“Dado que tudo está intimamente relacionado
e que os problemas atuais requerem um olhar
que tenha em atenção todos os aspetos da crise mundial,
proponho que nos detenhamos agora a refletir
sobre os diferentes elementos de uma ecologia
integral,
que inclua claramente as dimensões humanas e sociais”.
PAPA FRANCISCO[1]
EM TORNO DA ENCÍCLICA ECOLÓGICA DO PAPA FRANCISCO
“LAUDATO SI´. SOBRE O CUIDADO DA CASA COMÚN”.
OS DESAFIOS DA ECO-ESPIRITUALIDADE
PARA A VIDA RELIGIOSA (E CRISTÃ)
I. AS ANÁLISES E AS PROPOSTAS DO PAPA FRANCISCO
É
esta a primeira Encíclica, o primeiro documento do Magistério Ordinário da
Igreja Católica sobre o tema específico da Ecologia. Chegou tarde, mas chegou
em ótimas condições. É algo fruto de um Papa jesuíta, mas de coração franciscano,
e que toma as palavras de São Francisco de Assis do seu famoso Cântico das Criaturas ou Cântico do Irmão Sol, como é conhecido
popularmente, como título da Encíclica. Nesse mesmo espírito franciscano, o
Papa oferece-nos uma reflexão teológica de síntese sobre as questões que tratam
da Natureza.
Nós
vamos focalizar-nos principalmente nos seus aspetos espirituais e ver como
podemos encontrar ao final alguma aplicação para a vida cristã. Porque se
existe realmente uma temática verdadeiramente prática, é esta: a que trata da
Casa Comum de todos os seres.
Porém,
não devemos separar esta Encíclica de um outro escrito seu em quanto Papa, a
exortação apostólica Evangelii Gaudium. A
alegria do Evangelho[2].
1.
Com efeito, neste último texto citado do Papa Francisco, a EG, colocam-se as
bases da sua teologia (na nossa opinião, de influência latino-americana e
libertadora), ao mesmo tempo que se realiza uma denúncia valente da atual
situação mundial. O intuito é que o Evangelho seja uma oferta alegre, profunda
e transformadora desta situação, que dê esperança ao ser humano de hoje.
Noutras palavras: que seja parte da
solução e não parte do problema.
O
Evangelho vivido de uma maneira verdadeiramente evangélica, tem muito para
contribuir ao mundo de hoje e aos seus problemas. Esta visão encaixa de uma
maneira muito positiva na espiritualidade e evangelização de qualquer opção de
vida cristã, sobretudo se ela quer ser vivenciada de modo significativo, ou seja, como um sinal
para os seres humanos e as sociedades hodiernas, especialmente para aqueles/as
mias marginalizad@s pelo assim denominado “Progresso”.
É
então interessante que o próprio Papa faça um esboço analítico da realidade
nesta Exortação Apostólica (na terminologia da Teologia latino-americana, uma
“Mediação Socio-analítica”). Salienta mais os aspetos negativos (talvez tivesse
que tê-los equilibrado mais com outros aspetos positivos), debaixo do título
“Alguns desafios do mundo atual”. Com efeito, assinala aqui que a Humanidade
vive uma mudança histórica:
“Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de
novas formas de um poder muitas vezes anónimo” (EG, número 52)[3].
Ou
seja, aquilo que poderia ter sido gerado como aspeto positivo, pode degenerar
em poderes anónimos que nos controlam e nos manipulam. O conhecimento não é
neutro. Neste sentido, assinala de uma maneira muito oportuna a sua negativa a
uma economía da exclusão e da iniquidade:
“Hoje, tudo entra no jogo da competividade e da lei do
mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta
situação, grandes massas da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem
trabalho, sem perspetivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em
si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois atirar fora. Assim
teve início a cultura do “descartável”, que aliás chega a ser promovida” (EG,
número 53)[4].
A
conclusão que se segue daqui é bem clara: @s “excluíd@s” não são simplesmente
“explorad@s”, mas sim são “escória, sobresselentes, descartáveis”. E eis o que
ainda é pior: o Sistema (capitalista) já nem sequer poder explorar a todos e
todas. Muito pelo contrário, há gente que nem sequer tem acesso a condição de
“explorável”. É descartável.
Outro
“não” do Papa é à nova idolatria do dinheiro, que está unido ao ponto anterior.
Com efeito, uma das causas da situação atual é a nossa aceitação pacífica do
seu predomínio (o do dinheiro) sobre nós mesmos/as e a nossa sociedade. Escreve
o Papa:
“Criámos novos ídolos. A adoração do
antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35)
encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo
do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto
e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que acomete as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios
e sobretudo a grave carência de uma orientação antropológica
que reduz o ser humano a uma das suas
necessidades: o consumo” (EG, número
55)[5]
O que
está realmente no fundo da problemática é uma profunda crise antropológica, que é a negação da primazia do ser
humano. O ser humano é relativizado e o Capital é absolutizado. Digamos que há
aqui uma inversão: o sujeito (humano)
passa a ser objeto (objetualizado) e o objeto (Capital) passa a ser sujeito
(subjetivizado). É esta a essência do fetichismo económico que o mesmo Carlos
Marx mostrou tão bem na sua obra cimeira O
Capital.
Pela
sua parte, o Papa Francisco escreve:
“Tal desequilíbrio provém de ideologias
que defendem a autonomia absoluta dos
mercados e a especulação financeira” (EG,
número 56)[6].
Num
estudo que realizámos nós próprios já faz um certo tempo, chamámos ao mercado
“o reino de deus”, quer dizer, o lugar privilegiado onde o Capital exerce a sua
potencialidade e se realiza[7].
Hoje
haveria que dizer que é o mesmo mercado financeiro o que se autonomiza a nível
económico (ou que pretende fazê-lo) a tal grau que vai procurando ser
auto-suficiente. À custa do ser humano, que é em definitivo aquele (enquanto trabalhador/a)
que cria toda a riqueza. Mas eis aqui o supremo paradoxo do sistema capitalista
que nos (des)governa: quem trabalha empobrece, quem não trabalha enriquece. E
tudo isto dada a organização específica da economia que temos, onde o lucro
(privado) é posto como absoluto. Digamos, noutras palavras mais teológicas, que
o lucro converte-se hoje no “espírito santo” do próprio sistema.
