segunda-feira, 9 de novembro de 2020




Unu Mondo, Unu Lingvo

         Um Mundo, Uma Língua

 

PROJETO DO CEHL - O QUE É O CEHL?



1. ‘CEHL’ são as iniciais de “Círculo de Espiritualidade Holística Libertadora”. O que se pretende é conjugar um grupo de pessoas “à procura”. À procura de uma espiritualidade que as ajude a crescer e a aprofundar no Mistério da Vida. A Espiritualidade não só para monges de distintas tradições, mas para todo o ser humano, pois a Auto-Realização é uma “tarefa” irrecusável em toda vida humana.

 

2. O CEHL promove a Espiritualidade Holística (EH). Ou seja, inspira-se no “paradigma holístico”. Holismo é aqui sinónimo de um pensamento-sentimento-prática que procura a totalidade, a integração, a harmonia do ser humano consigo mesmo, com a sua espécie, o resto do Cosmos e o Último ou Absoluto.

 

3. Não é um grupo que parta de uma espiritualidade “confessional”. Aliás, não se confunde Espiritualidade e Religião. Podem “interseccionar-se”, mas não necessariamente. Pode haver alguém que pratique a EH e que seja cristão, judeu, muçulmano, hinduísta, budista, taoista, etc. Mas pode também haver alguém que seja ateu ou agnóstico e que esteja na procura do Sentido da Vida. Ou simplesmente pode ser útil para quem esteja “à procura”. Pode-se estar nas periferias e nas margens das religiões institucionais, mas pode-se também estar longe delas. O importante é estar “à procura”.

 

4. O Holismo não é um novo dogma, nem uma nova religião, nem sequer uma filosofia (entendida no sentido de uma nova moda intelectual, com uma determinada “escolástica” a ser repetida acriticamente). Poderia ser considerada filosofia se se entende isto como atitude mental e, sobretudo, atitude vital. Seria melhor pensar o Holismo como uma metodologia, um caminho, de fazer as coisas. Um caminho que nos ajude a pensar criticamente, a colocar questões e a procurar respostas, que sempre serão relativas, aproximadas e provisórias.

 

5. O aspeto importante de uma EH é integrar corpo-mente-espírito numa unidade (dentro da diversidade). Não viver dualística-mente. Viver em totalidade (“wholeness”). Mas sem esquecer as diferenças, que enriquecem o Todo. O Todo é mais do que a soma das suas partes e, além disso, o Todo está em cada uma das suas partes (principio holográfico). Este é um excelente programa antropológico, ontológico e ético-político. Poderíamos acrescentar que é uma estética também, um estilo de pensar-agir. Defende a intuição, que não se reduz ao racionalismo dominante, mas que também não o despreza: antes o integra! (Veja-se, neste sentido, o “decálogo holístico”). Procuramos conjugar harmonicamente, de um ponto de vista psicológico e neurológico, os hemisférios esquerdo e direito do cérebro humano.

 

6. Como “círculo holístico” procura viver-se em “comunidade holística” (ainda que isto se possa realizar de diferentes maneiras). Uma comunidade de “buscadores/as”. Nas nossas reuniões, normalmente de duas horas e meia, com o ritmo semanal, procuramos integrar a primeira parte da reunião em meditação (temos privilegiado para isso o zazen), outra parte para a reflexão vital (normalmente uma obra prima ou uma temática central da Espiritualidade de todos os tempos, tanto do Oriente, principalmente, como do Ocidente) e, finalmente, uma parte para a programação da ação social solidária. Esta organização do tempo corresponde aos níveis espiritual/corporal e intelectual, com o intuito de serem integrados em síntese.

 

7. É uma Espiritualidade que “trabalha” o interior (ou melhor, que deixa emergir o essencial de cada um/a), mas, ao mesmo tempo, pretende ser libertadora de todos os obstáculos que o impedem, tanto a nível pessoal como coletivo. Portanto, pretende conjugar a própria revolução interior com a social (desde a nãoviolência ativa).

 

8. Atualmente existem dois grupos a nível ibérico, em Lisboa e Madrid. Isto aponta também a que mais círculos possam ser criados a nível de ambos países ibéricos, como também noutras áreas geográficas do Planeta. Uma vez por ano, normalmente a começos do Verão, costumamos fazer um encontro ibérico. Também estamos abertos a sessões de formação no paradigma holístico através de conferências e seminários, assim como também de retiros, de encontros e de formação em diversos aspetos que sejam complementares (vegetarianismo/veganismo, esperanto, yoga…). Quanto à questão económica, pedimos uma colaboração voluntária mensal, para ajudar a pagar o uso das instalações, da luz e demais. As fotocópias são de responsabilidade individual, mas tem sido prática do grupo fazê-lo de modo comunitário.

 

9. Reunimo-nos atualmente nas instalações do Convento dos Frades Dominicanos, em São Domingos de Benfica (Lisboa). O endereço é: Rua João de Freitas Branco, número 12, 1500-359- Lisboa. Temos um Metro muito próximo: “Alto dos Moinhos”, linha azul. O nosso dia de reunião é atualmente às terças-feiras, começando às 18 horas. A quem esteja interessado em participar do grupo pedimos-lhe que esteja disposto a manter uma presença habitual e regular no grupo e, para isso, que comece por entrar em contacto connosco, para marcar um encontro prévio e breve de formação. Contactar neste sentido com o nosso blogue ou com o frei rui manuel, dominicano, no email: rui@poetic.com

 

10. Finalmente, eis aqui algumas perguntas motivadoras iniciais:

 

10.1. O que acha deste projeto do CEHL?

 

10.2. Tem alguma sugestão?

 

10.3. Está interessad@ em ter mais informação e/ou participar connosco?

 

 

Um abraço muito holístico.

 

fr. rui manuel grácio das neves

 

 

Lisboa, 24.01.17

 

"LA MUERTE DEL YO" (UPADESA 2 - ENCONTRO IBÉRICO 2020)

 

1. Recuerdo que cuando estuve en Adyar, en Chennai, Estado de Tamil Nadu, en la India (2018), residí en la Sociedad Teosófica (ST) y tuve la oportunidad de hablar allí con varias personas. Entre ellas, con una señora joven brasileña, que hacía su solidaridad en la Administración de la ST. Recuerdo que en uno de los momentos salió la cuestión de definir que el avance espiritual consistía simplemente en constatar el aminoramiento, decrecimiento o extinción del ego/yo. Hablemos de manera más sencilla de: decrecimiento del ego. Precisamente el peligro grave de una Espiritualidad pervertida es la egolatría, el narcisismo, la auto-referencia, la manipulación egocéntrica de la Realidad. Por lo tanto, el barómetro o criterio del avance espiritual es observar el decrecimiento progresivo del yo/ego (centrismo).

2. ¿Qué significa esto para nuestros CEHLs? Significa lo que podríamos llamar el “vestir la camiseta” en serio, como se dice en portugués, algo así como implicarse a fondo en la cuestión del sacrificio por las y los demás, por la Naturaleza. Recordemos la historia de los pintores chinos de la Antiguedad que, poseyendo ya una gran técnica pictórica, querían “pintar del cuadro perfecto”. Para eso, si querían, por ejemplo, pintar un árbol “perfecto”, se sentaban en meditación delante del árbol en cuestión días y días sin fin, hasta que llegaba el momento en que entre ellos y el árbol no había distancia, o sea, que ellos y el árbol eran uno. A partir de ahí podían pintar el cuadro “perfecto”. Es decir, ¡cuando entre “yo” y la “Naturaleza” somos Uno! En otras palabras, cuando no hay un “yo” que perturbe esa unidad con lo diverso.

3. En la tradición cristiana hay una expresión en el Evangelio de Juan (3,30) donde aparece San Juan Bautista diciendo: “Él es quien debe crecer y yo disminuir”. Ese “Él” se refiere a Jesús de Nazaret, pero podría decir también aquí: La Comunidad. San Pablo va a decir, por su parte, aquello de que:”Y ya no soy yo quien vive, sino que es Cristo quien vive en mí” (Gal 2,20). Es decir, es tal la identificación personal con Cristo, que entre ambos hay una unidad. Es decir, el yo personal se evaporó.

