente responsável pela Vida no Planeta Terra. Vida não se limita aqui ao mundo biológico, mas é usado num sentido muito amplo. Inclui também o chamado mundo mineral, pois ele também está “vivo”. Ele é dinâmico e mostra diferentes níveis de Racionalidade. Neste sentido, seria interessante atribuir também o caráter de “vida” ao mundo quântico. Começamos por ser responsáveis pelo mundo mineral (chamado também “inorgânico”) e, por extensão, por todas “as coisas”.
 
A nossa maneira de comportar-nos com os objetos, o mundo inorgânico e, a fortiori, com o mundo animal e humano, mostra a classe de pessoas que somos. Todos e todas somos chamad@s a preservar este Equilíbrio e Harmonia. Isto implica necessariamente uma crítica radical às guerras e ao armamentismo, ao ecocídio do nosso Planeta ou das espécies que o habitam, assim como também o mundo mineral.
 
Mas implica também a procura de uma “nova economia” que signifique acumular (e distribuir) para/por TODA a espécie humana (não só para alguns privilegiados), assim como para o equilíbrio entre as espécies. E igualmente, uma “nova política”, onde o Poder seja realmente democrático (não em aparência!) e autogestionário. Democracia significa participação direta e imediata de todos e todas efetivamente, e não só representatividade. Há aqui também uma crítica radical de fundo a todas as manipulações da chamada “democracia representativa”, onde o que manda realmente é o Capital.
 
Temos, portanto, a este nível um compromisso ético-político (de ´polis´, cidade), que não podemos eludir, refugiando-nos em escapismos do tipo que sejam (até “espiritualistas”!). Dentro de uma vivência autêntica do Karma Yoga, não podemos compactuar com uma sociedade profundamente individualista, concorrencial e egocêntrica, fomentada pelo atual capitalismo neoliberal dominante.
 
6.2. Do ponto anterior resultam também uma série de consequências para a vida quotidiana. Em realidade, utilizando o princípio holográfico, no nosso microcosmo está espelhado o macrocosmo (o Todo presente na parte e vice-versa). Isto significa que qualquer transformação pessoal e toda elevação de consciência, ainda que pessoal (ou muito limitada em extensão humana), tem consequências benfeitoras para o resto da nossa espécie e do resto das espécies de este Planeta Azul.
 
Muitas vezes auto-derrotamo-nos a priori, pensado que o pouco que fazemos não importa nada do vasto mundo. Pensamos que uma gota de água não altera nada do Oceano. Mas, ainda que não é verdade que somos só unicamente nós que “fazemos” algo, a verdade é que “ser” algo, por “pequeno” que seja, influi no Todo. Isto para dar crédito ao princípio holográfico e à proposta do professor Rupert Sheldrake sobre os “campos mórficos”.
 
Portanto, caminhar para uma ética do Ser, mais que do Fazer (princípio fáustico) e do Ter.
 
A criação de hábitos positivos em nós é assim uma grande contribuição para o Cosmos inteiro também!
 
Mas isto é válido também da maneira inversa: toda criação de hábitos maus (da maneira que se entenda isto, que pode ser considerado de maneira relativa: “maus” aqui é sinónimo de egocêntrico, de tudo aquilo que nos separa, divide, isola, em nós e em relação inter-humana e ecológica) contribui a estender-se e a fortificar-se por todo o Cosmos.
 
Por isso estamos chamados tremendamente a ser responsáveis, não somente por aquilo que fazemos e dizemos, mas também por tudo aquilo que pensamos e sentimos! Também os pensamentos positivos (e negativos) ajudam a criar um Mundo Novo (ou a afastar-nos dele).
 
Neste sentido, a prática regular do Yoga é uma possibilidade de criar “campos mórficos” positivos em nós, nos outr@s e na inter-relação entre todas as espécies.
 
6.3. A Importância de viver intensamente no “Aqui-e-Agora”. É aqui e agora que se concentra toda a nossa vida. É neste Presente Eterno que se constrói e manifesta o Sentido da nossa Existência[4]. É viver em “mindfulness” permanente, em Atenção Plena. Isto significa que qualquer coisa que “executamos”, fazemo-la com total atenção, concentrados/as naquilo que estamos a fazer. Normalmente, isto acontece espontaneamente quando estamos embrenhados nalguma coisa que apreciamos profundamente.
 