Por
isso não devemos obviar que já nesta sua comunicação (Exortação Apostólica), o
Papa diz algo, escrito só um pouco mais adiante, que desenvolverá mais
ampliamente na Encíclica sobre a Ecologia, que analizaremos depois:
“Neste sistema que tende a devorar tudo
para aumentar os benefícios, qualquer
realidade que seja frágil, como o meio ambiente,
fica indefesa perante aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta” (EG, número 56)[8].
Noutras
palavras, a própria Natureza é uma vítima inocente de este perverso sistema
divinizado, que avassala e destrói tudo o que “fagocita”, absolutizando-se os
benefícios de uma minoria planetária, de uma maneira cada vez mais impessoal e
anónima.
Por
isso, conclui o Papa com outras duas negações: não a um dinheiro que governa em
lugar de servir e não à iniquidade que gera violência. Haveria outras
“negações” mais, mas estas que assinalámos teriam um acento mais “objetivo”, ou
seja, que manifestam melhor a estrutura e dinâmica do próprio Sistema.
Sem
dúvida, esta Exortação Apostólica teria outras pérolas mais, tanto do ponto de
vista teológico, como sociológico e pastoral, mas não é este o nosso objetivo
de analisá-lo agora, mas que possa servir melhor para centrar a análise que o
Papa Francisco faz na sua Encíclica ecológica. Porque para fazer uma reflexão
ecológica era preciso antes formular esta Mediação Socio-Analítica ou Análise
da Realidade.
2. É
interessante ter presente o subtítulo da Encíclica ‘Laudato Si’, e que é:
“Sobre o cuidado da casa comum”. Há aqui, portanto, duas palavras-chave: cuidado e casa comum. O Papa fundamenta aqui uma teologia do cuidado e, sobretudo, uma pastoral do cuidado e da ternura, na linha do grande São Francisco
de Assis. E casa comum porque o
Planeta inteiro é a nossa casa comum.
Nós próprios/as somos parte dessa casa comum, somos essa mesma casa comum.
Inspirado,
pois, no canto de São Francisco de Assis a todas as criaturas, e, ainda mais,
na sua própria figura, que, entre outras coisas, pretendeu mostrar-nos, a
partir de uma profunda vivência cristológica, a Natureza como uma revelação e
Deus, o Papa Francisco realiza um rápido, mas não por isso menos importante,
análise da realidade ecológica contemporânea (sob o título: “O que está a
acontecer à nossa casa”).
A
conclusão de tudo isto é a enunciação de várias “des-graças” do nosso Planeta
atualmente: contaminação e mudança climática, a questão da escassez da água, a
perca da biodiversidade, a deterioração da qualidade de vida e a degradação
social, a iniquidade planetária e a debilidade das reações. São estes problemas
de tipo estrutural e não meros acidentes do Planeta enquanto tal. O Papa
identifica a causa no modelo tecnocrático, expressão da tecnociência como ideologia. Isto afeta tanto o Planeta, tanto como
algo físico e biológico, como à espécie humana em particular. Ou, dito noutras
palavras, trata-se de uma só questão, que afeta tanto o nível biológico como o
nível social.
De
aqui que o Papa resulte redundante ao assinalar que procura uma ecologia integral, ou seja, uma ecologia
que integre igualmente o ser humano. A destruição da Natureza vai juntamente
unida à destruição das e dos pobres.
A
subordinação tirânica da Natureza em benefício dos interesses económicos de
lucro privado, reproduz o mesmo esquema mental que a exclusão de milhões de
seres humanos de umas condições dignas de vida. Não se trata, portanto, de dois
problemas, mas de um só: a exclusão.
Ainda
que ele não o exprime como estas mesmas palavras, trata-se de uma crítica
radical do sistema capitalista e do seu paradigma mental, que é insensível à
finitude dos recursos naturais (principalmente agora, o de origem fóssil) e a
confiança fáustica de que a ciência e a tecnologia haverão de resolver todos os
problemas que apareçam pela frente. Isto é denominado pelo Papa o “paradigma
tecno-económico”, onde a tecnociência vai unida às finanças.
Digamos
que assim o benefício não é para toda a Humanidade como um todo, mas para uma
minoria privilegiada. E isto porque o lucro individual (não coletivo) está na
base deste sistema de exploração económica:
“… os poderes económicos continuam a justificar o sistema
mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas
financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade
humana e sobre o meio ambiente. Assim se manifesta como estão intimamente
ligadas a degradação ambiental e a degradação humana e ética” (LS, número 56)[9].
O Papa Francisco vê tudo interrelacionado:
a degradação ambiental, a degradação humana e a ética. E observa tudo isto a
partir de uma perspetiva teológica: O
abandono do Deus da Vida em proveito de um ídolo da morte, concentrado no
Capital e no lucro, e que se realiza no anti-reino do Mercado. Isto não teria
que ser necessariamente assim, mas, de facto, é assim. Procurar somente paliativos provisórios e imediatistas,
por muito necessário e urgente que isto possa ser em determinados momentos, é
simplesmente agir sobre os efeitos e
não sobre as causas da injustiça
estrutural e, em definitivo, não resolver em definitivo o problema na sua raiz.
3.
Portanto, o Papa não quer ficar somente em mostrar os sintomas da degradação ecológica, mas quer aprofundar nisso e
encontra a raiz humana da/na degradação ecológica. Aprofunda aqui o que
denomina o paradigma tecnocrático dominante e no lugar e ação (práxis) do ser
humano no mundo. É todo o desenvolvimento do capítulo terceiro.
Refere-se,
mais recentemente, à revolução digital, a robótica, as biotecnologias e a
nanotecnologia (cfr. LS, número 96?). Mas Francisco não é só negativo com
respeito a estes desenvolvimentos técnicos, especialmente na área da medicina,
da engenharia e das comunicações. Desta maneira, a tecnociência, bem orientada, poderia produzir coisas
realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano.
