segunda-feira, 13 de agosto de 2018


Silenciamento e meditação

A palavra caracteriza o homem, mas é o silêncio que o define, pois a palavra falada só adquire sentido em função do silêncio[1] - o silêncio, como atitude da alma, pode ser difícil mas pode permitir ao homem que seja conduzido por Deus, que Deus se manifeste nele, porque as coisas realmente grandes realizam-se no silêncio. No silêncio, Deus escuta-nos; no silêncio, fala às nossas almas. No silêncio é-nos dado ouvir a Sua voz.

O silêncio é um tema complexo a nível conceptual, um conceito cujo significado é bastante impreciso, acabando por ser definido de formas por vezes contraditórias entre si. Definido como "ausência de ruído", o silêncio tem de apoiar-se no seu antónimo para se tornar significante. Para se entender e percecionar o silêncio ocorre a necessidade de reconhecer a existência dos conceitos opostos (o ruído, o som ou a palavra) o que torna a definição paradoxal - o silêncio implica o seu oposto e exige a sua presença.

O silêncio pode também ser entendido como “sossego”, “calma” desligando-se do âmbito mais direto da acústica e associando-se a interpretações de ambiências,  com a descoberta de sentidos novos não relacionados apenas  com a audição mas com apreciações globais de quem  perceciona.

O silêncio absoluto é impossível, seria uma negação da existência, pelo que mais do que ao nada, o silêncio se poderá considerar ligado a um ideal de plenitude, implícito numa relação de natureza estética[2] associável à tentativa da mente se esvaziar, deixando as coisas expressarem-se sem interferência do observador, essencialmente o que se designa por silenciamento.

Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias / dos Anjos?[3]

O anjo representa, nas Elegias, uma realidade espiritual superior, cujo encontro poderá verificar-se ao procurarmos entrar em nós mesmos; a meditação silenciosa conduzir-nos-á ao encontro de nós próprios, o silêncio constitui a linguagem sem palavras que conduz a Deus, que está silenciosamente no nosso coração.[4] Procuremos dentro de nós uma resposta e, se a encontramos, nela estruturemos o nosso viver, mesmo nas horas que se afigurem mais indiferentes e anódinas, porque:

Cada esforço acrescentará um pouco mais de ouro

a um tesouro que nada no mundo pode roubar.

(Simone Weil)

 

O silêncio é o marco que pode possibilitar estar no mundo sem con-fundir-me com ele[5], salvaguardar a unidade connosco próprios, viver plenamente o que se tenha entre mãos. Dar frutos, em vez de apenas construir castelos no ar, não sonhar acordado mas manter-se desperto controlando o esvoaçar da mente à deriva, encaminhando-a para onde o eu aponta, para o concreto, para viver, mesmo que prosaicamente, porque sempre isto terá mais intensidade e beleza do que a mais alargada das fantasias - É melhor calar e ser, do que falar e não ser[6]; João Paulo II na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte (15) diz : O nosso tempo é vivido em contínuo movimento que muitas vezes chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de «fazer por fazer». Há que resistir a esta tentação, procurando o «ser» acima do «fazer».

Afigura-se que a sociedade moderna não consegue prescindir do ruído omnipresente, que parece trazer segurança, esquecendo (esquecendo-nos) que o silêncio de escuta é uma condição indispensável para viver com o outro, que é um dom de Deus – o homem não consegue viver sozinho, pois tem necessidades que somente podem ser supridas pelos seus pares ou em interação com eles. O desapego do supérfluo, de tudo o que se acumula sem necessidade, conduz ao silêncio, condição da alteridade e uma necessidade para o homem se compreender a si próprio, para perguntar-se sobre o que mais deseja, e só sabendo o que se deseja compreenderemos o que devemos dar ao outro. Que pedir então a Deus como desejo mais profundo? Onde está o tesouro?

Encontra-se comumente um estado de inebriamento de palavras nas pessoas e estas, as palavras, revelam-se inúteis quando penetramos na profunda comunhão com Deus, cuja Palavra própria está dentro de nós. Deus que fala ensina-nos a falar com Ele; num ato de misericórdia. Deus faz-se falar de acordo com a capacidade de acolhimento de cada um. Deus escuta os homens, dialoga com eles e, neste diálogo, os homens encontram respostas para as questões mais profundas dos seus corações.

 

Para entrarmos na comunhão com a Palavra de Deus que habita em nós, há que entrar num silêncio criativo, que a meditação pode proporcionar, pois que ela, encaminhando-nos para a observação dos movimentos da nossa própria mente, ensina que, ao arredar o afã de possuir coisas, pessoas, ideias, são dadas mais oportunidades ao ser, pesem embora as dificuldades para alcançar  este silêncio, um estado de consciência pouco familiar à maioria de nós, ocidentais. Na meditação, sublinhe-se, o sossego não é um estado de mera passividade, mas um estado de abertura total ao nosso próprio ser, à maravilha de Deus, com a consciência plena de que estamos em união com Ele – converter-se, de alguém que vagueia sem rumos, num peregrino. Numa frase muito bonita, Pablo d’Ors (ver nota 5) resume: àquele nosso dedo que só aponta os outros, a meditação curva-o até que nos aponta a nós.

A grande questão que, na caminhada da vida, se nos vai colocando é: quem sou eu?! O que vive no meu espaço vital? De resposta difícil pois que são muitas as situações em que uma pessoa pode estar neste mundo pelo que a resposta dependerá, sem dúvida, da recriação de cenários que se vão colocando no mundo interior e aos quais vão correspondendo respostas que, de imediato, sentimos ter de descartar pois que se configuram como traduzindo apenas as funções que nos couberam, ou cabem, nesses cenários – o que somos é contingente. Talvez, quando todas respostas forem descartadas, a questão desvanece-se e afigurar-se alcançado  o conhecimento, não uma resposta mas uma experiência existencial. E o paradigma baseado na objetividade, na racionalidade, na quantificação como pressuposto de via única de chegar ao conhecimento verdadeiro conforma-se como evanescente dando lugar a uma sinfonia em que o todo supera a soma das suas partes. Muito provavelmente não entenderemos a verdade da resposta até porque a verdade não tem outra definição senão o mais desconcertante silêncio [Jo 18, 38], mas haverá que vivê-la com fé, sem medo [Mc 4, 40].

Pedro Martins da Silva

 

 

 



[1] Robert Sarah – A força do silêncio
[2] Considere-se, a título de referência “John Cage e 4 min. 33 s - questionando o paradigma da música ocidental, destacou a importância do silêncio na música, apresentando o silêncio de forma eminentemente conceitual, com todas as mínimas manifestações sonoras a criarem uma aura de happening, questionando  o público. O propósito desta obra é o de mostrar que a finalidade de uma obra pode ser não assumir propósitos, com aquilo que acontecesse nesse intervalo de tempo simplesmente a acontecer…
 
[3] Das Elegias de Duíno de Rainer Maria Rilke.
 
[4] Bento XVI, em homilia a 4 de julho de 2010, disse expressamente: Não tenhamos medo de criar o silêncio fora e dentro de nós, se quisermos ser capazes não só de ouvir a voz de Deus, mas também a voz de quem está ao nosso lado, a voz dos outros.
 
[5] Pablo d’Ors – A Biografia do Silêncio
 
[6]  S. Inácio de Antioquia - Carta aos Efésios (15)