Trata-se de ter em nós o “hábito” de viver no Presente, evitando e corrigindo as distrações. “Voltando ao Presente”, quando nos distraímos. Estejamos a pintar, a lavar pratos (e já dizia Santa Teresa de Ávila que “también entre los pucheros anda el Señor”, “também entre as panelas anda o Senhor”), a cuidar dos netos e netas, a escrever, a pôr emails, por exemplo, etc., em todos estes casos e muitos mais da vida, há que viver intensamente o Presente. É o nosso compromisso com a Realidade.
 
Nem todo o mundo tem possibilidades e capacidades para praticar jñana yoga em todo o tempo. Outra gente também não se sente inclinada exclusivamente para uma espiritualidade da afetividade e devoção de tipo bhakti. Porém todos e todas podem praticar o karma Yoga, o Yoga da Ação.
 
Mas o melhor seria integrá-los todos em cada um/a de nós. O que vai variar vai ser a intensidade e a predominância que vamos dar a cada um destes diferentes caminhos. Isto requer muito auto-conhecimento. A percentagem da combinação vai variar, mas o fundamental é chegarmos ao nosso último fim. Para o Yoga, trata-se da União: união com a Suprema Realidade, união com o Cosmo material, união com todos os seres vivos e união connosco próprios/as (integração). União na diferença.
 
(Como dizem os hindus: o importante é chegar ao topo da Montanha, não importa tanto o Caminho que tomamos para lá chegar. Possivelmente, cada um/a de nós tem o seu próprio Caminho a percorrer, de acordo com as vicissitudes da sua vida pessoal. O ideal, porém, é caminharmos juntos/as, mas ninguém faz o Caminho por nós).
 
Essa União é uma maneira de exprimir o Amor Universal, a Liberdade Interior e Social, a Presença da Verdade nas nossas vidas e no mundo material. Isto leva-nos a libertar-nos do nosso ego e a viver em des-apego existencial, sabendo diferenciar o Permanente ou Eterno do Impermanente ou não-Eterno (recordemos o dito que antes referiamos: nitya anitya vastu vivekah), que é o princípio da Sabedoria (o contrário é, portanto, a Ignorância, a Ignorância Fundamental).
 
Se pudesse concretizar mais tudo isto, poderíamos falar hoje da Responsabilidade Planetária.
 
O que é que significa isto da Responsabilidade Planetária? Trata-se de ser capazes de res-ponder adequadamente (“responsabilidade” é precisamente a capacidade de responder, de dar uma resposta apropriada) aos problemas que atravessa o nosso Planeta. É uma Preocupação Ecológica, mas também Ética e Política (no sentido que definimos atrás: “responsabilidade pela Pólis”. Portanto, ‘Política’ como maiúscula inicial, mais do que a política partidária, ou política com minúscula inicial.
 
Estamos, por isso, chamados a viver por exemplo os Yamas e Niyamas com Responsabilidade Planetária[5]. Vejamos alguns exemplos práticos:
 
+ “Que a nossa pisada sobre o Planeta seja suave”. Isto quer dizer comprometer-nos a reciclar, poupar energia (água e eletricidade), não matar animais nem violentá-los, respeitar os direitos das plantas e flora em geral, os da fauna, respeitar o mundo mineral, comprometer-nos no trabalho para redirecionar as mudanças climáticas, trabalhar para construir uma eco-economia solidária do meio ambiente.
+ Comprometer-nos pela justiça e os direitos humanos nos nossos trabalhos, na nossa família, na rua, na sociedade em geral.
+ Trabalhar para uma economia ao serviço de todos e todas e não só de alguns privilegiados.
+ Apoiar organizações independentes e críticas que promovam os direitos humanos e ecológicos, os direitos das etnias, dos emigrantes económicos e por causa das guerras.
+ Viver uma vida não consumista, especialmente nos países do chamado “Primeiro Mundo”.
+ Integrar nas nossas vidas a prática da Arte e da Ciência.
+ Conhecer as culturas alheias, procurando encontrar nelas pérolas de Sabedoria e de Amor. Diga-se o mesmo com respeito às religiões e demais tradições espirituais planetárias.
+ Trabalhar em nós os sentimentos de violência, ira, ciúmes, inveja, superioridade/inferioridade, ódio, inimizade, chauvinismo e, em geral, egocentrismo.
+ Viver uma vida regrada, organizada, simples, minimamente ascética, em prática habitual da Espiritualidade.
+ Viver a vida com atitude positiva, curiosa, em espírito de aprendizagem, sempre com “mente de principiante”, e abertos à novidade, à criatividade e à inovação.
+ Etc.
 