Não
se trata, portanto, de um discurso catastrofista sobre o avanço científico e
tecnológico. Mas é aqui onde aparece uma tremenda ambiguidade: poderia servir,
por uma parte, para melhorar a vida humana sobre o Planeta Terra, e, porém, por
outra parte concede, a quem tem o domínio do conhecimento e do poder económico,
um poder impressionante sobre o conjunto da Humanidade e do mundo inteiro. Eis
aqui uma questão à qual o ser humano, que não é plenamente autónomo, está
exposto frente ao seu próprio poder, e falta-lhe uma ética sólida, uma cultura
e uma espiritualidade que o confrontem frente aos seus próprios limites.
Foi
já Francis Bacon, um defensor acérrimo da revolução científica no século XVII,
quem dizia que “saber é poder” e com uma certa ingenuidade na sua imagem da
Natureza pensava que ela era neutra e
que seria lícito “torturá-la para arrancar-lhe os seus mistérios mais
escondidos”. É a isto o que podemos chamar o imperialismo noético, sem conteúdos éticos, que levará a tantos
desastres naturais.
Na
nossa opinião, há, no fundo, uma imagem dualista da realidade, onde se opõe
sujeito (humano, todo-poderoso e dotado de legitimidade imperialista sobre a
Natureza) e objeto (uma Natureza supostamente neutra, ilimitada nos seus
recurso e sempre suscetível de ser explorada por uma das suas espécies: a
humana). Francis Bacon não tinha captado a inter-relação que se dá entre o ser
humano e a Natureza, ou melhor, o não-dualismo ou holismo existente entre um
ser humano e o seu contexto ecológico. Não há ser humano “e” Natureza, mas um
ser humano “na” Natureza. Ou melhor, um ser humano que é também “a” Natureza.
Dito noutras palavras, este paradigma dualista não
é um paradigma inocente: é o resultado de compreender o poder económico e
tecnocientífico como omnímodo, que
foi o projeto da burguesia. Num sistema como o capitalista que provoca o
conflito de classes, isto implica que uma minoria de privilegiados domina uma
maioria de despossuídos/as dos seus recursos e dos seus direitos, e a
exploração permanente dos recursos ecológicos (sobretudo, os de carácter
energético) que não são infinitos.
O Papa Francisco atribui duas características
centrais a este paradigma tecnocientífico: é homogéneo e unidimensional. O seu
sujeito é um sujeito dominador e exerce isto com uma técnica de possessão,
domínio e transformação.
Por isso:
“… o ser humano e as coisas
deixaram de dar amigavelmente a mão,
tornando-se contendentes. Daqui passa-se facilmente à ideia de um crescimento
infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da
finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos
bens do Planeta, que leva a “espremê-lo” até ao limite e para além do mesmo”
(LS, número 106)[10].
Eis o falso pressuposto de que, citando o Conselho
Pontifício de Justiça e Paz, “existe
uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua
regeneração é possível de imediato e que os efeitos negativos das manipulações
da ordem natural podem ser facilmente absorvidos” (LS, ibid.)[11].
E é que o paradigma tecnocrático e a sua
metodologia são reducionistas, e,
desta maneira, afetam a vida humana y a própria sociedade em todas as suas
dimensões. Esse paradigma tecnocrático tornou-se hoje em dia tão dominante que
é muito difícil prescindir dos seus recursos. E, o que é mais difícil ainda,
utilizá-lo sem ser sermos dominados pela sua lógica intrínseca. Ou seja, os
meios não são neutros. Não é possível separar o paradigma tecnocrático de uma
maneira de pensar, como se tratasse somente de uma metodologia. Pois essa metodologia
está dentro de um determinado universo mental (paradigma), que está presente em
tudo.
Sem dúvida, isto não impediria, na nossa opinião,
defender uma ciência humanista, mas teria que inserir-se dentro de um paradigma
humanista. Além isso, continuamos nós a pensar, não basta já o mero paradigma
humanista, pelos perigos, já assinalados, de um antropocentrismo imperialista,
consciente ou inconsciente. Deve ser realmente um paradigma ecológico (ou
melhor, na nossa reflexão pessoal e opção intelectual, um paradigma holístico, que integraria os seres humanos e as restantes
espécies da flora e da fauna, assim como simplesmente o contexto material do
Planeta, num todo harmónico. E é que necessitamos desenvolver urgentemente este
paradigma epistemológico. Porque da maneira de pensar originam-se umas
determinadas ações).
4. A proposta então do Papa é a de uma ecologia integral. Isto é algo coerente
com tudo aquilo que tem vindo a refletir ao longo da sua Encíclica e da qual
salientámos os pontos que nos pareceram mais importantes do seu discurso. O
Papa é consciente de que tudo está intimamente relacionado. Assim, para ele,
todos os problemas atuais estariam inter-conectados e precisaríamos para isso
de um olhar que tenha em conta todos os fatores da crise mundial. De aqui a
necessidade de uma ecologia integral.
Se a ecologia estuda, como tal, as relações entre
os organismos vivos e o ambiente onde se desenvolvem, o importante seria ter em
conta aqui que, ao falarmos de meio
ambiente, estaríamos a falar de uma relação
(ou até diríamos melhor, de uma inter-relação),
que é a que existe entre a Natureza e a sociedade que nela habita.
Se a ecologia estuda as relações entre os
organismos vivos e o ambiente onde se desenvolvem, o importante é ter em conta
que, ao falar de meio ambiente,
estamos a referir-nos a uma relação
(ou, melhor ainda, a uma inter-relação),
que e aquela que existe entre a Natureza e a sociedade que a habita. Nada seria
então mais erróneo do que entender a Natureza com algo separado de nós ou meramente
como um enquadramento ou uma moldura da vida humana:
“Estamos incluídos nela,
somos parte dela e compenetramo-nos” (LS, número 139)[12].
Esta mesma ideia é repetida abundantemente ao longo da Encíclica do Papa. Já
não é possível, portanto, encontra ruma resposta específica e independente (ou
seja, separada) para cada parte do problema. Segue-se de aqui uma crítica
radical do reducionismo.
Devemos então procurar soluções integrais que
considerem a interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas
sociais. Escreve Francisco:
“Não
há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral
para combater a pobreza, devolver a
dignidade aos excluídos e, simultaneamente,
cuidar da natureza” (LS, ibid.)[13].
(Ao fim e ao cabo, eco-logia e eco-nomia
fazem ambas referência a οἶκος ou casa).
