sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Mensagem da semana



Caminhar. Caminhar demoradamente. Com um sentido.

 “Escuto mas não sei
Se o que oiço é o silêncio
Ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
É olhado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.”

Sophia de Mello Breyner

Caminhar em direcção a um pessoa, encontro, acontecimento inesperado, em direcção a uma chegada, ou em direcção a uma perda. Caminhar, escutando, para aceitar essa pessoa, facto ou essa perda. Esse caminhar, convoca-nos à serenidade, no mais profundo do ser.

A vida tem um sentido e, na caminhada, procuramos esse sentido da vida, interrogamo-nos:      
O que é que eu estou a fazer aqui?
O que quero da minha vida? Porque escolhi viver deste modo e não doutro?

Grande mestra, a caminhada, pela procura, silêncio, contemplação, sofrimento, partilha, requer que sejamos audaciosos, que forcemos a barreira dos nossos condicionalismos.
Há carência - insatisfação, imperfeição, desajuste, dor…- nalgum lado do nosso ser. A caminhada é purgativa (das emoções, paixões, pensamentos, rotinas…); contemplativa, (encontro com a natureza, com o que está por descobrir); tempo de decisão (acertar a agulha que aponta o norte).
Caminhamos para ser um “satori- aquele que redescobre a via do coração, vislumbra a natureza, e caminha para um elevado estado de realização e de despertar…
A dimensão espiritual do homem está patente em todas as tradições religioso - místicas  (sufismo, cristianismo, budismo, taoísmo…). Tem a ver conosco, chamemos-lhe deste modo ou doutro.
Assim como a bolota não pode renunciar a ser um carvalho, não podemos renunciar a ser uma pessoa única, nesta época conturbada, perturbadora, dizem alguns, de fim de ciclo. 
Espera-nos um novo nascimento. Em grupo, em comunidade, decidimos melhor por onde  e como caminhar, no meio das transformações que já aconteceram, e naquelas que se avizinham.
É este o nosso passaporte - estar num grupo, pertencar a uma comunidade, ter um norte.

Avelino Pinto (mensagem, tarde de domingo, 25. Novembro. 2018)

“Abriga-te no sopro corrido e fresco do mar…” Sophia de Mello (Livro Sexto) (19)

1 comentário:

  1. Avelino, embora este artigo tenha daqui a pouco um ano, eu acho que, mesmo assim, merece o meu comentário embora bastante atrasado,(as minhas desculpas).
    Gostei muito do poema da Sophia e da maneira como expões o tema do caminho que cada um faz e que só faz sentido se for feito em comunidade. Beijinhos e até outro artigo.

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