(La palabra ´humildad´ viene de “humus”, la capa orgánica de tierra. Ser “humilde” es estar a la altura de la tierra o del suelo).

Podemos hablar así de macro-egos, meso-egos y micro-egos.

(1) Macro-egos, producidos por las grandes “tentaciones” del Dinero, Poder, Sexo, Fama, Éxito (=afirmación del ego).

(2) Meso-egos: los provenientes de cualquier cargo de autoridad, de la “titulitis”, del reconocimiento social (discutir esto último en la “pirámide de las necesidades” de Abraham Maslow).

(3) Micro-egos: egoísmos cotidianos, mediocridad, comodismo, consumismo, mezquindad, vanidad...

(Evidentemente, estas determinaciones aproximadas de nivel macro, medio y micro dependen no sólo de su caracterización, sino de su intensidad).

4. Algunas observaciones prácticas

Aquí, como en múltiples fenómenos del campo de la Espiritualidad, la cuestión es la vigilancia (el Maestro de Galilea y los grandes Maestros han hablado siempre de la importancia de esta actitud). La vigilancia del yo. La auto-observación. El “volver la mirada hacia adentro”, típico de la Espiritualidad (los sentidos están siempre vueltos hacia afuera). Es el auto-conocimiento (recuérdese las dos grandes actitudes de la filosofía existencialista: “la autenticidad” y “la búsqueda sincera y cotidiana de la realidad tal como es”). La práctica es identificar los diversos egos que nos habitan como, por ejemplo, los siguientes:

  • el ego de la auto-justificación y de la auto-complacencia
  • el ego de la crítica a l@s demás
  • el ego del auto-engaño (y con eso, del engaño a la gente)·
  • el ego de la comodidad, de la falta de auto-superación y la auto-exigencia
  • el ego de la despreocupación culpada por la falta de información y la formación de la conciencia (véase la importancia del “cultivo de la inteligencia” de la que habla Martin Luther King en La fuerza de amar)[1]
  • el ego del placer por el placer (dictadura del placer)
  • el ego de la “dictadura de los deseos”
  • el ego de la falta de generosidad
  • el ego del egoísmo y del egocentrismo
  • el ego de la búsqueda del poder
  • el ego de la acumulación
  • el ego de la búsqueda de la fama y el reconocimiento ajeno (productos de la inseguridad interior)
  • el ego de la búsqueda del éxito y el “eficacismo y pragmatismo”
  • el ego del descompromiso práctico (económico, político, social...)
  • el ego del desequilibrio (hablar más de la cuenta y callar cuando hay que hablar y denunciar...)
  • el ego de la soberbia y el orgullo
  •  el ego de la avaricia (los "apegos")
  •  el ego de la lujuria
  • el ego de la ira
  • el ego de la gula
  • el ego de la envidia
  • el ego de la pereza
  • el ego de la "blasfemia" (por ejemplo, para l@s budistas, la blasfemia contra Buda, el Dharma o la Sangha; o para l@s cristianos/as, la blasfemia contra Dios, Jesucristo, el Espíritu Santo, Maria o las y los santos..., o, en general, vivir quejándose de todo y de todos, sin espacio para la gratitud cotidiana)
  • etc.        

4. La acción correcta

Para superar estos egos ha habido fundamental dos tipos de respuesta, que aquí solo enunciamos, sin desarrollar: la más inmediatista o urgente (pero también más superficial), que es la del "agere contra" ("actuar contra": trabajando algunos de los "egos" con micro-luchas cotidianas de renuncia efectiva y práctica, aunque fuera de pequeña, pelo cualitativa, dimensión) y la más mediata, profunda y radical de la observación profunda (seguimiento continuo e implacable de nuestros egos, de cuál es su naturaleza, de cómo operan, de cómo nos hacen daño y nos impiden ser realmente libres y de porqué esto ocurre...). Podremos alcanzar así un estado de despojamiento y de libertad interior, fruto del no-ego.

Pero, evidentemente, esto es una cuestión de práctica correcta y no tanto de teoría.

Como diría el Maestro de Galilea: "¡Ve y practica!"

¿Podemos probar?

 

rui manuel grácio das neves

lisboa

30.09.20.

 



[1]Véase MARTIN LUTHER KING JR., Strength to Love (Fortress Press, Minneapolis 2010), apartado II, Capítulo IV, pp. 35-39, sobre la “intellectual and spiritual blindness”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

COMUNIDAD Y LIBERTAD HOLÍSTICAS (UPADESA 1 - ENCONTRO IBÉRICO 2020)

 

1. Muchas de las prácticas espirituales de nuestros días son de carácter individual y hasta me atrevería a decir que individualistas.

Esto no es de extrañar, porque vivimos en un tipo de sociedad de este estilo, amén de materialista y egocéntrico. El movimiento "New Age" pese a haber promovido positivamente un interés creciente por las cuestiones espirituales, por el esoterismo y por la interioridad, va marcado mucho por este modelo social de corte más individualista (libros, revistas y artículos, audios, DVD´s, etc., que se encuentran principalmente en Internet o que pueden ser encomendados, entre otros, por Amazon y que son consumidos al gusto del cliente).

Hay aquí el peligro de hacerse una "religion à la carte", donde cada uno/a se hace su propio "cóctel" espiritual, particular, según sus gustos personales (un poco de transmigración o reencarnacionismo, una pitada de eones gnósticos, un poco de cristianismo no institucional y hermético, mezclado con algunos aspectos del hinduismo como la cosmología védica y un poco - no mucho!- de hatha yoga, del budismo sincrético, de mindfulness soft, etc., y todo ello que promueva simplemente un bienestar corporal y mental, sin más cuestiones transcendentes).

Es algo que no debe comprometer mucho la vida de cada uno. Parece más bien un consumismo espiritual que otra cosa. Por eso, si lo positivo del "New Age" ha sido hacer una crítica a una religión oficial vacía, burocrática, institucional y de meras apariencias,  y de permitir el camino hacia lo esotérico-interior, frente a lo meramente exotérico-exterior, el peligro es poder caer en el defecto contrario, en un exceso de individualismo descomprometedor y de eso-turismo (turismo esotérico).

Nada, o casi nada, de una búsqueda que implique toda nuestra vida, que trabaje por el decrecimiento del ego, o de una solidaridad con las y los que más sufren o con l@s pobres. Todo ello por apuntar al auto-centramiento, a la auto-referencialidad.

2. En nuestro CEHL siempre hemos estado pendientes de intentar  construir una Comunidad Holística Espiritual. Es una labor comunitaria, no individualista. Esto significa la idea práctica de caminar junt@s, de crecer junt@s. Saber y experiencia importan mucho aquí. Es realmente una “plusvalía espiritual” poder vivir en Comunidad espiritual. Sin embargo, como CEHL, no vivimos en una misma Comunidad, bajo el mismo techo. Cada un@ tiene su propia familia,  amig@s, trabajo, comunidad religiosa...

3. Cuáles son los valores de lo comunitario? Veamos algunos:

  • Suma y hasta multiplica la experiencia personal (“va más allá”).
  • Nos permite vivir en fraternidad/sororidad, en comunión entre nosotr@s.
  • Es un espacio/tiempo de entreayuda y apoyo mutuo.
  • Es también un espacio/tiempo privilegiados de solidaridad con otros y otras (Justicia, Paz y Ecología).
  • Permite la práctica del contraste y del contradictorio con respecto a las ideas y prácticas de l@s demás del grupo.
  • Permite multiplicar el “eco” de la meditación y de la “Metta Bhavana” universal.
  • Nos impulsa a tornarnos más holistas y planetarios/as (partiendo de lo ibérico), algo que, por lo demás, tenemos que fomentar todavía más.
  • Nos ayuda a superar el individualismo y aislacionismo (= “la mala soledad”).
  • Nos permite conocernos mejor a nosotras y nosotros mismos. 

4. La libertad personal

Con todo, también lo comunitario entraña algún peligro de exageración: el de no respetar el individuo y su libertad (esto es el “mal colectivismo”).