Por isso, se tudo está relacionado, a saúde das
instituições sociais tem consequências no ambiente e na qualidade de vida
humana. Igualmente, ao lado do património natural há toda uma ecologia cultural
(que tem a ver com o património histórico, artístico e cultural) que pode estar
ameaçada. Aparece como uma parte da identidade, que pode estar ameaçada.
Aparece aqui como uma parte da identidade comum de um lugar e uma base para
construir uma cidade habitável e humana.
E o que é também muito interessante nesta visão de
Francisco é que é necessária uma ecologia da vida quotidiana. Uma ecologia do quotidiano. O que é que isto
quer dizer? Isto implica tratar do tema da qualidade de vida no dia-a-dia e
isto tem também como consequência tratar da temática do espaço onde se desenvolve a vida dos homens e das mulheres. O
ambiente serve para exprimir a nossa identidade. Como escreve o Papa Francisco:
“ É louvável a ecologia
humana que os pobres conseguem desenvolver no meio de tantas limitações. A
sensação de sufocamento, produzida pelos aglomerados residenciais e pelos
espaços com alta densidade populacional, é contrastada se se desenvolvem
calorosas relações humanas de vizinhança, se se criam comunidades, se as
limitações ambientais são compensadas na interioridade de cada pessoa que se
sente inserida numa rede de comunhão e pertença. Deste modo, qualquer lugar
deixa de ser um inferno e se torna o contexto de uma vida digna” (LS, número
148)[14].
São aqui, portanto, muito significativas as
categorias de ‘pertença’ e de ‘enraizamento’, em contraposição ao anonimato
social, ao des-enraizamento, à carência de identidade social e humana, que
provocam a ausência de sentido da vida humana.
Aqui conecta o Papa Francisco com o famoso
princípio do Bem Comum, de longa tradição na teologia moral católica. Assim, a
categoria de Bem Comum significa:
(1) O respeito pela pessoa humana em tanto que tal, que possui direitos básicos
e inalienáveis, orientados ao seu desenvolvimento integral.
(2) O Bem Estar social e o desenvolvimento dos diversos grupos intermédios, ao
aplicar-se aqui o princípio de subsidiariedade.
Um lugar notável nestes grupos intermédios é o da família, que foi sempre
considerado na teologia moral católica como a célula básica da sociedade.
(3) A paz social, que se produz sem uma atenção particular à justiça
distributiva (a sua violação gera violência). O Estado teria a obrigação de
defender e promover este Bem Comum.
(Nada de novo haveria aqui nesta conceção
tradicional da moral católica. Haveria que pesquisar se é verdade isso mesmo de
que a família é realmente a célula da sociedade e de que modelo de família
estamos a falar, e de que se é realmente o Estado quem promove o deveria
promover o Bem Comum, ou então é o contrário, ele é parte do problema e não
parte da solução. Mas, de todas as formas achamos interessante trabalhar com
esta noção de Bem Comum, ainda que seja um tanto difícil precisarmos agora algo
de mais concreto).
Finalmente, o que parece bastante interessante
neste capítulo é o seu apelo à justiça
intergeracional. Citando os Bispos de Portugal que diziam: “O ambiente
situa-se na lógica da receção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve
transmitir à geração seguinte” (LS, 159)[15],
o Papa Francisco interroga-se: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem nos
vai suceder, às crianças que estão a crescer?” (LS, 160)[16].
Trata-se de uma grande responsabilidade para cada geração e não deve ser um
resultado de um egoísmo geracional:
desfrutar ao máximo o que possamos e deixar para as gerações seguintes um
planeta doente.
Mas a pergunta sobre que mundo em geral queremos
deixar é uma pergunta de fundo, não somente de interesse ambiental. Temos que
formular esta pergunta de uma maneira não fragmentária, e, por isso mesmo, na
opinião do Papa, formulá-la conjuntamente com outras perguntas que vão unidas à
anterior: Para quê passamos por este mundo? Para quê viemos a esta vida? Para
quê trabalhamos e lutamos? Para quê é que nos precisa esta terra? São realmente
perguntas de fundo, que estão todas elas mutuamente implicadas e isso
mostra-nos uma vez mais a orientação holística do Papa Francisco.
De todas as formas, a solidariedade intergeracional transforma-se hoje num princípio
chave do Bem Comum.
5. E
quais seriam as linhas de ação?
Francisco
enuncia vários tratados internacionais recentes sobre política. Baseiam-se no
critério de que a interdependência obriga-nos a pensar num mundo único, num
projeto comum (cfr. LS, 164). São as famosas cimeiras mundiais (Cimeira da Terra, Rio de Janeiro, 1992), e
vários documentos a este respeito (Declaração de Estocolmo de 1972 Convenção de
Basileia sobre resíduos perigosos, Convenção vinculante sobre o comércio
internacional das espécies da fauna e da flora selvagens ameaçadas de extinção;
Convenção de Viena para a proteção da camada de ozono e da sua respetiva implementação
no âmbito do Protocolo de Montreal e as suas emendas, a Conferência das Nações
Unidas sobre o desenvolvimento sustentável, Rio + 20, no Rio de Janeiro, 2012)
que às vezes todos eles têm a grande fraqueza de não estabelecer depois
mecanismos eficientes verificáveis e uma formulação legal que permita
"punir infratores ecológicos". É interessante notar que tudo isto tem sido o resultado de
um movimento ecológico global que tem vindo a ser reforçado nos últimos tempos,
onde a sociedade civil coloca pressão sobre a sociedade política ou Estados e a
opinião pública está cada vez mais sensível a estas questões.
Mas o
Papa Francisco acha que um bom trabalho pode ser feito no nível ecológico
também na base da pressão sobre as instituições internacionais. Ele acredita
que há todo um diálogo para novas políticas nacionais e locais. E observa,
muito realisticamente:
“O drama de uma política focalizada nos resultados
imediatos, apoiada também por populações consumistas, trona necessário produzir
crescimento a curto prazo. Respondendo a interesses eleitorais, os governos não
se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afetar o
nível de consumo ou pôr em risco investimentos estrangeiros. A construção míope
do poder trava a inserção de uma agenda ambiental com visão ampla na agenda
pública dos governos” (LS, 178)[17]
Pelo
contrário, ele pensa que:
“A grandeza política mostra-se quando, em momentos
difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum a
longo prazo” (LS, ibid.)[18].
