segunda-feira, 29 de outubro de 2018


CEHL, Lisboa – “O Mundo interior”

Notas de apreciação de síntese

Ao longo do ano, e na sequência de uma introdução ao Sufismo, procedeu-se à análise, comentada e discutida do livro “O Mundo interior” de Muhammad Djalâl – od – Din, que o mundo islâmico conheceu sob o nome de Rûmi. O seu guia na Via Mística foi Shams de Tabîz, referido na bibliografia disponível como um dervixe errante, o que deverá estar na origem da criação da confraria dos “Dervixes Rodopiantes”, designação proveniente da sua dança Samâ, verdadeiro ofício litúrgico, que foi tomada como parte da apresentação do Grupo, o ano passado na reunião de Évora. 

A vida de Rûmi é descrita num clima de legenda, aparentando certa semelhança com as “Florinhas” de Francisco de Assis, sendo, aliás, significativas as semelhanças entre ambos, no amor pelos humildes e na consideração de um cosmos sacralizado[1], traduzindo-se na prática de uma aceitação fraterna de todos os seres, todavia praticada com bom senso sólido e sentido de humor; afigura-se oportuno apontar as relações amigáveis que, de acordo com a bibliografia disponível, graças à influência de Rûmi, foram estabelecidas com os cristãos de Konya, centro de peregrinação marcado pela sua presença e onde veio a falecer.

Em “O Mundo Interior”, Rûmî visa ensinar-nos como libertarmo-nos da prisão da ignorância, de modo a podermos mergulhar na essência imutável do Ser, distinguindo no percurso do homem os diversos degraus a subir; para Rûmi (cap. 11 – pag 96) o homem é como que um livro onde tudo está escrito, embora, por si, isto é, sem auxílio, não consiga descobrir os tesouros que cintilam em si próprio. Poderá ser a meditação orientada a guiá-lo (?!).

Considerado o recurso a uma linguagem simples, afigura-se legítimo concluir, da leitura feita, que, para Rûmi, o aparentemente trivial tinha a possibilidade de ser usado para ilustrar o seu pensamento mais profundo, nomeadamente a unicidade do objetivo que todos pretendem atingir[2].

Sem dúvida Rûmi sentia atração pela observação do firmamento, tomando diversas vezes a reflexão deste na placa de cobre de um astrolábio como analogia da reflexão, no homem perfeito, dos atributos de Deus: o ser humano é o astrolábio de Deus [O Mundo Interior pag. 37], todavia sem o conhecimento do astrónomo, o astrolábio de nada serve: Quando Deus se deu a conhecer ao homem e o tornou consciente de Si, este homem, no astrolábio do seu próprio ser, vê, a cada instante, o resplandecer de Deus. Pode dizer-se que, nesta linha, a analogia com o espelho é cara a Rûmi, referindo que a primeira qualidade de um espelho deverá ser a fidelidade da imagem à realidade, pelo que, para que a realidade divina se mostre com clareza, o espelho do coração não pode estar sujo pelas impurezas deste mundo, pois que a nitidez do espelho simboliza a integridade moral, sendo a corrupção do pecado sobre o coração assemelhada à ferrugem, e a ascese, que o sufismo defende, comparada ao polimento – é isto que Rûmi aponta /cap. 12, pag. 107[3]

O que se pode referir como a “Parábola do Elefante”[4] , apresentada no trabalho analisado,  impressionou-me particularmente,  não só por uma evidência patente da riqueza da posição holista  como por ilustrar bem que o que poderemos designar pelo olhar sensorial ser, de facto, incapaz de dar-nos toda a riqueza do real, o que a ciência (e o conhecimento nas suas múltiplas faces) nos vem mostrando com uma frequência quase estonteante, sendo verdadeiramente admirável como este tipo de perceções foi apreendido, por vezes em passados bem longínquos, pelos que uma luz interior  iluminou.

Pedro Martins da Silva (setembro, 2018)



















[1]O Profeta disse: A terra toda foi feita uma mesquita (ou um local de oração) … onde quer que um homem esteja quando chegar a hora da oração, que ele ore.
[2] Cap. 23 do “Mundo Interior” pag. 170: Não sabes que diversos caminhos levam à Ka’ba? Para alguns, o caminho passa por Bizâncio, para outros pela Síria…Os caminhos são diferentes, o fim é único…há um grande afeto no coração pela Ka’ba. Ali nenhuma contradição existe. …E os que diziam um ao outro durante o caminho “tu não tens razão e és impio”, esquecem a sua querela uma vez chegados, pois o seu objetivo era único,
[3] Até aqui combatemos contra inimigos que tinham formas, presentemente combatemos os exércitos dos pensamentos para que os bons destruam os maus e os expulsem do domínio do corpo… a grande guerra e o grande combate são estes.
[4] Um elefante estava num quarto escuro e várias pessoas reuniram-se para o ver. Mas como o quarto estava escuro demais procuravam senti-lo com as mãos, para ter uma ideia de como ele era. Um apalpou sua tromba e declarou que o animal parecia um cano d´água; outro apalpou sua orelha, e disse que devia ser um leque enorme; outro sua perna, e pensou que fosse uma coluna; outro apalpou seu dorso e declarou que o animal devia ser como um grande trono. De acordo com a parte que apalpava, Alguns hindus estavam exibindo um elefante num quarto escuro, e muita gente se reuniu para vê-lo. Mas como o quarto estava escuro demais para que eles pudessem ver o elefante, todos procuravam senti-lo com as mãos, para ter uma idéia de como ele era. Um apalpou sua tromba e declarou que o animal parecia um cano d´água; outro apalpou sua orelha, e disse que devia ser um leque enorme; outro sua perna, e pensou que fosse uma coluna; outro apalpou seu dorso e declarou que o animal devia ser como um grande trono, pelo que, de acordo com a parte que apalpava, cada um deu uma descrição diferente do animal.

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