Conclusão, numa palavra: viver uma vida espiritual, spiritual way of life.
 
7. Transformação Interior e Transformação Social
 
Antes de terminar, umas breves palavras (que certamente necessitariam mais ampliação, talvez noutra oportunidade) sobre algo muito atual dentro da Espiritualidade, especialmente desde o século vinte. Trata-se da conjugação entre a transformação permanente do nosso Interior e o trabalho para transformar também as estruturas sociais de iniquidade. Como vimos, ambas não podem ser vividas em dualismo, mas estruturalmente integradas.
 
Costuma haver com frequência uma unilateralização dos nossos compromissos. Há quem se preocupe só com o Interior e outros/as só com o Social. Um correto Karma-Yoga levará a integrar ambas dimensões entre si. Tudo isto devemos especialmente à Espiritualidade vivida no século XX, em diferentes religiões, que mostraram em alguns casos a importância do compromisso pela pólis, como expressão de uma verdadeira Espiritualidade. Algo que tinha sido desprezado por algumas Espiritualidades da História passada.
 
A questão é conjugá-las, não separá-las. Um trabalho quotidiano, constante, com muita persistência, porque não é fácil nem rápido, com muita karuna (compaixão, neste caso “compaixão social” e espírito de sacrifício em alguns momentos importantes). Mas é muito verdadeiro, além de imprescindível. Demos atrás alguns exemplos, e no nosso inter-diálogo, podemos abundar mais nisto. O século XX deu-nos exemplos de “santos solidários” (Monsenhor Óscar Romero, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, etc.).
 
Todas e todos somos convocad@s a vivê-lo, a Ser.
 
Muito agradecido!
 
 
 
 
 
ALGUMA BIBLIOGRAFIA BÁSICA SOBRE A TEMÁTICA DO YOGA E DO KARMA YOGA
 
1. RAMIRO CALLE, El libro de los yogas. Una guía completa sobre los yogas y la filosofía hinduista (Luz de Oriente/EDAF, Madrid, 2ª.ed., 1998).
 
2. GEORGE FEUERSTEIN-LARRY PAYNE, Yoga for Dummies (Wiley India, New Delhi 2nd. Edition, 2012).
 
3. B.K.S. IYENGAR, Light on Pranayama (Thomson Press India, s/l 2016).
 
4. B.K.S. IYENGAR, Light on Yoga (HarperCollins, New Delhi 1991).
 
5. NITA PATEL, Total Yoga (Thunder Bay Press, San Diego 2003).
 
6. PARAMAHANSA YOGANANDA, Autobiografia de um Iogue (Lótus do Saber Editora/Dinalivro, Lisboa 2007).
 
7. SWAMI DIGAMBARANANDA SARASWATI (Danilo Hernández), Claves del Yoga. Teoría y Práctica (Los Libros de la Liebre de Marzo, Barcelona 1997).
 
8. SWAMI SATYANANDA SARASWATI, A Systematic Course in the Ancient Tantric Techniques of Yoga and Kriya (Yoga Publications Trust, Munger-Bihar, 2009.
 
9. SWAMI SHANKARANANDA, The Yoga of Kashmir Shavaism. Consciousness is Everything (Motilal Barnasidass Publishers, Delhi 2003).
 