Francisco
parece mais moderadamente otimista quando se trata do nível local, onde podem
ser tomadas iniciativas diferentes e alternativas:
“…
aqui (na instância local) é possível gerar uma maior responsabilidade, um forte
sentido de comunidade, uma especial capacidade de solicitude e uma criatividade
mais generosa, um amor apaixonado pela própria terra, tal comos e pensa naquilo
que se deixa aos filhos e netos. Estes valores têm um enraizamento muito
profundo nas populações aborígenes” (LS, 179)[19].
Além
disso, o diálogo e a transparência nos processos decisórios são muito
importantes, buscando chegar a um consenso entre os diferentes atores sociais
que podem fornecer diferentes perspetivas, soluções e alternativas. E aqui o
Papa lança uma série de questões fundamentais para obter um verdadeiro
desenvolvimento integral: Para quê? Por quê? Onde? Quando? De que maneira? Para
quem? Quais são os riscos? A que custo? Quem paga os custos e como fará isso?
Igualmente
transcendental é o diálogo da política e da economia para a realização humana.
Ou seja, colocar os valores humanos acima dos dogmas do paradigma da eficiência
tecnocrática, o absolutismo das finanças e a crença na magia do mercado. O meio
ambiente é precisamente um dos bens que os mecanismos de mercado são incapazes
de defender ou promover adequadamente. Portanto, devemos redefinir o progresso.
Precisamente
o critério de Francisco é que o desenvolvimento tecnológico e económico que não
deixa um mundo melhor e uma maior qualidade de vida realmente superior não pode
ser realmente considerado como progresso (cfr. LS, 194). Há aqui, sem mencionar
diretamente a Max Weber, uma crítica da absolutização da racionalidade instrumental deste sistema (capitalista), a dos
meios, frente aquilo que o sociólogo chama racionalidade
substantiva ou valores (cfr. LS 195)[20].
E
para concluir este capítulo, o Papa Francisco também considera um diálogo
frutífero, realista e prático o que existe entre religiões e ciências. Se a
maioria das pessoas no planeta Terra se declara como crente, isto deveria levar
a um diálogo entre elas enfrentando problemas fundamentais como o cuidar da
natureza, a defesa dos pobres e a construção de redes de respeito e
fraternidade.
6.
Finalmente, a proposta de Francisco é por uma educação e espiritualidade ecológicas. É esta uma aposta
fundamental, que visa ir além dos imediatismos da ação social e política.
Pretende entrar nas consciências humanas, porque é aí onde temos que começar a
mudar atitudes e hábitos em relação à vivência ecológica, tanto individualmente
quanto em grupo. E é algo importante para a Vida Religiosa.
O
Papa Francisco está comprometido com outro estilo de vida, um estilo de vida
alternativo ao mercado de consumo, no qual somos todos doutrinados e
"formatados". Além disso, a situação atual da sociedade mundial
provoca uma situação de instabilidade e insegurança, que por sua vez favorece
formas de egoísmo coletivo.
Por
isso:
"Quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto
mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir" (LS, 204)[21].
Os
desastres não são apenas climáticos e naturais, mas também sociais. No entanto,
nem tudo está perdido. Os seres humanos sempre têm a capacidade de refletir,
reconsiderar e iniciar novos caminhos para a verdadeira liberdade:
"Não há sistemas que anulem, por completo, a
abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus
continua a estimular no mais fundo dos nossos corações" (LS, 205)[22].
Desta
forma, uma mudança de estilos de vida (ou, poderíamos dizer, de formas de vida) poderia implicar uma
pressão saudável sobre aqueles que têm o poder político, económico e social.
Daí a importância, para o Papa Francisco, dos movimentos de consumidores.
Porque a compra não é simplesmente um ato económico, mas um ato moral também
(cfr. LS 206)[23].
O nosso tempo deveria ser lembrado: (1) pelo despertar de uma nova reverência
pela vida; (2) pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade; (3) pela
aceleração na luta pela justiça e pela paz; e (4) pela alegre celebração da
vida[24].
O
importante, então, é superar o individualismo, desenvolvendo um estilo/modo de
vida alternativo, que possibilite uma mudança significativa na sociedade.
Diante dos "mitos" da modernidade (individualismo, progresso
indefinido, competição, consumismo, mercado sem regras) devemos recuperar os
diferentes níveis de equilíbrio ecológico: o interno, consigo mesmo; o solidário,
com @s outr@s; o natural, com todos
os seres vivos; o espiritual, com
Deus. Tudo isso, claro, inter-relacionado. Tudo isto toca profundamente o tema
da espiritualidade.
Esta
espiritualidade, para Francisco, não fica nos pronunciamentos abstratos, mas desce
até o concreto, encorajando educativamente a responsabilidade ambiental na vida
quotidiana: evitar o uso de plástico e papel, reduzir o consumo de água,
separação dos resíduos, cozinhar somente o que puder razoavelmente ser comido,
tratar os outros seres vivos com cuidado, usar o transporte público (ou
compartilhar o mesmo veículo entre várias pessoas), plantar árvores, apagar
luzes desnecessárias. Tudo isso dentro de uma grande criatividade. E o Papa
afirma:
“E não se pense que estes esforços são incapazes de mudar
o mundo. Estas ações espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para
além do que é possível constatar; provocam, no seio desta Terra, um bem que se
tende a difundir sempre, por vezes invisivelmente. Além disso, o exercício
destes comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a
uma maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a
nossa passagem por este mundo” (LS, 212)[25].
(Curiosamente,
estas palavras do Papa são perfeitamente adequadas à teoria da "campos
mórficos", desenvolvido por Rupert Sheldrake no campo estritamente
científico da Biologia[26].
É um texto, o do Papa, profundamente holístico).
E
Francisco aponta para tudo isso nas diversas áreas educacionais: escola,
família, mídia, catequese e um longo etc. Deveria também ser uma prioridade no
campo da política, das várias associações sociais e das próprias igrejas. O
Papa Francisco também espera que:
"... nos nossos seminários e casas religiosas de
formação, se eduque para uma austeridade responsável, a grata
contemplação do mundo, o cuidado da fragilidade dos pobres e do meio
ambiente" (LS, 214)[27].