La libertad personal significa que cada uno/a tiene su propio caminar, ritmo e intensidad (“Caminhada”, en Brasil). Lo comunitario no quita lo personal. Lo comunitario no se confunde con el “rebañismo”. Cada uno de nosotros y nosotras debe ver, sentir y experimentar las cosas por sí mism@. Los Maestros/as nos muestran el Camino, son unos postes de dirección, pero no andan o hacen el camino por nosotras y nosotros mismos. Pero el peligro de lo personal, si es exagerado, es el individualismo, que supone la des-integración de la Comunidad y lo comunitario, de los lazos sociales y la interdependencia. Una falta de compromiso comunitario. Que el “yo” sustituya al “nosotros/as”.

Para eso está la tarea de “vestir la camiseta”. Tener un entusiasmo que no raye en el fanatismo. Que conserve la claridad de ideas y de prácticas, pero siempre con devoción por la Vida (recordar lo que San Francisco escribía a Santo Antonio, con lo de enseñar Teología, pero sin perder la oración y la devoción). Por lo tanto, debemos conjugar ambas polaridades: el yin, de la Comunidad, y el yang, de lo personal.

Sin duda, todo esto necesitaría un mayor y más profundo desarrollo en ambos CEHL´s ibéricos, a nivel interno y entre ellos.

5. Entretanto, reflexionemos sobre el sentido de este texto:

"Preguntó un gurú a sus discípulos si sabrían decir cuándo acababa la noche y empezaba el día.

Uno de ellos dijo: ´Cuando ves un animal a distancia y puedes distinguir si es una vaca o un caballo´.

´No´, dijo el gurú.

´Cuando miras un árbol a distancia y puedes distinguir si es un mango o un anacardo´.

´Tampoco´, dijo el gurú.

´Está bien´, dijeron los discípulos, ´dinos cuándo es´.

´Cuando miras a un hombre al rostro y reconoces en él a tu hermano; cuando miras a la cara a una mujer y reconoces en ella a tu hermana. Si no eres capaz de esto, entonces, sea la hora que sea, aún es de noche´"[1].

 

rui manuel grácio das neves

lisboa

29.09.20.



[1]ANTHONY DE MELLO, La Oración de la Rana 1. Sal Terrae, Santander 1988, p.227.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A ENCÍCLICA ECOLÓGICA DO PAPA FRANCISCO


“Dado que tudo está intimamente relacionado
e que os problemas atuais requerem um olhar
que tenha em atenção todos os aspetos da crise mundial,
proponho que nos detenhamos agora a refletir
sobre os diferentes elementos de uma ecologia integral,
que inclua claramente as dimensões humanas e sociais”.
PAPA FRANCISCO[1]



EM TORNO DA ENCÍCLICA ECOLÓGICA DO PAPA FRANCISCO
“LAUDATO SI´. SOBRE O CUIDADO DA CASA COMÚN”.
OS DESAFIOS DA ECO-ESPIRITUALIDADE
PARA A VIDA RELIGIOSA (E CRISTÃ)



I. AS ANÁLISES E AS PROPOSTAS DO PAPA FRANCISCO

É esta a primeira Encíclica, o primeiro documento do Magistério Ordinário da Igreja Católica sobre o tema específico da Ecologia. Chegou tarde, mas chegou em ótimas condições. É algo fruto de um Papa jesuíta, mas de coração franciscano, e que toma as palavras de São Francisco de Assis do seu famoso Cântico das Criaturas ou Cântico do Irmão Sol, como é conhecido popularmente, como título da Encíclica. Nesse mesmo espírito franciscano, o Papa oferece-nos uma reflexão teológica de síntese sobre as questões que tratam da Natureza.

Nós vamos focalizar-nos principalmente nos seus aspetos espirituais e ver como podemos encontrar ao final alguma aplicação para a vida cristã. Porque se existe realmente uma temática verdadeiramente prática, é esta: a que trata da Casa Comum de todos os seres.

Porém, não devemos separar esta Encíclica de um outro escrito seu em quanto Papa, a exortação apostólica Evangelii Gaudium. A alegria do Evangelho[2].


1. Com efeito, neste último texto citado do Papa Francisco, a EG, colocam-se as bases da sua teologia (na nossa opinião, de influência latino-americana e libertadora), ao mesmo tempo que se realiza uma denúncia valente da atual situação mundial. O intuito é que o Evangelho seja uma oferta alegre, profunda e transformadora desta situação, que dê esperança ao ser humano de hoje. Noutras palavras: que seja parte da solução e não parte do problema.

O Evangelho vivido de uma maneira verdadeiramente evangélica, tem muito para contribuir ao mundo de hoje e aos seus problemas. Esta visão encaixa de uma maneira muito positiva na espiritualidade e evangelização de qualquer opção de vida cristã, sobretudo se ela quer ser vivenciada de modo significativo, ou seja, como um sinal para os seres humanos e as sociedades hodiernas, especialmente para aqueles/as mias marginalizad@s pelo assim denominado “Progresso”.

É então interessante que o próprio Papa faça um esboço analítico da realidade nesta Exortação Apostólica (na terminologia da Teologia latino-americana, uma “Mediação Socio-analítica”). Salienta mais os aspetos negativos (talvez tivesse que tê-los equilibrado mais com outros aspetos positivos), debaixo do título “Alguns desafios do mundo atual”. Com efeito, assinala aqui que a Humanidade vive uma mudança histórica:

“Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas de um poder muitas vezes anónimo” (EG, número 52)[3].

Ou seja, aquilo que poderia ter sido gerado como aspeto positivo, pode degenerar em poderes anónimos que nos controlam e nos manipulam. O conhecimento não é neutro. Neste sentido, assinala de uma maneira muito oportuna a sua negativa a uma economía da exclusão e da iniquidade:

“Hoje, tudo entra no jogo da competividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspetivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois atirar fora. Assim teve início a cultura do “descartável”, que aliás chega a ser promovida” (EG, número 53)[4].

A conclusão que se segue daqui é bem clara: @s “excluíd@s” não são simplesmente “explorad@s”, mas sim são “escória, sobresselentes, descartáveis”. E eis o que ainda é pior: o Sistema (capitalista) já nem sequer poder explorar a todos e todas. Muito pelo contrário, há gente que nem sequer tem acesso a condição de “explorável”. É descartável.

Outro “não” do Papa é à nova idolatria do dinheiro, que está unido ao ponto anterior. Com efeito, uma das causas da situação atual é a nossa aceitação pacífica do seu predomínio (o do dinheiro) sobre nós mesmos/as e a nossa sociedade. Escreve o Papa:

        “Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que acomete as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave  carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano a uma das suas necessidades: o consumo” (EG, número 55)[5]
.
O que está realmente no fundo da problemática é uma profunda crise antropológica, que é a negação da primazia do ser humano. O ser humano é relativizado e o Capital é absolutizado. Digamos que há aqui uma inversão: o sujeito (humano) passa a ser objeto (objetualizado) e o objeto (Capital) passa a ser sujeito (subjetivizado). É esta a essência do fetichismo económico que o mesmo Carlos Marx mostrou tão bem na sua obra cimeira O Capital.

Pela sua parte, o Papa Francisco escreve:   
 
        “Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira”   (EG, número 56)[6].

Num estudo que realizámos nós próprios já faz um certo tempo, chamámos ao mercado “o reino de deus”, quer dizer, o lugar privilegiado onde o Capital exerce a sua potencialidade e se realiza[7].

Hoje haveria que dizer que é o mesmo mercado financeiro o que se autonomiza a nível económico (ou que pretende fazê-lo) a tal grau que vai procurando ser auto-suficiente. À custa do ser humano, que é em definitivo aquele (enquanto trabalhador/a) que cria toda a riqueza. Mas eis aqui o supremo paradoxo do sistema capitalista que nos (des)governa: quem trabalha empobrece, quem não trabalha enriquece. E tudo isto dada a organização específica da economia que temos, onde o lucro (privado) é posto como absoluto. Digamos, noutras palavras mais teológicas, que o lucro converte-se hoje no “espírito santo” do próprio sistema.

Por isso não devemos obviar que já nesta sua comunicação (Exortação Apostólica), o Papa diz algo, escrito só um pouco mais adiante, que desenvolverá mais ampliamente na Encíclica sobre a Ecologia, que analizaremos depois:

        “Neste sistema que tende a devorar tudo para aumentar os     benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa perante aos interesses do mercado    divinizado, transformados em regra absoluta” (EG, número 56)[8].

