Caminhar. Caminhar demoradamente. Com um sentido.
“Escuto mas
não sei
Se o que oiço é o silêncio
Ou Deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita.
Apenas sei que caminho como quem
É olhado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.”
Sophia de Mello Breyner
Caminhar em direcção a um pessoa, encontro, acontecimento
inesperado, em direcção a uma chegada, ou em direcção a uma perda. Caminhar,
escutando, para aceitar essa pessoa, facto ou essa perda. Esse caminhar,
convoca-nos à serenidade, no mais profundo do ser.
A vida tem um sentido e, na caminhada, procuramos esse
sentido da vida, interrogamo-nos:
O que é que eu estou a fazer aqui?
O que quero da minha vida? Porque escolhi viver deste modo
e não doutro?
Grande mestra, a caminhada, pela procura, silêncio,
contemplação, sofrimento, partilha, requer que sejamos audaciosos, que forcemos
a barreira dos nossos condicionalismos.
Há carência - insatisfação, imperfeição, desajuste, dor…-
nalgum lado do nosso ser. A caminhada é purgativa (das emoções, paixões,
pensamentos, rotinas…); contemplativa, (encontro com a
natureza, com o que está por descobrir); tempo de decisão (acertar a agulha
que aponta o norte).
Caminhamos para ser um “satori” - aquele que redescobre a via do coração,
vislumbra a natureza, e caminha para um elevado estado de realização e de
despertar…
A dimensão espiritual do homem está patente em todas as
tradições religioso - místicas (sufismo,
cristianismo, budismo, taoísmo…). Tem a ver conosco, chamemos-lhe deste modo ou
doutro.
Assim como a bolota não pode renunciar a ser um carvalho,
não podemos renunciar a ser uma pessoa única, nesta época conturbada,
perturbadora, dizem alguns, de fim de ciclo.
Espera-nos um novo nascimento. Em grupo, em comunidade, decidimos
melhor por onde e como caminhar, no meio
das transformações que já aconteceram, e naquelas que se avizinham.
É este o nosso passaporte - estar num
grupo, pertencar a uma comunidade, ter um norte.
Avelino Pinto (mensagem, tarde de domingo, 25.
Novembro. 2018)
“Abriga-te no sopro corrido e fresco
do mar…” Sophia de Mello
(Livro Sexto) (19)
Avelino, embora este artigo tenha daqui a pouco um ano, eu acho que, mesmo assim, merece o meu comentário embora bastante atrasado,(as minhas desculpas).
ResponderEliminarGostei muito do poema da Sophia e da maneira como expões o tema do caminho que cada um faz e que só faz sentido se for feito em comunidade. Beijinhos e até outro artigo.