Sem
esquecer também a relação entre uma educação estética adequada e a preservação
de um ambiente sadio!
Tudo
isso aponta, na mente do Papa Francisco, para uma verdadeira conversão ecológica. Porque a verdadeira
espiritualidade cristã não está desconectada do corpo, da natureza ou das
realidades deste mundo, mas vive com elas, delas e nelas, e em comunhão (comum
+ união) com tudo o que nos rodeia.
Portanto,
a crise ecológica é um apelo à conversão ecológica. O nosso modelo deveria ser
o de Francisco de Assis. Esta conversão envolve diferentes atitudes: gratidão e
gratuidade, a consciência amorosa de não estar desconectado doutras criaturas,
para formar com outros seres do Universo uma "estupenda comunhão
universal" (cfr. LS 220)[28],
o desenvolvimento da criatividade e o entusiasmo para resolver os dramas do
mundo, bem como uma grande capacidade de responsabilidade (diríamos
"responsabilidade ecológica").
É que,
teologicamente, cada criatura reflete algo de Deus e tem uma mensagem para nos
ensinar. Cristologicamente, com a sua encarnação, Jesus Cristo tomou sobre si
mesmo este mundo, e ressuscitado, vive nas profundezas de cada ser, rodeando
tudo com seu carinho e penetrando com a sua luz. E se Deus é um criador, isso
significa que ele infundiu em toda a sua criação uma ordem e um dinamismo que o
ser humano não deve ignorar.
Por
essa razão, a espiritualidade cristã propõe um modo alternativo de entender o
que é qualidade de vida. Também
incentiva um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de desfrutar profundamente,
sem ficar obcecado com o consumo:
"A espiritualidade cristã propõe um crescimento na
sobriedade e uma capacidade de se alegrar com pouco. É um regresso à
simplicidade que nos permite parar a saborear as pequenas coisas, agradecer as
possibilidades que a vida oferece sem nos apegarmos ao que temos nem
entristecermos por aquilo que não possuímos. Isto exige evitar a dinâmica do
domínio e da mera acumulação de prazeres " (LS, 222)[29].
Não
há que confundir, então, a felicidade com a soma dos prazeres. A felicidade é
qualitativamente diferente e superior à soma quantitativa dos prazeres. Aqui
surge a virtude da sobriedade, que
ajuda a valorizar cada pessoa e cada coisa, aprender a fazer contato e a saber
desfrutar com o mais simples. Mas há também outros prazeres que deveriam ser
desenvolvidos: a satisfação nos encontros fraternos, no serviço, na desabrochar
dos carismas, na música e na arte, no contato com a Natureza, na oração. Podemos
chamar esses prazeres que o Papa enumera “prazeres espirituais”.
Relacionado
com isto é a paz interior. A paz é
muito mais que a simples ausência de guerra. Precisamente a paz interior tem
muito que ver, pensa o Papa, com o cuidado da ecologia e do bem comum. Assim,
uma ecologia integral implica dedicar tempo "para recuperar a harmonia
serena com a criação, refletir sobre nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar
o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia" (LS, 225)[30].
Esta presença divina não deve ser fabricada, mas descoberta (cfr. ibid.)[31].
Uma
parte importante desta espiritualidade integral (nós a chamamos ‘holística’) é
o amor civil e político. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são
uma excelente forma de amor, que não ocorre apenas entre os indivíduos, mas
afeta também os "macro-relacionamentos, como as relações sociais, económicas
e políticas" (citando a Bento XVI, na sua Carta Encíclica Caritas in veritate, de 29 de junho de
2009)[32].
De um
modo poético, místico, num pan-en-teísmo
de grande significado, o Papa Francisco dirá que o Universo se desenvolve em
Deus, que preenche ou plenifica tudo. Assim, pode haver "misticismo a
contemplar uma folha, um caminho, num orvalho, no rosto dos pobres".
Assim, o ideal não é apenas ir do exterior para o interior para descobrir a
ação de Deus na alma, mas também para encontrá-la em todas as coisas[33].
Finalmente,
o Papa Francisco encontra uma fundamentação
trinitária (assim como uma mariana) para a eco-espiritualidade. Apoiando-se
no santo, teólogo e místico franciscano São Boaventura, descobre que toda
criatura leva dentro de si uma estrutura propriamente trinitária. E isto porque
as Pessoas divinas são relações subsistentes, e o mundo, que foi criado de
acordo com o modelo divino, é também uma rede de relações.
As
criaturas tendem para Deus. Mas também é característico de todo ser vivo tender
para outra coisa. Portanto, no coração do Universo pode-se encontrar
incontáveis relações constantes que estão secretamente
interligadas[34].
Isto convida-nos a não apenas admirar as múltiplas conexões que existem entre
as criaturas, mas também permite-nos descobrir uma chave para nossa própria
realização:
“Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e
santifica-se tanto mais quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em
comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim, assume na
própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a
criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma
espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade” (LS,
240)[35].
II. OS DESAFIOS PROFÉTICOS DA ECOLOGIA PARA A VIDA
RELIGIOSA
Chegamos aqui ao cerne da nossa reflexão, após a análise anterior (comentada) da Encíclica. Devemos agora tentar formular, num nível mais criativo e propositivo, quais são os desafios que consideramos mais significativos para @s religios@s e o seu projeto de vida no nível ecológico. Aqui estão algumas contribuições.
1.
Como religios@s, devemos estar muito atentos à coerência entre o nosso discurso
(evangélico) e a nossa vida (evangélica também). Não há nada mais
anti-testemunho e anti-evangélico do que pregar uma coisa e viver outra, muitas
vezes até mesmo opostas. Se algo fez sentido na vida religiosa durante séculos,
é o seu caráter profético.