10. SWAMI VISHNU-DEVANANDA, El nuevo libro del Yoga (Integral, Barcelona 1999).
 
11. SWAMI VIVEKANANDA, Complete Book of Yoga. Karma Yoga, Bhakti Yoga, Raja Yoga, Jnana Yoga (Vijay Goel, Delhi 2016).
 
12. SWAMI VIVEKANANDA, Karma-Yoga. The Yoga of Action (Advaita Ashrama, Kolkata 2005).
 
 
 
rui manuel grácio das neves
lisboa
27.08.17-14.09.17
24.09.17.


[1] Não é difícil ver aqui que, na tradição oriental, o ego tem normalmente um sentido negativo. Não é tanto sinónimo de eu, mas seria mais o que um ocidental entenderia como egocentrismo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
[2] Inspirou-me aqui esta reflexão um texto que encontrei há décadas atrás num especialista destas questões, Gopal Rajan, e que reproduzo em inglês a continuação (infelizmente, não tomei nessa altura a referência em Internet e quando quis agora descobri-la, ao preparar esta conferência, não fui capaz de encontrar a referência… até agora):
 
The Bhagwad Gita concept of karma, akarma and vikarma has perplexed the mankind, seekers or non-seekers, wise or unwise for ages. Exactly what does Lord Krishna mean when he uses the three terms which loosely translate into English as Action, Inaction and Non-Action respectively?
To understand this let us first understand what does action mean and what factors are needed to perform an action. An action involves a Doer carrying out an activity. Or in other words, Action is an egocentric act in which the Doer, as an ego is always present. Thus, a doing that involves a Doer thinking himself as a Doer is Action. So as long as one is a Doer, whatever one does will be action. This includes not only the physical deeds but thoughts as well. Thoughts are nothing but deeds on a mental plane.
Inaction is the exact opposite of Action i.e. an Action without a Doer. Or in other words, an egoless Action is Inaction. Inaction is often mistaken as laziness.
It is far from that. Inaction is very much an Action but without a doer carrying out the Action. An egoless action is Inaction.
A refusal to act saying that Doer or I will not act is again an action, although negative because it is the Doer that decides that he is not going to act.
Between Action and Inaction there is Non-Action, which is a special kind of Action. Inaction is egoless Action; Action is an egoist action and Non-action is action where both the doer and the doing cease to exist. For example, our hearts beat but can I say that my heart beats because I make it beat. There is neither a doer nor a doing in this case yet the act of heart beating takes place. All such acts that take place without the doer and the sense of a volitional doing can be classified as Non-Action”.
 
 
[3] Curiosamente, na tradição do Budismo Zen há uma expressão japonesa para corporificar o que seria uma autêntica contemplação: ela seria musotoku, ou seja, sem objetivo, generosa, puramente livre e gratuita. Quando há interesse, aí intervém o ego. E na tradição cristã também há um equivalente destes dois princípios, como quando se entende que alguém deve ser um instrumento nas mãos de Deus e procurar só a Vontade d’Ele (absoluta) e não a nossa (relativa). Há aqui, na prática, todo um mundo de pensamentos, sentimentos e ações que têm que ser muito bem analisados, com sinceridade, porque há também muitas manipulações inconscientes do que seria a Vontade de Deus, impondo nós os critérios, sem o saber (inconscientemente).
[4] NOTA: Não confundir este Presente Eterno, com o presente temporal, aquele que se estende numa componente passado-presente-futuro, como um momento específico somente de este encadeamento. Mas dito encadeamento também é uma construção da nossa mente e tem carateres de “ilusão”. Porém, deve ser vivido com consciência. Haveria que tratar certamente isto de uma maneira mais devagar. Os budistas falam de viver o Nirvana no (meio do) Samsara (e vice-versa).
[5] Recordemos os princípios chaves da ética yóguica: os Yamas (Ahimsa ou nãoviolência, Satya ou veracidade/autenticidade, Asteya ou não-roubar, Brahmacharya ou Autodomínio e Aparigraha ou não possessividade), ética de tipo social, e os Niyamas (Saucha ou Limpeza, Santosha ou Contentamento, Tapas ou auto-esforço e perseverança, Svadhyaya ou estudo das Sagradas Escrituras e de si mesmo, e Ishwara Pranidhana ou entrega ao Absoluto) de conteúdo mais individual.


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