Noutras palavras, a própria Natureza é uma vítima inocente de este perverso sistema divinizado, que avassala e destrói tudo o que “fagocita”, absolutizando-se os benefícios de uma minoria planetária, de uma maneira cada vez mais impessoal e anónima.

Por isso, conclui o Papa com outras duas negações: não a um dinheiro que governa em lugar de servir e não à iniquidade que gera violência. Haveria outras “negações” mais, mas estas que assinalámos teriam um acento mais “objetivo”, ou seja, que manifestam melhor a estrutura e dinâmica do próprio Sistema.

Sem dúvida, esta Exortação Apostólica teria outras pérolas mais, tanto do ponto de vista teológico, como sociológico e pastoral, mas não é este o nosso objetivo de analisá-lo agora, mas que possa servir melhor para centrar a análise que o Papa Francisco faz na sua Encíclica ecológica. Porque para fazer uma reflexão ecológica era preciso antes formular esta Mediação Socio-Analítica ou Análise da Realidade.


2. É interessante ter presente o subtítulo da Encíclica ‘Laudato Si’, e que é: “Sobre o cuidado da casa comum”. Há aqui, portanto, duas palavras-chave: cuidado e casa comum. O Papa fundamenta aqui uma teologia do cuidado e, sobretudo, uma pastoral do cuidado e da ternura, na linha do grande São Francisco de Assis. E casa comum porque o Planeta inteiro é a nossa casa comum. Nós próprios/as somos parte dessa casa comum, somos essa mesma casa comum.

Inspirado, pois, no canto de São Francisco de Assis a todas as criaturas, e, ainda mais, na sua própria figura, que, entre outras coisas, pretendeu mostrar-nos, a partir de uma profunda vivência cristológica, a Natureza como uma revelação e Deus, o Papa Francisco realiza um rápido, mas não por isso menos importante, análise da realidade ecológica contemporânea (sob o título: “O que está a acontecer à nossa casa”).

A conclusão de tudo isto é a enunciação de várias “des-graças” do nosso Planeta atualmente: contaminação e mudança climática, a questão da escassez da água, a perca da biodiversidade, a deterioração da qualidade de vida e a degradação social, a iniquidade planetária e a debilidade das reações. São estes problemas de tipo estrutural e não meros acidentes do Planeta enquanto tal. O Papa identifica a causa no modelo tecnocrático, expressão da tecnociência como ideologia. Isto afeta tanto o Planeta, tanto como algo físico e biológico, como à espécie humana em particular. Ou, dito noutras palavras, trata-se de uma só questão, que afeta tanto o nível biológico como o nível social.

De aqui que o Papa resulte redundante ao assinalar que procura uma ecologia integral, ou seja, uma ecologia que integre igualmente o ser humano. A destruição da Natureza vai juntamente unida à destruição das e dos pobres.

A subordinação tirânica da Natureza em benefício dos interesses económicos de lucro privado, reproduz o mesmo esquema mental que a exclusão de milhões de seres humanos de umas condições dignas de vida. Não se trata, portanto, de dois problemas, mas de um só: a exclusão.

Ainda que ele não o exprime como estas mesmas palavras, trata-se de uma crítica radical do sistema capitalista e do seu paradigma mental, que é insensível à finitude dos recursos naturais (principalmente agora, o de origem fóssil) e a confiança fáustica de que a ciência e a tecnologia haverão de resolver todos os problemas que apareçam pela frente. Isto é denominado pelo Papa o “paradigma tecno-económico”, onde a tecnociência vai unida às finanças.

Digamos que assim o benefício não é para toda a Humanidade como um todo, mas para uma minoria privilegiada. E isto porque o lucro individual (não coletivo) está na base deste sistema de exploração económica:

“… os poderes económicos continuam a justificar o sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente. Assim se manifesta como estão intimamente ligadas a degradação ambiental e a degradação humana e ética” (LS, número 56)[9].

O Papa Francisco vê tudo interrelacionado: a degradação ambiental, a degradação humana e a ética. E observa tudo isto a partir de uma perspetiva teológica: O abandono do Deus da Vida em proveito de um ídolo da morte, concentrado no Capital e no lucro, e que se realiza no anti-reino do Mercado. Isto não teria que ser necessariamente assim, mas, de facto, é assim. Procurar somente paliativos provisórios e imediatistas, por muito necessário e urgente que isto possa ser em determinados momentos, é simplesmente agir sobre os efeitos e não sobre as causas da injustiça estrutural e, em definitivo, não resolver em definitivo o problema na sua raiz.


3. Portanto, o Papa não quer ficar somente em mostrar os sintomas da degradação ecológica, mas quer aprofundar nisso e encontra a raiz humana da/na degradação ecológica. Aprofunda aqui o que denomina o paradigma tecnocrático dominante e no lugar e ação (práxis) do ser humano no mundo. É todo o desenvolvimento do capítulo terceiro.

Refere-se, mais recentemente, à revolução digital, a robótica, as biotecnologias e a nanotecnologia (cfr. LS, número 96?). Mas Francisco não é só negativo com respeito a estes desenvolvimentos técnicos, especialmente na área da medicina, da engenharia e das comunicações. Desta maneira, a tecnociência, bem orientada, poderia produzir coisas realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano.

Não se trata, portanto, de um discurso catastrofista sobre o avanço científico e tecnológico. Mas é aqui onde aparece uma tremenda ambiguidade: poderia servir, por uma parte, para melhorar a vida humana sobre o Planeta Terra, e, porém, por outra parte concede, a quem tem o domínio do conhecimento e do poder económico, um poder impressionante sobre o conjunto da Humanidade e do mundo inteiro. Eis aqui uma questão à qual o ser humano, que não é plenamente autónomo, está exposto frente ao seu próprio poder, e falta-lhe uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que o confrontem frente aos seus próprios limites.

Foi já Francis Bacon, um defensor acérrimo da revolução científica no século XVII, quem dizia que “saber é poder” e com uma certa ingenuidade na sua imagem da Natureza pensava que ela era neutra e que seria lícito “torturá-la para arrancar-lhe os seus mistérios mais escondidos”. É a isto o que podemos chamar o imperialismo noético, sem conteúdos éticos, que levará a tantos desastres naturais.

Na nossa opinião, há, no fundo, uma imagem dualista da realidade, onde se opõe sujeito (humano, todo-poderoso e dotado de legitimidade imperialista sobre a Natureza) e objeto (uma Natureza supostamente neutra, ilimitada nos seus recurso e sempre suscetível de ser explorada por uma das suas espécies: a humana). Francis Bacon não tinha captado a inter-relação que se dá entre o ser humano e a Natureza, ou melhor, o não-dualismo ou holismo existente entre um ser humano e o seu contexto ecológico. Não há ser humano “e” Natureza, mas um ser humano “na” Natureza. Ou melhor, um ser humano que é também “a” Natureza.

Dito noutras palavras, este paradigma dualista não é um paradigma inocente: é o resultado de compreender o poder económico e tecnocientífico como omnímodo, que foi o projeto da burguesia. Num sistema como o capitalista que provoca o conflito de classes, isto implica que uma minoria de privilegiados domina uma maioria de despossuídos/as dos seus recursos e dos seus direitos, e a exploração permanente dos recursos ecológicos (sobretudo, os de carácter energético) que não são infinitos.

O Papa Francisco atribui duas características centrais a este paradigma tecnocientífico: é homogéneo e unidimensional. O seu sujeito é um sujeito dominador e exerce isto com uma técnica de possessão, domínio e transformação.

Por isso:

“… o ser humano e as coisas deixaram de dar amigavelmente a mão, tornando-se contendentes. Daqui passa-se facilmente à ideia de um crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do Planeta, que leva a “espremê-lo” até ao limite e para além do mesmo” (LS, número 106)[10].

Eis o falso pressuposto de que, citando o Conselho Pontifício de Justiça e Paz, “existe uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regeneração é possível de imediato e que os efeitos negativos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente absorvidos” (LS, ibid.)[11].