Quando
o institucionalismo e a sua lógica (geralmente, poder, influência, prestígio e meios
materiais) predominam nas nossas congregações e nas nossas vidas pessoais, em
seguida, "o sal perde o seu sabor", e nós perdemos o nosso caminho, o
nosso Norte (ou o Oriente, segundo se veja). E quando o sal perde o sabor e a
eficácia, é melhor atirá-lo fora. O problema da VR (Vida Religiosa) não é a
diminuição significativa do número dos seus membros, mas a perda da qualidade
de vida que deveria possuir. "Que os irmãos preguem com suas obras",
ou com suas vidas, disse São Francisco de Assis a seus irmãos e isso é válido
para todos nós que dizemos que nos colocamos na perspetiva de Jesus. Este é o
princípio geral que afeta toda a nossa evangelização, especialmente nas áreas
de Justiça, Paz e Ecologia, mas também a nível do âmbito das nossas próprias
comunidades e da sua experiência de fraternidade/sororidade.
2. O
Papa Francisco chama a nossa atenção na sua Encíclica para uma situação social
muito opressiva e discriminatória. Especialmente com @s mais pobres, marginais
e excluíd@s da Sociedade. Não são suficientes a "caridade social" e as
obras de misericórdia. Isso é trabalhar mais nos efeitos do que nas causas.
Sem negar a extrema necessidade de um imediatismo na ajuda urgente, devemos nos
mover mais para um trabalho que incida mais nas causas da pobreza, marginalização, exclusão.
Lembremo-nos
aqui daquelas palavras de um profeta latino-americano, como foi o Monsenhor
Hélder Câmara, do Brasil, quando disse: "Se eu digo que temos que
alimentar os pobres, chamam-me de santo. Se eu disser que devemos eliminar as
causas da pobreza, chamam-me de comunista ". Religiosos e religiosos deveriam
ser os porta-estandartes da causa da Justiça, Paz e Ecologia (JPE), porque é a
mesma causa do Evangelho e do seu Mestre, Jesus de Nazaré. Promover a
igualdade, paz profunda (que começa a partir do interior) e o total respeito
pela Natureza deveriam ser as nossas práticas quotidianas e o nosso testemunho
no meio duma sociedade capitalista de esbanjamento, desigualdade e privilégio.
3. O
Papa também nos chama a atenção para a mentalidade produtivista do paradigma
tecnocrático, onde o que conta é a idolatria do dinheiro, do sucesso, do poder
e não contam os valores humanos da dignidade de todos os seres humanos, de todos
os seres vivos, flora e fauna. Podemos perguntar-nos: onde entra isto nas
nossas escolas, na nossa missão como educadores, nas nossas paróquias, na nossa
pregação, na nossa obra de caridade, nos nossos escritos e práxis quotidiana,
incluindo aqui a experiência comunitária? Tudo isto não é um acessório, mas o
cerne da mensagem que dizemos defender no Evangelho, através do carisma
especial d@s noss@s fundadores/as. Portanto, o JPE é uma "pedra de
toque" na verdade das nossas vidas apostólicas e comunitárias.
4.
"A macieira não pode dar peras". Como vamos promover os valores da
defesa da Natureza se não temos isso ainda muito claro na nossa mentalidade de
religios@s? Às vezes, o mais difícil é pregar estas coisas aos nossos próprios
irmãos ou irmãs. Mas é por aí que se começa: vivendo-as nós propri@s e contagiando-as
aos outr@s. A denúncia é importante, mas deve apoiar-se no anúncio de uma
prática quotidiana ecológica, comunitária, fraterna e de defesa da justiça
diante d@sd@s injustiça da História. Há que programar estas coisas e avaliá-las
periodicamente. O Papa deixou-nos vários exemplos que, para um bom ouvinte,
deveríamos implementar e até ir mais além.
5.
Além dos vários aspetos práticos que são mencionados aqui e ali na Encíclica
papal, seria bom, por exemplo, em relação à questão ecológica, que nos nossos Projetos Comunitários entrassem
perguntas como as seguintes (com critérios de avaliação e de monitoramento):
*
Temos maneiras alternativas de gerenciar a geração de energia da nossa
comunidade, levando a uma maior economia de energia (em termos de economia/poupança
de eletricidade, água, uso de plásticos, papel etc.)?
*
Temos a disciplina de separação de lixo?
* Tentamos
usar o transporte público sempre que possível ou compartilhar os veículos que
temos, levando várias pessoas, especialmente ajudando pessoas pobres e
necessitadas sempre que seja necessário (indo a médicos, viagens ou parte
delas, etc.)? Que tal sobre o uso de bicicletas e outros meios não poluentes?
*
Existe a possibilidade de uma horta comunitária? E, acima de tudo, de
promovê-la entre @s mais pobres? No nosso trabalho pastoral, promovemos
cozinhas comunitárias, fogões solares populares, métodos de cultivo hidropónico,
entre outros possíveis?
*
Incentivamos também nos nossos trabalhos pastorais, a medicina alternativa,
especialmente a medicina popular, e o uso de fitoterapia curativa? Que tal
promover hábitos mais saudáveis e uma alimentação mais saudável? Que tal a extensão da comida vegetariana ou
semi-vegetariana? Promovemos também a alimentação saudável nas nossas
comunidades, com base na maior introdução de vegetais, frutas, líquidos
naturais, como sumos de frutas e água purificada em abundância, proteína
vegetal? (Isto não deve ser um privilégio de alguns lugares, pois, se
pesquisadas, também existem alternativas populares e baratas).
*
Promovemos nas nossas comunidades a prática de exercícios físicos em geral e de
outras práticas alternativas, como hatha-yoga,
tai chi, pilates ou equivalentes, que ajudem no equilíbrio psico-físico-espiritual?
Fazemos também isto no nosso trabalho pastoral?
*
Promovemos o hábito de meditação ou atenção plena (mindfulness), que nos ajudem na observação profunda dos nossos
pensamentos, emoções, bem como nos permitem viver mais no aqui-e-agora, no Presente
e, é claro, vivemos a Presença Divina, no aqui-e-agora?
*
Procuramos contato com a Natureza, sem sermos viciados em telemóveis, na
Internet e afins, e sem sermos vítimas, em geral, do CEM (poluição
eletromagnética)?
* Promovem
as nossas Congregações a formação de alguns irmãos e irmãs nas Ciências Sociais,
com o propósito de oferecer tecnicamente
modelos de economia alternativa ao sistema capitalista dominante (modelos de uma
economia socialista autogestionária, por exemplo), bem como formular modelos
políticos de democracia direta e participativa, que ajudem a superar o modelo
vigente de democracia meramente representativa e formal?