E é que o paradigma tecnocrático e a sua metodologia são reducionistas, e, desta maneira, afetam a vida humana y a própria sociedade em todas as suas dimensões. Esse paradigma tecnocrático tornou-se hoje em dia tão dominante que é muito difícil prescindir dos seus recursos. E, o que é mais difícil ainda, utilizá-lo sem ser sermos dominados pela sua lógica intrínseca. Ou seja, os meios não são neutros. Não é possível separar o paradigma tecnocrático de uma maneira de pensar, como se tratasse somente de uma metodologia. Pois essa metodologia está dentro de um determinado universo mental (paradigma), que está presente em tudo.

Sem dúvida, isto não impediria, na nossa opinião, defender uma ciência humanista, mas teria que inserir-se dentro de um paradigma humanista. Além isso, continuamos nós a pensar, não basta já o mero paradigma humanista, pelos perigos, já assinalados, de um antropocentrismo imperialista, consciente ou inconsciente. Deve ser realmente um paradigma ecológico (ou melhor, na nossa reflexão pessoal e opção intelectual, um paradigma holístico, que integraria os seres humanos e as restantes espécies da flora e da fauna, assim como simplesmente o contexto material do Planeta, num todo harmónico. E é que necessitamos desenvolver urgentemente este paradigma epistemológico. Porque da maneira de pensar originam-se umas determinadas ações).


4. A proposta então do Papa é a de uma ecologia integral. Isto é algo coerente com tudo aquilo que tem vindo a refletir ao longo da sua Encíclica e da qual salientámos os pontos que nos pareceram mais importantes do seu discurso. O Papa é consciente de que tudo está intimamente relacionado. Assim, para ele, todos os problemas atuais estariam inter-conectados e precisaríamos para isso de um olhar que tenha em conta todos os fatores da crise mundial. De aqui a necessidade de uma ecologia integral.

Se a ecologia estuda, como tal, as relações entre os organismos vivos e o ambiente onde se desenvolvem, o importante seria ter em conta aqui que, ao falarmos de meio ambiente, estaríamos a falar de uma relação (ou até diríamos melhor, de uma inter-relação), que é a que existe entre a Natureza e a sociedade que nela habita.

Se a ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o ambiente onde se desenvolvem, o importante é ter em conta que, ao falar de meio ambiente, estamos a referir-nos a uma relação (ou, melhor ainda, a uma inter-relação), que e aquela que existe entre a Natureza e a sociedade que a habita. Nada seria então mais erróneo do que entender a Natureza com algo separado de nós ou meramente como um enquadramento ou uma moldura da vida humana: 

“Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos” (LS, número 139)[12]. Esta mesma ideia é repetida abundantemente ao longo da Encíclica do Papa. Já não é possível, portanto, encontra ruma resposta específica e independente (ou seja, separada) para cada parte do problema. Segue-se de aqui uma crítica radical do reducionismo.

Devemos então procurar soluções integrais que considerem a interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Escreve Francisco:

        “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes   para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza” (LS, ibid.)[13].

(Ao fim e ao cabo, eco-logia e eco-nomia fazem ambas referência a οκος ou casa).

Por isso, se tudo está relacionado, a saúde das instituições sociais tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana. Igualmente, ao lado do património natural há toda uma ecologia cultural (que tem a ver com o património histórico, artístico e cultural) que pode estar ameaçada. Aparece como uma parte da identidade, que pode estar ameaçada. Aparece aqui como uma parte da identidade comum de um lugar e uma base para construir uma cidade habitável e humana.

E o que é também muito interessante nesta visão de Francisco é que é necessária uma ecologia da vida quotidiana. Uma ecologia do quotidiano. O que é que isto quer dizer? Isto implica tratar do tema da qualidade de vida no dia-a-dia e isto tem também como consequência tratar da temática do espaço onde se desenvolve a vida dos homens e das mulheres. O ambiente serve para exprimir a nossa identidade. Como escreve o Papa Francisco:

“ É louvável a ecologia humana que os pobres conseguem desenvolver no meio de tantas limitações. A sensação de sufocamento, produzida pelos aglomerados residenciais e pelos espaços com alta densidade populacional, é contrastada se se desenvolvem calorosas relações humanas de vizinhança, se se criam comunidades, se as limitações ambientais são compensadas na interioridade de cada pessoa que se sente inserida numa rede de comunhão e pertença. Deste modo, qualquer lugar deixa de ser um inferno e se torna o contexto de uma vida digna” (LS, número 148)[14].

São aqui, portanto, muito significativas as categorias de ‘pertença’ e de ‘enraizamento’, em contraposição ao anonimato social, ao des-enraizamento, à carência de identidade social e humana, que provocam a ausência de sentido da vida humana.

Aqui conecta o Papa Francisco com o famoso princípio do Bem Comum, de longa tradição na teologia moral católica. Assim, a categoria de Bem Comum significa:

(1)     O respeito pela pessoa humana em tanto que tal, que possui direitos básicos e inalienáveis, orientados ao seu desenvolvimento integral.

(2)    O Bem Estar social e o desenvolvimento dos diversos grupos intermédios, ao aplicar-se aqui o princípio de subsidiariedade. Um lugar notável nestes grupos intermédios é o da família, que foi sempre considerado na teologia moral católica como a célula básica da sociedade.

(3)   A paz social, que se produz sem uma atenção particular à justiça distributiva (a sua violação gera violência). O Estado teria a obrigação de defender e promover este Bem Comum.

(Nada de novo haveria aqui nesta conceção tradicional da moral católica. Haveria que pesquisar se é verdade isso mesmo de que a família é realmente a célula da sociedade e de que modelo de família estamos a falar, e de que se é realmente o Estado quem promove o deveria promover o Bem Comum, ou então é o contrário, ele é parte do problema e não parte da solução. Mas, de todas as formas achamos interessante trabalhar com esta noção de Bem Comum, ainda que seja um tanto difícil precisarmos agora algo de mais concreto).

Finalmente, o que parece bastante interessante neste capítulo é o seu apelo à justiça intergeracional. Citando os Bispos de Portugal que diziam: “O ambiente situa-se na lógica da receção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte” (LS, 159)[15], o Papa Francisco interroga-se: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem nos vai suceder, às crianças que estão a crescer?” (LS, 160)[16]. Trata-se de uma grande responsabilidade para cada geração e não deve ser um resultado de um egoísmo geracional: desfrutar ao máximo o que possamos e deixar para as gerações seguintes um planeta doente.

Mas a pergunta sobre que mundo em geral queremos deixar é uma pergunta de fundo, não somente de interesse ambiental. Temos que formular esta pergunta de uma maneira não fragmentária, e, por isso mesmo, na opinião do Papa, formulá-la conjuntamente com outras perguntas que vão unidas à anterior: Para quê passamos por este mundo? Para quê viemos a esta vida? Para quê trabalhamos e lutamos? Para quê é que nos precisa esta terra? São realmente perguntas de fundo, que estão todas elas mutuamente implicadas e isso mostra-nos uma vez mais a orientação holística do Papa Francisco.

De todas as formas, a solidariedade intergeracional transforma-se hoje num princípio chave do Bem Comum.


5. E quais seriam as linhas de ação?

Francisco enuncia vários tratados internacionais recentes sobre política. Baseiam-se no critério de que a interdependência obriga-nos a pensar num mundo único, num projeto comum (cfr. LS, 164). São as famosas cimeiras mundiais (Cimeira da Terra, Rio de Janeiro, 1992), e vários documentos a este respeito (Declaração de Estocolmo de 1972 Convenção de Basileia sobre resíduos perigosos, Convenção vinculante sobre o comércio internacional das espécies da fauna e da flora selvagens ameaçadas de extinção; Convenção de Viena para a proteção da camada de ozono e da sua respetiva implementação no âmbito do Protocolo de Montreal e as suas emendas, a Conferência das Nações Unidas sobre o desenvolvimento sustentável, Rio + 20, no Rio de Janeiro, 2012) que às vezes todos eles têm a grande fraqueza de não estabelecer depois mecanismos eficientes verificáveis e uma formulação legal que permita "punir infratores ecológicos". É interessante notar que tudo isto tem sido o resultado de um movimento ecológico global que tem vindo a ser reforçado nos últimos tempos, onde a sociedade civil coloca pressão sobre a sociedade política ou Estados e a opinião pública está cada vez mais sensível a estas questões.