*
Promovemos espaços e tempos de experiência comunitária da Arte em sua forma
plural de manifestação? Não apenas em nossas comunidades, mas entre @s pobres e
excluíd@s. Uma Arte de livre manifestação, onde se expressa o melhor de nós
mesm@s, gerando criatividade, bom humor, positividade e hábitos alternativos de
identidade.
*
Promovemos hábitos de vida simples e naturais, com uma mística de gratidão e
gratuidade, regozijando-nos com todas as coisas simples da Natureza?
* E,
acima de tudo, observamos profundamente os nossos apegos e aversões de todos os
tipos que nos fazem sofrer, e não ajudam a uma saudável experiência
comunitária?
* Por
fim, promovemos uma vida em nossas comunidades que se preocupe com os direitos
humanos d@s mais pobres, especialmente contra a desigualdade de gênero, o abuso
infantil, os direitos d@s trabalhadores/as e d@s jovens? Em particular,
encorajando as práticas de autogestão d@s pobres, que se auto-organizem e
cresçam em consciência social?
São
apenas algumas sugestões.
Nalguns
casos, são bastante difíceis de executar devido à precariedade de meios, mas
isso não pode ser visto com uma mente negativa e pessimista, mas como um
incentivo para trabalhar, embora com resultados momentaneamente muito
insignificantes. Mais uma vez, o que é interessante aqui não são os grandes
espetáculos nos resultados, mas aquele "gota a gota" que humildemente
constrói algo qualitativamente diferente. Com resultados precários, provisórios
e muito modestos, sem dúvida. Mas que são qualitativamente diferente dos
padrões dominantes.
Como
o Papa Francisco diz nalgum momento, estas são atitudes importantes, embora os
resultados não possam ser vistos. Eles resultarão noutros lugares, por
transmissão no espaço-tempo (aplicando os princípios acima mencionados do que
foi chamado anteriormente como "campos mórficos", de Rupert
Shelkdrake), embora não haja contato físico.
Se
somos verdadeiramente mulheres e homens de fé evangélica, devemos acreditar que
isso é possível. São questões de Espiritualidade, de "esperança contra
toda a esperança". É assim que uma revolução é construída, a partir de
baixo, pacífica-mente, mas persistente-mente. A revolução da não-violência
evangélica!
Seremos
então agentes dela ou meros consumidores/as pequeno-burgueses/as …
"religios@s"?
fr. rui manuel grácio das neves op
lisboa
(portugal)
16.11.18.
[1] PAPA
FRANCISCO, Laudato Si’. Sobre o cuidado
da casa comum (Paulus, Lisboa 2015), número 137, p. 105. Usamos aquí a nova
ortografía portuguesa segundo o Acordo Ortográfico e utilizamos também a
linguagem de género, por meio da “arroba”. A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium aparecerá com as
iniciais EG e a Encíclica Laudato Si’
com LS, seguido do número da página correspondente. A terminologia Ibid. significa aqui, neste nosso artigo,
que a citação específica que fazemos aparece na mesma página da citação
anterior.
[7]
Cfr. Rui Manuel Grácio das Neves, Dios
resucita en la periferia. Hablar de Dios desde América
Latina (San
Esteban, Salamanca 1991). Este livro (originalmente uma tese de doutoramento em
Teologia) inscreve-se numa peculiar tradição latino-americana de diálogo entre
a Teologia e as Ciências Sociais, na linha do que vem sendo realizado desde há
já décadas por Franz Hinkelammert e o seu grupo do D.E.I., em San José de Costa
Rica.
[20] Já no início do século passado este visionário sociólogo alemão falava do "desencantamento do mundo", como algo típico da Modernidade.
[26] De um modo muito sucinto, podemos dizer que um "campo mórfico ou morfogenético" é uma teoria biológica que defende que toda ação gera um padrão ou modelo de comportamento futuro, com mais probabilidades de voltar a acontecer novamente, do que qualquer outro que nunca tenha sido dado. Isto é, gera um "hábito natural", se assim se puder dizer. Ou, de outro modo, dada uma certa "massa crítica" de casos, é possível que um evento biológico ocorrido seja transmitido e reproduzido no espaço/tempo no futuro, sem contato físico ou espacial. Possivelmente, a física quântica poderia fornecer uma base para essa teoria biológica. Cfr., entre outras obras, Una nueva ciencia de la vida. La hipótesis de la causación formativa. Kairós, Barcelona, 4ª.ed., 2011.
|
|
[30] Ps. 163-164.
[31] P. 164.
[32] A citação do
Papa encontra-se numa nota a pé de página, a 156, da página 166 (LS, 231).
[33] O Papa cita aqui, na página 168, a São Boaventura:
“A contemplação é tanto mais elevada quanto mais o homem sente em si mesmo o
efeito da graça divina ou quanto mais sabe reconhecer Deus nas outras
criaturas”. Também se refere a São João da Cruz, quando ele afirma que tudo o
que de bom existe nas coisas, assim como as experiências do mundo, estão
eminentemente em Deus de maneira infinita, ou melhor, cada uma destas grandezas
que se dizem é Deus. Falando da Eucaristia com um sentido cósmico, o Papa
Francisco refere-se, mas não cita explicitamente (embora sim a João Paulo II),
a Teilhard de Chardin. E, numa perspetiva ecuménica, refere-se também Francisco
a um mestre espiritual sufi, Ali Al-Kawwas, poeta e místico sufi do século IX,
quando ele afirmava a necessidade de não separar muito as criaturas do mundo da
experiência de Deus na interior (ver nota 159 das páginas 167-168 da LS). Não
resistimos à tentação d citar este mestre Sufi: "Não é preciso criticar
preconceituosamente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. Há um
‘segredo subtil’ em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados
chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água
que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássaros, o
dedilhar das cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfermos, o gemido dos
aflitos…”
[34] O Papa
Francisco apoia-se aqui no magistério de São Tomás de Aquino (Summa Theologiae I, q.11, art. 3; q. 21,
art. 1, ad 3; q. 47, art. 3) (cfr. a nota a pé de página número 171, da LS 240,
página 173).
[35] Ps. 173-174.