Mas o Papa Francisco acha que um bom trabalho pode ser feito no nível ecológico também na base da pressão sobre as instituições internacionais. Ele acredita que há todo um diálogo para novas políticas nacionais e locais. E observa, muito realisticamente:

“O drama de uma política focalizada nos resultados imediatos, apoiada também por populações consumistas, trona necessário produzir crescimento a curto prazo. Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afetar o nível de consumo ou pôr em risco investimentos estrangeiros. A construção míope do poder trava a inserção de uma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos” (LS, 178)[17]

Pelo contrário, ele pensa que:

“A grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo” (LS, ibid.)[18].

Francisco parece mais moderadamente otimista quando se trata do nível local, onde podem ser tomadas iniciativas diferentes e alternativas:

“… aqui (na instância local) é possível gerar uma maior responsabilidade, um forte sentido de comunidade, uma especial capacidade de solicitude e uma criatividade mais generosa, um amor apaixonado pela própria terra, tal comos e pensa naquilo que se deixa aos filhos e netos. Estes valores têm um enraizamento muito profundo nas populações aborígenes” (LS, 179)[19].

Além disso, o diálogo e a transparência nos processos decisórios são muito importantes, buscando chegar a um consenso entre os diferentes atores sociais que podem fornecer diferentes perspetivas, soluções e alternativas. E aqui o Papa lança uma série de questões fundamentais para obter um verdadeiro desenvolvimento integral: Para quê? Por quê? Onde? Quando? De que maneira? Para quem? Quais são os riscos? A que custo? Quem paga os custos e como fará isso?

Igualmente transcendental é o diálogo da política e da economia para a realização humana. Ou seja, colocar os valores humanos acima dos dogmas do paradigma da eficiência tecnocrática, o absolutismo das finanças e a crença na magia do mercado. O meio ambiente é precisamente um dos bens que os mecanismos de mercado são incapazes de defender ou promover adequadamente. Portanto, devemos redefinir o progresso.

Precisamente o critério de Francisco é que o desenvolvimento tecnológico e económico que não deixa um mundo melhor e uma maior qualidade de vida realmente superior não pode ser realmente considerado como progresso (cfr. LS, 194). Há aqui, sem mencionar diretamente a Max Weber, uma crítica da absolutização da racionalidade instrumental deste sistema (capitalista), a dos meios, frente aquilo que o sociólogo chama racionalidade substantiva ou valores (cfr. LS 195)[20].

E para concluir este capítulo, o Papa Francisco também considera um diálogo frutífero, realista e prático o que existe entre religiões e ciências. Se a maioria das pessoas no planeta Terra se declara como crente, isto deveria levar a um diálogo entre elas enfrentando problemas fundamentais como o cuidar da natureza, a defesa dos pobres e a construção de redes de respeito e fraternidade.


6. Finalmente, a proposta de Francisco é por uma educação e espiritualidade ecológicas. É esta uma aposta fundamental, que visa ir além dos imediatismos da ação social e política. Pretende entrar nas consciências humanas, porque é aí onde temos que começar a mudar atitudes e hábitos em relação à vivência ecológica, tanto individualmente quanto em grupo. E é algo importante para a Vida Religiosa.

O Papa Francisco está comprometido com outro estilo de vida, um estilo de vida alternativo ao mercado de consumo, no qual somos todos doutrinados e "formatados". Além disso, a situação atual da sociedade mundial provoca uma situação de instabilidade e insegurança, que por sua vez favorece formas de egoísmo coletivo.

Por isso:

"Quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir" (LS, 204)[21].

Os desastres não são apenas climáticos e naturais, mas também sociais. No entanto, nem tudo está perdido. Os seres humanos sempre têm a capacidade de refletir, reconsiderar e iniciar novos caminhos para a verdadeira liberdade:

"Não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a estimular no mais fundo dos nossos corações" (LS, 205)[22].

Desta forma, uma mudança de estilos de vida (ou, poderíamos dizer, de formas de vida) poderia implicar uma pressão saudável sobre aqueles que têm o poder político, económico e social. Daí a importância, para o Papa Francisco, dos movimentos de consumidores. Porque a compra não é simplesmente um ato económico, mas um ato moral também (cfr. LS 206)[23]. O nosso tempo deveria ser lembrado: (1) pelo despertar de uma nova reverência pela vida; (2) pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade; (3) pela aceleração na luta pela justiça e pela paz; e (4) pela alegre celebração da vida[24].

O importante, então, é superar o individualismo, desenvolvendo um estilo/modo de vida alternativo, que possibilite uma mudança significativa na sociedade. Diante dos "mitos" da modernidade (individualismo, progresso indefinido, competição, consumismo, mercado sem regras) devemos recuperar os diferentes níveis de equilíbrio ecológico: o interno, consigo mesmo; o solidário, com @s outr@s; o natural, com todos os seres vivos; o espiritual, com Deus. Tudo isso, claro, inter-relacionado. Tudo isto toca profundamente o tema da espiritualidade.

Esta espiritualidade, para Francisco, não fica nos pronunciamentos abstratos, mas desce até o concreto, encorajando educativamente a responsabilidade ambiental na vida quotidiana: evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água, separação dos resíduos, cozinhar somente o que puder razoavelmente ser comido, tratar os outros seres vivos com cuidado, usar o transporte público (ou compartilhar o mesmo veículo entre várias pessoas), plantar árvores, apagar luzes desnecessárias. Tudo isso dentro de uma grande criatividade. E o Papa afirma:

“E não se pense que estes esforços são incapazes de mudar o mundo. Estas ações espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível constatar; provocam, no seio desta Terra, um bem que se tende a difundir sempre, por vezes invisivelmente. Além disso, o exercício destes comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo” (LS, 212)[25].

(Curiosamente, estas palavras do Papa são perfeitamente adequadas à teoria da "campos mórficos", desenvolvido por Rupert Sheldrake no campo estritamente científico da Biologia[26]. É um texto, o do Papa, profundamente holístico).

E Francisco aponta para tudo isso nas diversas áreas educacionais: escola, família, mídia, catequese e um longo etc. Deveria também ser uma prioridade no campo da política, das várias associações sociais e das próprias igrejas. O Papa Francisco também espera que:

"... nos nossos seminários e casas religiosas de formação, se  eduque  para uma austeridade responsável, a grata contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio ambiente" (LS, 214)[27].

Sem esquecer também a relação entre uma educação estética adequada e a preservação de um ambiente sadio!

Tudo isso aponta, na mente do Papa Francisco, para uma verdadeira conversão ecológica. Porque a verdadeira espiritualidade cristã não está desconectada do corpo, da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas, delas e nelas, e em comunhão (comum + união) com tudo o que nos rodeia.

Portanto, a crise ecológica é um apelo à conversão ecológica. O nosso modelo deveria ser o de Francisco de Assis. Esta conversão envolve diferentes atitudes: gratidão e gratuidade, a consciência amorosa de não estar desconectado doutras criaturas, para formar com outros seres do Universo uma "estupenda comunhão universal" (cfr. LS 220)[28], o desenvolvimento da criatividade e o entusiasmo para resolver os dramas do mundo, bem como uma grande capacidade de responsabilidade (diríamos "responsabilidade ecológica").

É que, teologicamente, cada criatura reflete algo de Deus e tem uma mensagem para nos ensinar. Cristologicamente, com a sua encarnação, Jesus Cristo tomou sobre si mesmo este mundo, e ressuscitado, vive nas profundezas de cada ser, rodeando tudo com seu carinho e penetrando com a sua luz. E se Deus é um criador, isso significa que ele infundiu em toda a sua criação uma ordem e um dinamismo que o ser humano não deve ignorar.

Por essa razão, a espiritualidade cristã propõe um modo alternativo de entender o que é qualidade de vida. Também incentiva um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de desfrutar profundamente, sem ficar obcecado com o consumo:

"A espiritualidade cristã propõe um crescimento na sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do domínio e da mera acumulação de prazeres " (LS, 222)[29].

Não há que confundir, então, a felicidade com a soma dos prazeres. A felicidade é qualitativamente diferente e superior à soma quantitativa dos prazeres. Aqui surge a virtude da sobriedade, que ajuda a valorizar cada pessoa e cada coisa, aprender a fazer contato e a saber desfrutar com o mais simples. Mas há também outros prazeres que deveriam ser desenvolvidos: a satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na desabrochar dos carismas, na música e na arte, no contato com a Natureza, na oração. Podemos chamar esses prazeres que o Papa enumera “prazeres espirituais”.

Relacionado com isto é a paz interior. A paz é muito mais que a simples ausência de guerra. Precisamente a paz interior tem muito que ver, pensa o Papa, com o cuidado da ecologia e do bem comum. Assim, uma ecologia integral implica dedicar tempo "para recuperar a harmonia serena com a criação, refletir sobre nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia" (LS, 225)[30]. Esta presença divina não deve ser fabricada, mas descoberta (cfr. ibid.)[31].

Uma parte importante desta espiritualidade integral (nós a chamamos ‘holística’) é o amor civil e político. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma excelente forma de amor, que não ocorre apenas entre os indivíduos, mas afeta também os "macro-relacionamentos, como as relações sociais, económicas e políticas" (citando a Bento XVI, na sua Carta Encíclica Caritas in veritate, de 29 de junho de 2009)[32].

De um modo poético, místico, num pan-en-teísmo de grande significado, o Papa Francisco dirá que o Universo se desenvolve em Deus, que preenche ou plenifica tudo. Assim, pode haver "misticismo a contemplar uma folha, um caminho, num orvalho, no rosto dos pobres". Assim, o ideal não é apenas ir do exterior para o interior para descobrir a ação de Deus na alma, mas também para encontrá-la em todas as coisas[33].

Finalmente, o Papa Francisco encontra uma fundamentação trinitária (assim como uma mariana) para a eco-espiritualidade. Apoiando-se no santo, teólogo e místico franciscano São Boaventura, descobre que toda criatura leva dentro de si uma estrutura propriamente trinitária. E isto porque as Pessoas divinas são relações subsistentes, e o mundo, que foi criado de acordo com o modelo divino, é também uma rede de relações.

As criaturas tendem para Deus. Mas também é característico de todo ser vivo tender para outra coisa. Portanto, no coração do Universo pode-se encontrar incontáveis ​​relações constantes que estão secretamente interligadas[34]. Isto convida-nos a não apenas admirar as múltiplas conexões que existem entre as criaturas, mas também permite-nos descobrir uma chave para nossa própria realização:

“Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim, assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade” (LS, 240)[35].




II. OS DESAFIOS PROFÉTICOS DA ECOLOGIA PARA A VIDA RELIGIOSA


Chegamos aqui ao cerne da nossa reflexão, após a análise anterior (comentada) da Encíclica. Devemos agora tentar formular, num nível mais criativo e propositivo, quais são os desafios que consideramos mais significativos para @s religios@s e o seu projeto de vida no nível ecológico. Aqui estão algumas contribuições.


1. Como religios@s, devemos estar muito atentos à coerência entre o nosso discurso (evangélico) e a nossa vida (evangélica também). Não há nada mais anti-testemunho e anti-evangélico do que pregar uma coisa e viver outra, muitas vezes até mesmo opostas. Se algo fez sentido na vida religiosa durante séculos, é o seu caráter profético.

Quando o institucionalismo e a sua lógica (geralmente, poder, influência, prestígio e meios materiais) predominam nas nossas congregações e nas nossas vidas pessoais, em seguida, "o sal perde o seu sabor", e nós perdemos o nosso caminho, o nosso Norte (ou o Oriente, segundo se veja). E quando o sal perde o sabor e a eficácia, é melhor atirá-lo fora. O problema da VR (Vida Religiosa) não é a diminuição significativa do número dos seus membros, mas a perda da qualidade de vida que deveria possuir. "Que os irmãos preguem com suas obras", ou com suas vidas, disse São Francisco de Assis a seus irmãos e isso é válido para todos nós que dizemos que nos colocamos na perspetiva de Jesus. Este é o princípio geral que afeta toda a nossa evangelização, especialmente nas áreas de Justiça, Paz e Ecologia, mas também a nível do âmbito das nossas próprias comunidades e da sua experiência de fraternidade/sororidade.


2. O Papa Francisco chama a nossa atenção na sua Encíclica para uma situação social muito opressiva e discriminatória. Especialmente com @s mais pobres, marginais e excluíd@s da Sociedade. Não são suficientes a "caridade social" e as obras de misericórdia. Isso é trabalhar mais nos efeitos do que nas causas. Sem negar a extrema necessidade de um imediatismo na ajuda urgente, devemos nos mover mais para um trabalho que incida mais nas causas da pobreza, marginalização, exclusão.

Lembremo-nos aqui daquelas palavras de um profeta latino-americano, como foi o Monsenhor Hélder Câmara, do Brasil, quando disse: "Se eu digo que temos que alimentar os pobres, chamam-me de santo. Se eu disser que devemos eliminar as causas da pobreza, chamam-me de comunista ". Religiosos e religiosos deveriam ser os porta-estandartes da causa da Justiça, Paz e Ecologia (JPE), porque é a mesma causa do Evangelho e do seu Mestre, Jesus de Nazaré. Promover a igualdade, paz profunda (que começa a partir do interior) e o total respeito pela Natureza deveriam ser as nossas práticas quotidianas e o nosso testemunho no meio duma sociedade capitalista de esbanjamento, desigualdade e privilégio.


3. O Papa também nos chama a atenção para a mentalidade produtivista do paradigma tecnocrático, onde o que conta é a idolatria do dinheiro, do sucesso, do poder e não contam os valores humanos da dignidade de todos os seres humanos, de todos os seres vivos, flora e fauna. Podemos perguntar-nos: onde entra isto nas nossas escolas, na nossa missão como educadores, nas nossas paróquias, na nossa pregação, na nossa obra de caridade, nos nossos escritos e práxis quotidiana, incluindo aqui a experiência comunitária? Tudo isto não é um acessório, mas o cerne da mensagem que dizemos defender no Evangelho, através do carisma especial d@s noss@s fundadores/as. Portanto, o JPE é uma "pedra de toque" na verdade das nossas vidas apostólicas e comunitárias.


4. "A macieira não pode dar peras". Como vamos promover os valores da defesa da Natureza se não temos isso ainda muito claro na nossa mentalidade de religios@s? Às vezes, o mais difícil é pregar estas coisas aos nossos próprios irmãos ou irmãs. Mas é por aí que se começa: vivendo-as nós propri@s e contagiando-as aos outr@s. A denúncia é importante, mas deve apoiar-se no anúncio de uma prática quotidiana ecológica, comunitária, fraterna e de defesa da justiça diante d@sd@s injustiça da História. Há que programar estas coisas e avaliá-las periodicamente. O Papa deixou-nos vários exemplos que, para um bom ouvinte, deveríamos implementar e até ir mais além.


5. Além dos vários aspetos práticos que são mencionados aqui e ali na Encíclica papal, seria bom, por exemplo, em relação à questão ecológica, que nos nossos Projetos Comunitários entrassem perguntas como as seguintes (com critérios de avaliação e de monitoramento):

* Temos maneiras alternativas de gerenciar a geração de energia da nossa comunidade, levando a uma maior economia de energia (em termos de economia/poupança de eletricidade, água, uso de plásticos, papel etc.)?

* Temos a disciplina de separação de lixo?

* Tentamos usar o transporte público sempre que possível ou compartilhar os veículos que temos, levando várias pessoas, especialmente ajudando pessoas pobres e necessitadas sempre que seja necessário (indo a médicos, viagens ou parte delas, etc.)? Que tal sobre o uso de bicicletas e outros meios não poluentes?

* Existe a possibilidade de uma horta comunitária? E, acima de tudo, de promovê-la entre @s mais pobres? No nosso trabalho pastoral, promovemos cozinhas comunitárias, fogões solares populares, métodos de cultivo hidropónico, entre outros possíveis?

* Incentivamos também nos nossos trabalhos pastorais, a medicina alternativa, especialmente a medicina popular, e o uso de fitoterapia curativa? Que tal promover hábitos mais saudáveis ​​e uma alimentação mais saudável? Que tal a extensão da comida vegetariana ou semi-vegetariana? Promovemos também a alimentação saudável nas nossas comunidades, com base na maior introdução de vegetais, frutas, líquidos naturais, como sumos de frutas e água purificada em abundância, proteína vegetal? (Isto não deve ser um privilégio de alguns lugares, pois, se pesquisadas, também existem alternativas populares e baratas).

* Promovemos nas nossas comunidades a prática de exercícios físicos em geral e de outras práticas alternativas, como hatha-yoga, tai chi, pilates ou equivalentes, que ajudem no equilíbrio psico-físico-espiritual? Fazemos também isto no nosso trabalho pastoral?

* Promovemos o hábito de meditação ou atenção plena (mindfulness), que nos ajudem na observação profunda dos nossos pensamentos, emoções, bem como nos permitem viver mais no aqui-e-agora, no Presente e, é claro, vivemos a Presença Divina, no aqui-e-agora?

* Procuramos contato com a Natureza, sem sermos viciados em telemóveis, na Internet e afins, e sem sermos vítimas, em geral, do CEM (poluição eletromagnética)?

* Promovem as nossas Congregações a formação de alguns irmãos e irmãs nas Ciências Sociais, com o propósito de oferecer tecnicamente modelos de economia alternativa ao sistema capitalista dominante (modelos de uma economia socialista autogestionária, por exemplo), bem como formular modelos políticos de democracia direta e participativa, que ajudem a superar o modelo vigente de democracia meramente representativa e formal?

* Promovemos espaços e tempos de experiência comunitária da Arte em sua forma plural de manifestação? Não apenas em nossas comunidades, mas entre @s pobres e excluíd@s. Uma Arte de livre manifestação, onde se expressa o melhor de nós mesm@s, gerando criatividade, bom humor, positividade e hábitos alternativos de identidade.

* Promovemos hábitos de vida simples e naturais, com uma mística de gratidão e gratuidade, regozijando-nos com todas as coisas simples da Natureza?

* E, acima de tudo, observamos profundamente os nossos apegos e aversões de todos os tipos que nos fazem sofrer, e não ajudam a uma saudável experiência comunitária?

* Por fim, promovemos uma vida em nossas comunidades que se preocupe com os direitos humanos d@s mais pobres, especialmente contra a desigualdade de gênero, o abuso infantil, os direitos d@s trabalhadores/as e d@s jovens? Em particular, encorajando as práticas de autogestão d@s pobres, que se auto-organizem e cresçam em consciência social?

São apenas algumas sugestões.

Nalguns casos, são bastante difíceis de executar devido à precariedade de meios, mas isso não pode ser visto com uma mente negativa e pessimista, mas como um incentivo para trabalhar, embora com resultados momentaneamente muito insignificantes. Mais uma vez, o que é interessante aqui não são os grandes espetáculos nos resultados, mas aquele "gota a gota" que humildemente constrói algo qualitativamente diferente. Com resultados precários, provisórios e muito modestos, sem dúvida. Mas que são qualitativamente diferente dos padrões dominantes.

Como o Papa Francisco diz nalgum momento, estas são atitudes importantes, embora os resultados não possam ser vistos. Eles resultarão noutros lugares, por transmissão no espaço-tempo (aplicando os princípios acima mencionados do que foi chamado anteriormente como "campos mórficos", de Rupert Shelkdrake), embora não haja contato físico.

Se somos verdadeiramente mulheres e homens de fé evangélica, devemos acreditar que isso é possível. São questões de Espiritualidade, de "esperança contra toda a esperança". É assim que uma revolução é construída, a partir de baixo, pacífica-mente, mas persistente-mente. A revolução da não-violência evangélica!

Seremos então agentes dela ou meros consumidores/as pequeno-burgueses/as … "religios@s"?

fr. rui manuel grácio das neves op
lisboa (portugal)
16.11.18.



[1] PAPA FRANCISCO, Laudato Si’. Sobre o cuidado da casa comum (Paulus, Lisboa 2015), número 137, p. 105. Usamos aquí a nova ortografía portuguesa segundo o Acordo Ortográfico e utilizamos também a linguagem de género, por meio da “arroba”. A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium aparecerá com as iniciais EG e a Encíclica Laudato Si’ com LS, seguido do número da página correspondente. A terminologia Ibid. significa aqui, neste nosso artigo, que a citação específica que fazemos aparece na mesma página da citação anterior.
[2] (Paulus, Lisboa 2013).
[3] P. 45.
[4] P. 45.
[5] Ps. 46-47.
[6] P. 47.
[7] Cfr. Rui Manuel Grácio das Neves, Dios resucita en la periferia. Hablar de Dios desde América Latina (San Esteban, Salamanca 1991). Este livro (originalmente uma tese de doutoramento em Teologia) inscreve-se numa peculiar tradição latino-americana de diálogo entre a Teologia e as Ciências Sociais, na linha do que vem sendo realizado desde há já décadas por Franz Hinkelammert e o seu grupo do D.E.I., em San José de Costa Rica.
[8] Ibid.
[9] Ps. 44-45.
[10] P. 81.
[11] Compêndio da Doutrina Social da Igreja, número 462.
[12] P. 106.
[13] Ibid.
[14] Ps. 112-113.
[15] P. 119.
[16] P. 120.
[17] P. 132.
[18] Ibid.
[19] Ibid.
[20] Já no início do século passado este visionário sociólogo alemão falava do "desencantamento do mundo", como algo típico da Modernidade.
 [21] P. 150.
[22] P. 151.
[23] P. 151.
[24] Cfr. Carta da Terra, Haia, 29 de junho de 2000 (cfr. LS 207, p. 152).
[25] P. 155.
[26] De um modo muito sucinto, podemos dizer que um "campo mórfico ou morfogenético" é uma teoria biológica que defende que toda ação gera um padrão ou modelo de comportamento futuro, com mais probabilidades de voltar a acontecer novamente, do que qualquer outro que nunca tenha sido dado. Isto é, gera um "hábito natural", se assim se puder dizer. Ou, de outro modo, dada uma certa "massa crítica" de casos, é possível que um evento biológico ocorrido seja transmitido e reproduzido no espaço/tempo no futuro, sem contato físico ou espacial. Possivelmente, a física quântica poderia fornecer uma base para essa teoria biológica. Cfr., entre outras obras, Una nueva ciencia de la vida. La hipótesis de la causación formativa. Kairós, Barcelona, 4ª.ed., 2011.

 [27] P. 156.
[28] P. 160.
[29] Ps. 161-162.
[30] Ps. 163-164.
[31] P. 164.
[32] A citação do Papa encontra-se numa nota a pé de página, a 156, da página 166 (LS, 231).
[33] O Papa cita aqui, na página 168, a São Boaventura: “A contemplação é tanto mais elevada quanto mais o homem sente em si mesmo o efeito da graça divina ou quanto mais sabe reconhecer Deus nas outras criaturas”. Também se refere a São João da Cruz, quando ele afirma que tudo o que de bom existe nas coisas, assim como as experiências do mundo, estão eminentemente em Deus de maneira infinita, ou melhor, cada uma destas grandezas que se dizem é Deus. Falando da Eucaristia com um sentido cósmico, o Papa Francisco refere-se, mas não cita explicitamente (embora sim a João Paulo II), a Teilhard de Chardin. E, numa perspetiva ecuménica, refere-se também Francisco a um mestre espiritual sufi, Ali Al-Kawwas, poeta e místico sufi do século IX, quando ele afirmava a necessidade de não separar muito as criaturas do mundo da experiência de Deus na interior (ver nota 159 das páginas 167-168 da LS). Não resistimos à tentação d citar este mestre Sufi: "Não é preciso criticar preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. Há um ‘segredo subtil’ em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássaros, o dedilhar das cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos aflitos…”
[34] O Papa Francisco apoia-se aqui no magistério de São Tomás de Aquino (Summa Theologiae I, q.11, art. 3; q. 21, art. 1, ad 3; q. 47, art. 3) (cfr. a nota a pé de página número 171, da LS 240, página 173).
[35] Ps. 173-174.